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Por favor, morde-me no pescoço ou chamo a bruxa, tudo é fantástico! (4)

No oceano da monstruosidade: a mente tortuosa, a deriva no laboratório, o temor do que pode vir no espaço, a maldade no corpo (por obra e graça do Diabo)

4 MONSTROS

Boris Karloff a ser maquilhado para a sua incontornável representação em Frankenstein, realização de James Whale, 1931
Boris Karloff a ser maquilhado para a sua incontornável representação em Frankenstein, realização de James Whale, 1931

O filósofo Georges Canguilhem defendia que os fracassos teratológicos são uma falha da natureza que nos pode implicar duas vezes: primeira, porque nos pode atingir; segunda, porque poderemos estar na sua origem.

Falava dos monstros[1] como um alerta dos deuses que nos faz lembrar, com um ato que contradiz a ordem natural das coisas, que o ser humano é impotente para alterar o que eles fizeram, modificar o seu destino.

Um monstro é uma curiosa criatura, muito próxima e muito afastada da nossa espécie, um ser caótico, com alguns traços de humanidade, mas excêntrico, descontrolado em forma e comportamento, singular, desproporcionado, quase sempre cruel, brutal ou gerador de terror primevo.

É a partir da Grécia que o homem rejeita os animais e os torna em “monstros”. O que peca por ingénuo egocentrismo.

Dizia Beaudelaire dos monstros pintados por Goya: “o grande mérito de Goya consiste em criar monstros verídicos. Os seus monstros parecem viáveis, harmoniosos. Ninguém melhor que ele conseguiu reproduzir o sentido de absurdo possível. As contorções, as faces bestiais, as caretas diabólicas, estão impregnadas de humanidade“.

Jorge Luis Borges publica mesmo, com carinho, em 1965, um “Manual de Zoologia Fantástica”.

Sendo inúmeras as formas com que os monstros se nos apresentam, é impossível uma identificação honesta e congruente.

Para Fitz James O’Brien, em 1849, “tinha um corpo humano, deformado, grotesco, horrível“. Os “seus traços ultrapassavam em horror “tudo o que o autor vira ao longo da vida“, uma fisionomia que seria a de um vampiro que se nutrisse de carne humana (“What was it?”).

Para Jean Ray, uma mão humana (“La main de Goetz von Berlichingen”), 1944, como também outra (enriquecida com um olho) para Donald Wandrei (mesmo ano, “The Eye and the fingers“) geram mais horror que uma alcateia de demónios.

Os monstros inomináveis e impossíveis de descrever da mitologia de Howard Philips Lovecraft e dos seus seguidores, Augustus Derleth, Robert Bloch, Brian Lumley são inumeráveis, e geram pavor:  Cthulhu, Nyarlathotep, Yog-Sothoth, R’lyeh, Tsathoggua, entre tantos mais são inomináveis, ponto final.

Algumas das criações mais assustadoras, sobretudo por se não saber de onde veem, que objetivo as move, são uns bípedes porcinos, de garras afiadas, carnívoros e pérfidos, que William Hope Hodgson retrata em “The House of the Borderland“.

Mas há mais, há pior.

imagem filme a coisa

“A Coisa”, realização de John Carpenter, 1982E inesperado.

Mesmo um salgueiro anão, nas margens do Danúbio, pode tornar-se, nas mãos do britânico Algernon Blackwood, num aterrador monstro, de forma, poderes e instintos assassinos infernais.

Mas os monstros que povoam os nossos pesadelos encontram uma das suas mais fascinantes descrições em “Salem’s Lot” de Stephen King.

“… estendeu a mão e abriu a porta. Myke Ryerson estava estendido ao longo do púlpito. O luar entrava como uma torrente pelas janelas e tingia de prata o quarto, convertendo-o num pântano de pesadelo. O estalar percetível de uma mesa era peculiar, dele ressumando uma maldade inenarrável.

Círios pelo chão, livros de hinos apodrecidos pela humidade, o altar desmoronado, onde agora só as ratazanas deviam dizer missa aos sábados. Perguntava-se que monstros deveriam andar por ali, além destas. Neste momento deviam segui-lo, nos cantos onde acoitavam, com os seus olhos amarelos de víboras.

Mike está morto e foi autopsiado.

Mike abriu os olhos.  Sentia-se no ar o Mal como excremento ou assa-fétida.”

“Durante um momento resplandeceram, medalhões de prata com cercadura de sangue e muco. Viam-se as bordas malcozidas do abdómen, que o médico legista arranjara sem grande cuidado. Mike sorriu e os seus caninos e incisivos eram muito brancos e agudos. O sorriso não era mais que uma contração dos músculos que lhe cercavam a boca; não abrangia os olhos que conservavam uma mortal ausência de expressão”.

Este pequeno trecho personifica como é possível tornar um pacato ser humano (morto) num monstro aterrador e perigoso.

Ao longo da História, pintores ilustradores (e recentemente fotógrafos) nunca perderam a tentação de obter efeitos dramáticos, numa obsessão de alcançar efeitos assustadores na apresentação de criaturas distorcidas e monstruosas. Por exemplo, Ribera com a sua “Mulher de barbas aleitando o seu bebé“, gigantes e anões quase inverosímeis, crianças hidrocéfalas (Füssli, 1741), muitos mais.

Às deformações físicas do “monstro” corresponde uma metafísica: o monstro, ser inconcebível, constitui um desafio ao raciocínio humano.

Daí o ódio ou adoração que sobre eles recai: sacralizados e diabolizados, não podem ser tocados pois poluem tudo pelo simples facto de estarem vivos.

Denis Diderot (“Entretiens”, “Le Rêve d’Alembert“) nega a conceção providencialista da vida, dizendo que não tendo sido preformado pelos pais de modo normal, é um acidente da natureza (epigénese).

Aberrante, monstruoso. No bestiário teratológico não hesitamos em chamar monstros (num filme que vimos) a Godzilla ou a King-Kong, mas a foto aumentada 100.000 de um simples ácaro é infinitamente mais repugnante.

Aranhas gigantescas, caranguejos radioativos (em geral, produto do cinema japonês), implicam sempre pavores ancestrais ou nojo dos seres humanos, que reproduzem nessas criações os seus fantasmas ancestrais, medos arcaicos dos pavores da noite, que devoram as crianças perdidas da tribo. Ou recentes (depois de Nagasaki, como não odiarão os japoneses, hegemónicos nesses tipo de filmes, as “monstruosidades que matam”?).

Aliás, é sempre o ser humano a causa (e não apenas a vítima ou o voyeur) de quase todos os monstros. Foram homens que os criaram: o Barão Victor von Frankenstein, em relação ao morto ressuscitado que é um mero objeto de um cientista fanático; o Dr. Moreau, que tortura para os “humanizar”, criaturas inocentes; o feirante sem piedade que exibe em espetáculos degradantes, o infeliz John Merrick (“Elephant Man“, de David Lynch); o canibal Hannibal Lecter, iniciado nesse petisco por bestas lituanas, na Segunda Guerra Mundial; os monstros vingativos de “Freaks“, de Tod Browning.

imagem filme freaks
“Freaks”, realização de Tod Browning, 1932

Mas a monstruosidade, como diversos livros, filmes, relatos históricos ou autobiográficos provam, não se limita a aspetos físicos, mas, a maioria das vezes, psicológicos, mentais. comportamentais.

Adolf Eichmann, Izbeth Bathory, Gilles de Rais, Landru, Dutroux, Jack the Ripper, os que ordenaram os indescritíveis genocídios de arménios, judeus, hútus, cambojanos e tantos mais monstros criminais foram monstros embora …exteriormente, vestiam-se, comiam, caminhavam como nós.

O século XX foi o século das sociedades consumistas de massa. Daí que os modelos totalitários de extermínio de integral que gera são por igual maciços. Os nossos “monstros” devem mais a Tamerlão ou Átila que a Napoleão ou Tojo.

Finalmente, há que referir o novo tipo de monstros que o novo século trouxe consigo em força.

O mutante, que tem com o ser humano um tipo de relações inédito. Não uma relação de ser com outro ser, mas a relação de um ser com algumas das suas potencialidades, transformadas em dimensões monstruosas. Pode ter diversas causas (radioatividade, acidente industrial, nova arma militar, experiência de um sábio louco).

Daí o “fantasmar” de escritores e cineastas sobre descobertas no campo teratogénico da hibridação ou mutação. São cada vez mais numerosas em filmes (“Shrinking Man” de Jack Arnold, “The Fly” de David Cronenberg, “Alien” III e IV, “Robocop“, de Paul Verhoeven, “Tetsuo“, de Shinya Tsukamoto).

Um monstro, um hopeful monster, tem, como em “Freaks” o mais odioso e comovedor filme que se pode conceber nesta área, a certeza de que só os seus irmãos de infortúnio o poderão compreender.

Como paradigma da infinita crueldade humana devemos verberar os comovedores seres a que chamamos “monstros de circo” ou o público que paga para os ver (com comentários jocosos ou insultantes)?

São verdadeiros monstros o pobre “elephant man“, o homem sem braços e pernas, a mulher baleia (monstro de obesidade, que nem se consegue mexer), a mulher barbada, a mulher lagarto, o Iéti, o Wendigo da cultura Algonquin canadiana (Grandes Lagos).

Apercebemo-nos que os monstros são resultado da evolução quase infinita das diferentes culturas, religiões, costumes, condições climáticas do meio onde nascem (como mitos ou histórias à lareira).

imagem filme semente do diabo
Imagem do filme “A Semente do Diabo”, realização de Roman Polanski, 1986

A figura (inventada) do Monstro de Loch Ness, na Escócia, não reproduz a silhueta esbelta de um drakkar viking, preparando-se para trucidar alguns milhares de escoceses?

O Wendigo não retrata o que sucederia a quem se arriscasse a viajar nas florestas canadianas de há dez séculos, sem armas nem alimentos?

Em resumo, o “monstro”, porque diferente (e provavelmente perigoso), retrata os pavores ancestrais de quem ainda sabia enfrentar com êxito o “anormal”?

Carlos Macedo

[1] Deriva talvez do latim: monere (advertir) que deu Monstrum, um alerta dos deuses.

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