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Por favor, morde-me no pescoço ou chamo a bruxa, tudo é fantástico! (3): Quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele

LOBISOMENS

1421-31. Dilacerada pela guerra civil entre os Bourgogne e os d’Armagnac, pelas destruições da Guerra dos Cem Anos com os ingleses, a miséria que traz à maioria da população, as constantes epidemias (de que a peste negra fazia também parte) acaba por causar, nos invernos particularmente frios de 1421, 23 e 31, ocorre a invasão diária de Paris por inúmeras alcateias de lobos, que desenterram e devoram os mortos e atacam e matam os vivos.

Imagem do filme “Legend of the Werewolf”, realização de Freddie Francis, 1975
Imagem do filme “Legend of the Werewolf”, realização de Freddie Francis, 1975

Este fenómeno não era uma exceção, mas a regra – após uma guerra ou uma pandemia ocorriam graves tumultos nas cidades, tanto na Idade Média como na Renascença.

Les loups sont entrés dans Paris“, como cantava Serge Reggiani.

As superstições populares multiplicam-se, como é óbvio, e espalham-se, com adaptações, a toda a Europa.

Surge então a figura do feiticeiro lobisomem (sorcier loup-garou) que em certas ocasiões (nas noites de lua cheia, por exemplo) se reveste de uma pele (périsse) e “personalidade” de um lobo, e persegue e devora os pobres humanos.

A ideia do homem que se transforma em lobo já tem milhares de anos. Heródoto (século V AC) menciona que os citas iranianos e os gregos garantiam que o povo Neure (vivendo entre os rios Boug e Dniepr) eram licantropos, transformando-se em lobos periodicamente e depois reassumindo a forma humana.

Mas homens transformados em lobos foi motivo de condenação à morte até ao século XVII na Europa, embora os médicos mais inteligentes procurassem a todo o custo encontrar uma explicação racional para a força de tais crenças populares. Porfíria, hipertricose, hirsutismo, alucinações provenientes da ingestão de plantas ou cogumelos venenosos.

De nada serviu a argumentação dos doutores.

Aliás, lendas das civilizações pré-romanas davam um carácter sagrado e altamente prestigiante ao lobo (até Rómulo e Remo, fundadores de Roma, foram criados por uma loba, Acca Larentia).

Imagem do filme “Wolf”, realização de Mike Nichols, 1994
Imagem do filme “Wolf”, realização de Mike Nichols, 1994

Na Hrafnsmal, velhíssima saga viquingue, os guerreiros Ulfheonars combatiam uivando como lobos, em alcateias. Esses guerreiros loucos, lavando as suas espadas em sangue, no furor da batalha, acabavam por se transformar em lobisomens.

Mas o que são os licantropos? No século XVIII era considerada uma alucinação induzida por defuntos, uma loucura (“folie louvière“), em que os doentes eram virtualmente imortais, quando na forma animal e só poderiam ser mortos por uma bala de prata.

Alguns demónios cavalgavam lobisomens quando em viagem para o Sabbat.

Mas na antiguidade greco-romana os lobisomens tiveram descendentes ilustres. Apolo e Artemis eram os “filhos da loba” (Léto, amada por Zeus). Foi também ele que puniu Lykaon, antigo tirano da Arcádia, que lhe serviu a carne humana de um dos seus filhos, que acabara de matar. Para o punir, o rei dos deuses transformou-o num lobo voraz, que nunca deixaria de se lembrar que fora humano e nunca conseguiria saciar a fome. O canibal parricida não podia exprimir-se senão por uivos lamentosos e prolongados.

Públio Virgílio (70 a.C.), na sua obra “Éclogas” menciona expressamente a faculdade de os homens se poderem transformar em lobos.

Numerosas são também as tribos mongóis e turcas que consideram o seu pai como um homem-lobo.

Na mitologia germano-escandinava eram, também, criaturas sombrias que anunciavam o caos e o fim do universo. O demoníaco lobo Fenrir, filho do demónio Loki, leva o seu furor até às portas do domínio dos deuses.

Seus filhos, Skoell e Hati, devoram o sol e a lua.

A tetralogia de Richard Wagner inspira-se nos horrores que esses lobos gigantes trazem aos homens e aos deuses. Vritra, o lobo da noite, dos Veda hindus, tenta fazer o mesmo ao sol. Para servir de guia nos meandros e caminhos tortuosos da morte, os egípcios invocam Oupouaout, o deus de cabeça de lobo.

Vítimas de sortilégios, ou voluntariamente, alguns seres humanos poderiam transformar-se em lobos.

Ver o seu corpo tornado, da pele aos ossos, num enorme lobo só se processa em noites de lua cheia, na noite de Walpurgis ou Halloween ou por encantamento de um feiticeiro.

  1. Bonifácio, o imperador germânico Sigismundo (século XV), concluíram, em doutos congressos por eles convocados, na realidade dos lobisomens e dos poderes que lhes eram atribuídos.

Numa palavra, senhor da noite, vagueando pelas florestas ou em torno de casas campestres isoladas, o lobisomem reúne em si os fantasmas, as superstições e os medos recalcados de uma sociedade rural na qual o paganismo se manteve e mantém, por meio dos contos populares.

“The Howling”, realização de Joe Dante, 1981
“The Howling”, realização de Joe Dante, 1981

Um tema tão aliciante inspirou um sem número de filmes (centenas) de que cito apenas dez, os meus favoritos.

Em 1935, “Werewolf of London“, de Stuart Walker, com Henry Hull e Warner Oland, dotado de uma sofisticação que só raramente volta a aparecer na enorme legião de filmes sobre o tema.

Em 1941, “The Wolf Man“, de George Waggner, com o inimitável Lon Chaney Jr.

Em 1943, “Frankenstein meets the Wolf man“, de Roy William Neil, com Lon Chaney Jr., agora referência obrigatória na personificação lupina, assim como o húngaro Bela Lugosi como Drácula patenteado.

Em 1961, realizado pelo inovador dos temas de terror no Reino Unido, Terence Fischer (Hammer Films), “The Curse of the Werewolfe“, com Oliver Reed e Yvonne Romain.

Em 1972, realizado por Daniel Petrie, com David Janssen, Bradford Dillman e Barbara Rush, “Moon of the Wolf“.

Em 1975, realizado por Freddie Francis, “Legend of the Werewolf“, com Peter Cushing e Hugh Griffith.

Em 1981, de John Landis, “An American Werewolf in London“, com David Naughton e Jenny Agutter.

Em 1994, “Wolf“, de Mike Nichols, de enredo inovador, numa excelente interpretação de Jack Nicholson, Michelle Pfeiffer e Christopher Plummer.

De 2010, “The Wolfman“, baseado na obra de Curt Siodmak, realizado por Joe Johnston, com Benício del Toro, Anthony Hopkins, Hugh Weawing.

Em 2012, “Werewolf: the Beast among us“, de Louis Morneau, com Stephen Rea.

Imagem do filme “Werewolf: The Beast Among Us”, Louis Morneau, 2012
Imagem do filme “Werewolf: The Beast Among Us”, Louis Morneau, 2012

No campo da ficção literária são inúmeras as histórias sobre o tema, mas quase todas de péssimo valor ou criatividade. Como, por exemplo, o livro “Le Meneur de loups” de Alexandre Dumas de 1857, e “Hugues-le-Loup“, 1867, de Erckmann-Chatrian. No século seguinte, Algernon Blackwood, no Reino Unido, Robert Howard, Manly Wade Wellman tentam com sucesso variável fazer do lobo a base das suas “obras-primas”. Verdadeiramente dignas de menção parecem ser as novelas de 1933, de Guy Endore, “The Werewolf of Paris” e “Cycle of the Werewolf” de Stephen King (1985) e “Lobo“, de Adolfo García Ortega (2000), essas de real valia sendo de alguma forma, os clássicos do tema.

Os monstros (na literatura, cinema, banda desenhada) são muitas vezes apenas diferentes biologicamente do ser humano. A sua teratologia mostra-nos animais com aparência de homens e, em certa medida, o seu comportamento, confundindo no seu corpo o humano e o animal (ou vegetal ou inanimado).

Há homens-tigres, mulheres-raposa (demónios no Japão da lenda), King-Kong ou Godzilla. Uma recente série TV da Fox (2011-2017) apresentava em “Grimm” um interminável jardim zoológico de monstros.

Mas porquê o lobo?

Podemos especular sobre as causas da sua promoção.

Por exemplo, a meu ver, a transição da humanidade do nomadismo de caçadores/coletores para a agricultura sedentária e a pastorícia, deu protagonismo ao maior assassino dos primeiros rebanhos de ovelhas e cabras: o lobo, sozinho ou em alcateia.

O lobo era o demoníaco ser que privava os homens de alimento e por vezes atacava-os e matava-os.

E este terror dos lobos prolonga-se na História, exagerando-lhes o tamanho, tornando-os servos do demónio, dando-lhes uma inteligência fictícia que acabava por transformá-los em homens.

Os chefes vikings depois de uma vitória sobre os camponeses das costas europeias, diziam habitualmente: “hoje alimentámos bem os lobos”.

O terror que se eterniza leva a tais excessos que os escoceses dos Highlands faziam (com enormes custos de deslocação) enterrar os seus mortos em ilhas (inacessíveis segundo eles) como Handa, Sutherland, Loch Awe, Argyll, onde os defuntos escapariam aos dentes ávidos das feras.

Os pastores e agricultores de toda a Europa (até quase ao século XIX) temem não só pela vida dos seus carneiros, mas pela sua. Para a moral cristã, o lobo era o Inimigo, símbolo do diabo que, ao devorar os corpos, devorava também as almas das suas vítimas.

Além disso, os lobos eram também os veículos da transmissão da raiva (a cães e homens), disseminando largamente, pelas suas dentadas, a infeção.

Já Celso, médico do imperador Augusto (século I, AC) lhe descreve os sintomas e aponta como responsável o lobo.

E não é por acaso que os escritores de histórias infantis Grimm e Perrault reduzem a escrito (séculos XVII, XVIII), a transmissão oral, pelas aldeias, do Loire aos Alpes bávaros, do Norte de Itália à Lorena, a biografia do lobo como o vilão do enredo.

Resumindo: o que são os licantropos? Espíritos malditos, deformados e pérfidos, travestidos de lobo, que devoram os corpos e se apropriam das almas, malignas incarnações de Satã, doentes monstruosos, submissos às fases da lua e como Lycaon, loucos que matam a fome, comendo pessoas, orientados por fantasmas.

Foi talvez o cinema que lhes deu a popularidade de que gozam, imerecida na literatura ou na banda desenhada. O certo é que lobo, silhueta sinistra, de aspeto ameaçador na extensão da taiga siberiana, dentes arreganhados, pronto a matar, ilustra com felicidade os efeitos do medo num homem desarmado e a noção que nada o poderá salvar da morte. Nem mesmo (se as tivesse) as balas de prata.

Carlos Macedo

 

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