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Um acontecimento cultural de topo no Ribatejo: A nova exposição de longa duração do Museu do Neo-Realismo

Naquele belo edifício desenhado pelo arquiteto Alcino Soutinho está agora patente uma exposição de longa duração que tem título magnífico: A Coragem da Gota de Água é Que Ousa Cair no Deserto, o conteúdo é emblemático, está ali uma boa parte do que melhor se produziu neste movimento estético em pintura, desenho, gravura, escultura, cerâmica, fotografia, basta atender aos nomes ali representados, tais como Júlio Pomar, Maria Keil, Lima de Freitas, Alice Jorge, Rui Filipe, Nuno San-Payo. É um ponto de partida de renovação museológica, a exposição ocupa todo o terceiro piso do nº45 da rua Alves Redol, em Vila Franca de Xira. No próximo ano, no piso de baixo, haverá uma ampla exposição documental sobre o pensamento e a literatura neorrealistas. No seu conjunto, estas duas exposições substituem aquela que esteve patente entre 2007 e 2021, intitulada Batalha pelo Conteúdo.

Pormenor da belíssima arquitetura traçada por Alcino Soutinho, a ilusão de um travejamento
Pormenor da belíssima arquitetura traçada por Alcino Soutinho, a ilusão de um travejamento onde há escadas que permitem sonhar de que naquele edifício se caminha numa viagem aérea

Escreve no catálogo de referência a historiadora de arte Paula Loura Batista: “O provérbio chinês ‘A coragem da gota de água é que ousa cair no deserto’ dá nome à exposição. Ou seja, é clara a importância dos contributos de artistas que num contexto histórico adverso afirmaram a sua prática artística. Estes artistas interpelam o seu tempo, questionando-o, refletindo-o, numa ‘prospeção da realidade portuguesa’ que projeta um futuro que desejava mais humanista.museu realism a gota de agua

Tal legado permite-nos confirmar o que já sabíamos: a qualidade estética e realista das obras neorrealistas; a sua diversidade formal; e a força da mensagem dos autores representados na coleção. O legado é resgatado para as gerações posteriores, não se esgotando num deserto sem memória. Salvaguardar essa herança é hoje um imperativo face aos discursos populistas que impedem visões críticas da história e criam um retrato amenizado do país, ao tempo do Estado Novo.”

O diretor do Museu do Neo-Realismo
O diretor do Museu do Neo-Realismo, David Santos, comenta com Paula Loura Batista, a exposição A Coragem da Gota de Água É Que Ousa Cair No Deserto, a nova exposição de longa duração deste museu

A historiadora, como outros autores que colaboram neste catálogo de referência, comenta um conjunto destas obras que se repartem em secções: o trabalho, o visitante vai ter para seu desfrute camponeses na safa de arroz, peixeiras ou varinas, pastores, carquejeiras, a dureza do trabalho e das condições de vida, camponesas, rendilheiras, e há um conjunto muito impressivo de fotografias da coleção de fotografia internacional, “A Família Humana”, património do Museu do Neo-Realismo; a paisagem, que, como observa David Santos, neste movimento estético ela apresenta uma certa correspondência entre a ideia de cenário e o vislumbre do real, vamos encontrá-la em figuras em ação laboral, no quotidiano ou no lazer, a exposição revela não só fotografias prodigiosas como óleos soberbos, por exemplo de Querubim Lapa ou João Hogan; a família, aqui releva o desejo de humanidade e futuro, a família na comunidade e em solidariedade, o visitante encontrará fotografias, pinturas, esculturas e cerâmicas de rara beleza; estamos agora na secção da política, esta arte tem uma incidência inequívoca sobre a realidade social, apela à transformação, estes artistas assumiram um profundo compromisso entre a arte e a sociedade, o conjunto escolhido é fortemente impressivo, envolve prisioneiros políticos, a repressão, a alegoria da fome, estão ali dois óleos que mexem com a gente, são de Júlio Pomar, datam de 1947, cenas no parlatório na prisão, há ali mãos ao alto que parecem querer tocar nos entre queridos que os foram visitar e também beliches, três corpos esquálidos, parece recordarem os corpos amontoados nas casernas dos campos de concentração, não faltam desenhos apologéticos de José Dias Coelho e a sua icónica Morte de Catarina Eufémia; agora o retrato, e de novo uma observação de David Santos: “O retrato associado ao período do neorrealismo revela, em termos genéricos, o compromisso ético e social dos retratados, na expressão de uma postura humanista face ao mundo e à sua contemporaneidade, realismo e expressionismo convivem aqui com a síntese formal e cromática promovida pelas vanguardas históricas, em terracota, litogravura, tinta-da-china, no óleo, no barro, o visitante será confrontado com retratos de Orlando Costa, Soeiro Pereira Gomes ou Alves Redol ou Margarida Tengarrinha.

Júlio Pomar, O Carro Na Calçada, 1950
Júlio Pomar, O Carro Na Calçada, 1950

E, por último, o lazer, a representação do lúdico, a partilha da alegria, há cenas que se inscrevem nas ilustrações dos romances e contos, o leitor nesta secção final da surpreendente exposição, uma museologia de luxo, contempla saltimbancos, jardins infantis, meninos em carros na calçada, uma cena de jogo do peão, bailaricos e um espantosíssimo carrossel, um remate ajustado para que a gosta de água floresça na leitura que o visitante faz daqueles artistas que viveram um mundo de extremos, que sonharam com a liberdade, que foram castigados num exílio interno ou execrados pelas suas convicções, afinal estes artistas, politicamente comprometidos, foram versáteis nas suas abordagens pelo conteúdo e pela forma, alguns deles, caso do genial Júlio Pomar, marcaram o tónus e o timbre pela convocatória às liberdades então silenciadas, e depois levantaram voo para outros movimentos artísticos.

Manuel Ribeiro de Pavia, ilustração para Fanga, de Alves Redol
Manuel Ribeiro de Pavia, ilustração para Fanga, de Alves Redol

Mas esta marca de água que a exposição de Vila Franca de Xira releva é de um tempo de denúncia e de inconformismo, e a despeito dessa força de protesto houve artistas que perdurarão entre o que melhor se produziu em determinado momento do século XX.

Exposição imperdível, que se repitam as visitas a esta brilhante exposição de longa duração.

Mário Beja Santos

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