Quarta-feira, Junho 12, 2024
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Aventuras inéditas do Sherlock Holmes em Portugal (1) – O caso dos capitais desaparecidos

“Não, Watson, não é espanhol, é português”.

“Por Jove e toda essa espécie de coisas, Holmes, como pode você adivinhar?”.

“Elementar, querido amigo. Já sei que só perco em o esclarecer. Dir-me-á depois que era absurdamente simples. Quando entrou, reparou na carta sobre a bandeja do pequeno-almoço. Viu que estava escrita numa língua estranha e olhou-a com mais atenção. De algumas palavras (as línguas são similares) pareceu-lhe espanhol e automaticamente olhou para a edição completa de Cervantes que está naquela estante do canto e murmurou (li-lhe nos lábios, meu caro…) “Olé!”.

Mas a língua é portuguesa, quem a escreve não denota grande cultura, tem um feitio boçal e agressivo, ocupa uma posição importante no actual partido do governo do rei Carlos de Portugal, tem barba esparsa e malcuidada, é corpulento e social-democrata. E não é Oliveira Martins”.

“Meu Deus, Holmes, é impossível!!!”.

“Elementar, como Você costuma escrever, nos seus inqualificáveis folhetins para o Strand Magazine!onze aventuras sherlock holmes

Mas é simples. Sei que é português e não castelhano, como consequência de uma modesta monografia que tive de elaborar sobre o catalão, outro linguajar daquela península bárbara, quando do caso das sementes de papoila de Barcelona, a que você chamou, num lapso para alguém como você, normal, “The case of the five orange pipes”. Escrever “vossemecê, senhor Olmes” e “a sua rainha Vitória” e ainda “hadem” por três vezes, não é muito abonatório da cultura do meu correspondente. Dizer “tem de nos ajudar ou…” e “ainda terei de dar uma carga de pau ao bêbedo do Ventura”, demonstra brutalidade, qualquer que seja o comportamento do cavalheiro ameaçado. Da barba, recebi três pelos gordurosos no sobrescrito, indício de desmazelo e de um desleixo num adorno capilar muito em voga nos países do sul. Que ocupa uma posição governamental diz-mo o envelope, que tem no cabeçalho ex-Ministério do Ambiente – A. Reino. Que é corpulento parece-me óbvio, pelo facto de o mesmo me ter dito, nessa carta, que não escreveu mais cedo por ter ido, por ordem médica expressa, abater “umas banhas a mais”, para umas “Termas de Monfortinho”! Que é social-democrata, deduzo-o por se me dirigir em nome dos companheiros do partido, ser esse o partido no Governo de Portugal e pelo gosto peculiar dos dourados do envelope e da laranja em seda, encastrada na parte superior da missiva.

Só eles poderiam ter um novo-riquismo tão evidente.

Que não é Oliveira Martins, deduzo-o pelos erros de ortografia e pela total ausência de odiosas notas de rodapé na carta”.

“Meu Deus! Assombroso! Sei bem por que o suporto – o Strand Magazine paga como Rothschild! – mas, por S. Jorge, não sei como ainda há quem o consulte!”.

“Completamente fora da carruagem de novo, Watson. Aquele jovem médico austríaco, o ano passado, pagou-me fortunas, para lhe fornecer dados para uns mesquinhos estudos que publicou sobre um ou uma tal líbido…  e aquele espantalho sombrio, de olhos vesgos, há dois meses, fez-me ganhar mais de duzentos guinéus, apenas para lhe ensinar (a título académico, para uma pequena monografia que redigi) como se podem assassinar impunemente prostitutas em Whitechapel. Como vê…”

Calei-me. Era o melhor, pois ele era mestre em Buritsu, o que quer que isso fosse. E desviei a conversa.

“Portanto…”

“Vou ou não aceitar o caso? A questão é indigna de si, velho amigo. Ou melhor é indigna, mesmo vinda de si…

Claro que sim. Já tive o assassino em série no Império Brasileiro, que também fala uma espécie de português, (embora apenas para aceder ao pedido expresso de Sarah Bernhardt) e estarei à vontade com essa gente”.

“The game is afoot”, Watson!”

Nem precisou de mo dizer. Soturnamente, mas com a celeridade de uma acção repetida mil vezes, encaminhei-me para a zona dos quartos e fui arrumar as malas de ambos.

E lubrificar o velho revólver militar (que, dado ter sido oficial-médico, manejava pessimamente).

E reservar, na Cook & Sons, as passagens.

E dar instruções indispensáveis aos arranjos domésticos da Baker Street 221-B, durante a nossa ausência, à mártir Mrs. Hudson.

E falar com um colega para me substituir no consultório (ainda me pergunto como tenho doentes).

E escrever a Lestrade para que se ocupasse dos crimes menores, na ausência de Holmes.

E a Mycroft, para que avisasse a nossa Graciosa Imperatriz e Rainha e o Governo de que teriam de passar sem Holmes durante longas semanas.

E arranjar aquela mistura especial de tabaco para cachimbo que fedia a esgotos e Holmes adorava.

E cocaína. E…

Digam lá, por melhor que o Strand Magazine me pague, se eu não mereço o que recebo!

E lá fomos para Portugal.

Hotel Bragança onde Sherlock Holmes e Watson se alojaram
Hotel Bragança onde Sherlock Holmes e Watson se alojaram

Duas semanas depois, tendo evitado a quarentena por sermos ingleses e consultores de um Ministro, chegamos ao Hotel Bragança, em Lisboa, dizem que a capital, onde nos deram quartos enormes, com janelas viradas para o rio (Tejo, creio) mas sem aquecimento (bem necessário, naquele estranhamente húmido mês de Julho) nem Bíblias na mesa de cabeceira.

A cidade era estranha, povoada por bandos de mulheres, de pernas nuas, fortes e peludas como as dos estivadores do nosso Tamisa, que traziam sempre, à cabeça, cestas fenícias de vime entrançado, com peixe cru em diversos graus de putrefacção. Garganteavam de vez em quando sons bárbaros, que se deviam destinar a afastar os transeuntes do cheiro fétido.

Havia também bandos enormes de sujeitos, macilentos e vestidos de preto (como referi, estávamos em Julho) que enxameavam os átrios das Igrejas (muitas) e de velhos edifícios sombrios (que Holmes me disse serem “repartições”, o que quer que isso significasse).

Em volta deles, produzindo um som permanente de ladainha, como gaivotas em torno de barcos de pesca, multidões de crianças, descalças e razoavelmente sujas.

De resto, um sol muito azul, uma certa pacatez siciliana e um odor que me fazia recordar o saudoso St. Bart’s da juventude (a morgue, penso) e restaurantes italianos.

Pouco depois de chegarmos, fomos visitados pelo nosso Ilustre Ministro Cliente.

Minutos antes de subir ao nosso andar já podíamos ouvir regougar, ofegante: “Malditas escadas…ora que porra… em que o peneiras me mete… ora eu… ai…ai…”. O sentido destas frases, como tudo o que a seguir se passou, só as conheci por Holmes que, odioso, também conhecia perfeitamente (outra “modesta” monografia) o calão português.

Holmes não se enganara. Corpulento, moreno carregado, beiços grossos, olhos manhosos faíscando por trás do “pince-nez” de ouro, vozeirão cordial, apertou-nos a mão e proferiu:

– “Já encomendei três orchatas! Calor terrível, meus senhores! A saúde, bem? E que tal a nossa Lisboa? Eu sou beirão (novo enigma para mim. Teriam regiões, naquele país minúsculo? Seria um grupo iniciático papista?) mas adoro esta cidade !!!”

– “Sr. António Montenegri”, cortou Holmes, “compreenderá que a urgência que referiu, na carta que me escreveu, não se compadece com trivialidades. Passemos aos factos”.

– “Era a badocha, o Relvado, agora é o Pestanas, até já o José Inseguro na oposição!!! Está tudo frenético, meninos, não imaginam! E o partido, parece um enxame! Tem de nos ajudar. Porque em Portugal, já ninguém conserta a situação” …

“Se ma referir, poderemos avançar um pouco”.

“Precisamos de ganhar as próximas eleições… e…”

“Certamente, meu caro, leu as divertidas crónicas do Dr. Watson no Strand. Sabe, pois (este, com a memória periclitante que o caracteriza, já o disse cem vezes nos seus relatos) que, eliminado o impossível, o que resta, mesmo improvável, é a verdade. Ora impossível é o seu compatriota António Centímetro, de Waterloo ou Bruxelas, creio, o seu jovem gigolô Passos, o Oscar Wilde papista, o homem da Okrana …Cunhal ou Jeremie Vermelho (creio, ou será já outro? Dizem sempre o mesmo…) e, menos ainda, aquela simpática actriz de comédia que se chama Catarina Louça (se bem entendo, é frágil), ganharem-nas.

Esteja tranquilo. Em países como o seu, até pessoas como vocês ganharem as eleições, é perfeitamente normal”.

“Não o creia, antes fosse!… nem nas Universidades… Mas o meu problema é outro. Não ignora que iremos ter eleições, dentro de meses, anos, semanas… Está sempre a acontecer, neste país… E tudo gira à volta da fuga dos capitais. O Durão Baboso, um canalha, diz que sabe onde estão e só a velha megera os fará voltar! Ora somos nós que os temos de encontrar e fazer voltar! Poderá ajudar-nos?”

Holmes, que contemplara em silêncio e dedos entrelaçados o carreteiro endomingado, desdobrou-se como um escadote e puxou do seu Meeerschaum, acendendo-o devagar, enquanto murmurava: “Elementar…” Depois proferiu: “Caro senhor, esses Capitais… que me pode dizer deles”?

“Que sei eu”, respondeu António Montenegri, hesitando enquanto executava um pizzicato nos pelos da barba “são muito voláteis, sobretudo espanhóis e americanos; estão muito doentes e é coisa grave, depressão ou recessão ou o diabo. Enfim, diz-se que estão a fugir para paraísos fiscais, que são muito atreitos às isenções e factores imateriais (que eu de espíritos não percebo nada…), de falta de competitividade e “novas tecnologias” (manias do Rui Ribeiro, que é um tonto) e apostam no capital humano…”.

Holmes puxou várias fumaças nervosas e explodiu: “Claro! Evidente. Que patifes sem decoro. Nem o Prof. Moriarty…”

Levantou-se, formal.

“Caro senhor, amanhã, sem falta, terá notícias nossas. Acompanhe-o até à saída, meu bom doutor”.

Depois, sem transição esfregou as mãos, bebeu, dum trago, um quartilho de Oporto e disse-me febril: “Mesmo nesta terra de selvagens devem ter um Who’s Who. Preciso dele. E de um Guia das grandes famílias desta terra. Ah, compre-me também um exemplar, mesmo na língua destes infelizes, do Kamasuthra e uma lista de todos os lupanares e maisons closes de algum nível nesta vila!”.

Pormenor do Chiado no século XIX
Pormenor do Chiado no século XIX

 “Holmes, por S. Jorge e o Dragão! Você enlouqueceu?”

“Não precisa invocar a Rainha nem se alarmar, meu velho! O caso está praticamente resolvido e faltam apenas uma ou duas questões de pormenor que estes livros esclarecerão…”

Retirei-me, ultrajado.

Sabia bem que lhe faltava a presença terna de Mrs. Hudson, que não se limitava a dar-nos caril dia sim, dia não, para não se lhe aproveitar depois dos efeitos, mas, ainda assim, era chocante!

E mergulhei na atmosfera alegre de Lisboa, que me recordava um dos célebres inquéritos do meu amigo, em Palermo, para uma nobre família local, os Corleone, a que chamei The Case of the Crooked Corleones.

Omito os subornos, viagens inúteis, impropérios (de que, felizmente, não entendi uma palavra) que sofri para obter os livros pedidos, em viagens intermináveis pelos sessenta becos e vinte quarteirões que constituíam a cidade.

Finalmente, sentindo já o meu velho ferimento a latejar (só que não sei se na perna, se no ombro), lá voltei ao Hotel, carregando o meu modesto espólio livresco. Tinha constatado também que não era com facilidade que um cidadão do Império se conseguia orientar nas mandarínicas regras sociais, manhas e protocolos daquela sociedade original onde nos encontrávamos.

Holmes, tocava melancolicamente, uma “Fuga” de V. de Almeida (compositor indígena, ao que me disse), no seu amado violino.

Desde as primeiras digressões a que Holmes me condenou por aqui, já me tinha dado conta que os hábitos dos autóctones eram ainda mais selváticos que os do Império brasileiro onde tínhamos estado no ano anterior. A convite do Imperador, o que, convenhamos, era mais prestigiante que aquela convocatória torpe.

E o embaixador do Brasil, um moço bojudo e afável, mas de enorme cultura e colorido sentido de humor, um tal Jô Soares, tinha tornado fácil a nossa adaptação àquele império tropical.

Aqui, tudo se diluía, escorregava, invertebrado e frouxo, desde o servilismo do recepcionista (que só falava português…) à imbecilidade congénita dos public servants, que só diziam (com uma pronúncia aterradora) três ou quatro palavras em francês.

Felizmente encontrei um amigo (se se pode ser amigo de tal tipo de autóctones) que me abriu inúmeras portas. Era de famílias inglesas, regedor da vila de Cintra, centro termal, creio, não longe de Lisboa. Ouvindo-o por muito tempo, fui-me apercebendo que a canalha, neste país, suporta facilmente, por uns tempos, os Messias salvadores, a quem incensa como a um Buda omnipotente. Até os correr, culpando-os de tudo o que de mau ela própria fez, votando neles. Chamam a este curioso ritual rotativismo.

Quanto aos apóstolos dos Messias, seus clientes e bajuladores, tradutores oraculares em periódicos do que quis dizer ao roncar numa sessão da Câmara, verdadeiras rémoras parasitárias, este povo odeia-os instintivamente, desde o primeiro momento (talvez porque não está nos seus lugares) e não lhes dá qualquer importância. E este era um exemplar de elite. O seu aspeto e maneiras eram os de uma torrada escorrendo manteiga quente, lábio pendente e vidrado, calva luzidia sobre um corpo breve e manhoso, sorriso estereotipado de Polichinelle. Pince-nez à moda, perdendo-se pelo nariz arredondado. Tipo batata irlandesa. “Tive o meu tempozinho de cricket” disse-nos, “mas acabou…que para comentar, isso… estou sempre pronto!”

Mas não me pereceu, de início, ter adquirido um aliado precioso.

Nem o excelente rapaz, sempre revoluteando, envolvido (em Julho, repito) num espesso casacão negro de couro, figura untuosa, cumprimentando para os lados, na Patriarcal ou no Rossio (my God), podem crer, se atemorizava com os insultos, viragens bruscas de costas, quando tentava saudar alguns figurões e mesmo um encontrão, que um assomadiço cavalheiro, forte como um estivador, braços musculosos e abrutalhados de polícia na reforma, adornado com um papillon e um paletó cinzento claro muito decente (B. B., disse ele ser o seu nome) lhe pespegou, chamando-lhe “fascista” (título que confesso, ignoro, mas me pareceu pouco lisonjeiro, pelo tom usado), ao mesmo tempo que se identificava e dizia que não tinha medo.

O nosso aliado não lhe respondeu, limitando-se a arvorar um tom verde gelatina na face esgazeada.

Enquanto me explicava que nada adiantava ter questões com aquele cavalheiro.

Que ele era um homem digno, não o temia. Era até bravo, em certas circunstâncias.

Fernand Harvest era um herói. Só que à sua maneira.

E resolvera ajudar-me.

Por um preço módico.

Caminhámos longo tempo, pelas ruas lúgubres do centro da cidade.

De súbito, um grito sobressaltou o pobre escocês ingénuo que eu sou e quase me fez tropeçar.

“É ela, vai ali! Passeia o cãozinho!”.

Olhei-a. Grande, seca, hirta, de tez amarelada de pergaminho, farripas de cor indefinida e dentes cavalares, parecia, numa primeira análise, uma percetora inglesa.

Chamava ao cão, primorosamente tratado, Paulito Rangente, Polo Atochado ou Palino Regelado, segundo me pareceu perceber.

“Senhora D. Manuela! Senhora D. Manuela! Como está Vª Ex.ª?” berrava, ainda à distância, o Harvest. E para mim:

“É Condessa e muito bem relacionada! Se os tais Capitais frequentam a Corte, ela saberá tudo sobre eles. Mexericos, boatos, histórias… embora seja muito severa, até contam umas histórias… sabe?”.

Não sabia.

Quanto à dama, olhou-o com ar desdenhoso, sem uma palavra. E ele, aproximando-se repetia, como um realejo italiano: “Como está Vª Ex.ª?” sem desanimar.

Transporte usado por Holmes e Watson em Sintra
Transporte usado por Holmes e Watson em Sintra

Por fim, apresentou-me. Fui despachado com um conciso “Estimei conhecê-lo”. Depois suportei vinte minutos de um monólogo de Harvest e três ou quatro rosnidos de resposta da dama.

Despedimo-nos. Ele ia radiante. E explicou-me, exuberante:

“Sabe que isto de ser político, como eu ou a Srª. D. Manuela, exige características e feitio muito especiais. No seu grande país chamam-lhes, ao que creio, buccaneers ou pirates. Requer infinita safadeza e hipocrisia, além de outras invulgares qualidades essenciais. Uma memória ilimitada para boatos e mexericos, mais do que para rostos ou nomes. Enorme sagacidade e muito expediente e descaramento, anedotas sempre prontas e uns piropos, até, se necessários. De uma toca de toupeira, saber tirar um Himalaia de intrigas, montanhas de especulação indutiva, que deixariam tonto até o Camões!”.

“Quem?”, perguntei, atónito.

“Um poeta português, muito antigo. Zarolho e mau espadachim. Não admira. Cheirava mal dos pés e era caloteiro.  Mas é muito estimado, cá no burgo…que eu versos dele não os conheço… bem vê, não tenho tempo para nada…”.

O tempo passava e nada tinha adiantado. Disse-lho, claramente.

“É que neste reino, sabe, cultivam-se apenas as vagas universalidades desconchavadas, confusas e que dizem uma coisa e o seu contrário. Bem forradas a burocracia. Ter ideias sólidas, estudar a enorme pirâmide das verdades científicas, não é cá para a rapaziada! Preferimos o Turf Club e uma batotinha… no Casino Lisboa, por exemplo, coisa como as que se vêm lá fora!

Ah, seja como for, devemos muito ao Pedro Lopes. Criou, entre nós, um princípio político fundamental: um boatinho catita ou uma amante “chic”, faz mais pela nossa conta no banco, que uma vida de trabalho paciente e suor! Ele, o Fontes, o Platão (o nosso engenheiro), temos feito muito pela civilização, sabe? Abolimos já a pena de morte!”

Discordei. Os portugueses, aparentemente, matavam-nos com muito mais eficácia pelos discursos que faziam, riachos de azeite rançoso, escorrendo sobre um mata-borrão…

E voltei à carga. “Então esses Capitais?”.

“Não os largo! Temo-los filados!”.

Apercebi-me então que éramos seguidos, discretamente, por um gorduroso homenzinho, quase um anão, que sorria num tique permanente, a que se adicionavam uns cinco pés de altura (só a cabeça ocupava metade; o apêndice nasal, quase outro tanto), uma calva sincera e um fato de cheviote impecável. Um pince-nez fumado encimava-lhe o Gibraltar que lhe servia de nariz.

Os transeuntes que se cruzavam connosco trocavam comentários picarescos entre si, ao vê-lo. “É o do Turf e do Jockey Club!…arre, que é feio como o Arrobas…fala às segundas…pois, pois, mas é muito bem falante…”.

Inevitavelmente, acabei por lhe ser apresentado. Tinha um nome patusco: Vitorino (homenagem de seus pais à nossa Rainha-Imperatriz?). Horror.

Além de maçador, era maníaco das doenças. Fossem achaques próprios ou alheios.

Radiava felicidade, relatando os seus próprios padecimentos, com uma franqueza que achei indecente. Fazia alarde de possuir doenças estranhas, de nomes complexos e difíceis. Como entre nós, elogiamos aos amigos, um magnífico potro árabe, que comprámos, ele inchava de pose ao referir a sua miocardite ou outros males, que a decência me impede de referir e imporiam antes o apoio arguto de um proctologista…

Parecia pelo seu ar impante, esperar da nossa parte sintomas de inveja, despeito ou talvez veneração, como que nos dizendo: ”ora toma, eu sou hemorróidoso e hemorrínico e tu não!”

E a avalanche de pormenores do inqualificável relato não terminava, numa onda infindável de particularidades, minúcias e divagações, sem o mais remoto parentesco com as maleitas, envolvendo até a mulher de Harvest, uma tal Judith, que em vez de seguir o salutar exemplo da sua homónima bíblica (usando espada, machado ou até um revólver) lhe ministrava receitas de tisanas, que ainda o mantinham por cá.

Salvou-nos um mendigo (das dezenas que nos rodeavam a cada passo, entoando em coro uma espécie de música folclórica, de que só entendia “pfvpfv, pfv, só uma…”). O aspecto era particularmente repugnante. Cheirava a alho a vinte metros, era alto e cheio de cicatrizes, barba por fazer, coxeando e remexendo nos farrapos que o cobriam, e produzindo sonoridades frequentes, que me abstive de analisar.

“Fujam, meus fidalgos, fujam! Isto já nem se pode andar na rua! Um polícia aos tiros! A Havanesa já pôs os taipais! Isto vai dar molho, meus fidalgos! Mortos aos centos! Cavalaria na Patriarcal! E, assim, de repente!”.

Não foi preciso mais. Os dois comparsas puseram-se ao fresco, com uma celeridade que parecia passe de mágica. O mendigo agarrou-me o braço com firmeza, arrancou a peruca, por onde passeavam, com vagar, vários insetos indígenas, e disse-me, com um sorriso lupino: “Destes, não tiramos nada que valha!”

Era Holmes, está claro.

Holmes felicíssimo a tomar banho na baía de Cascais
Holmes felicíssimo a tomar banho na baía de Cascais

Disse-lhe que não me fora fácil descobrir algumas pistas úteis. Tentando mantê-lo o mais longe de mim possível (o alho…).

“Ainda se tivéssemos um retrato deles, um daguerreotipo…”.

“Boa ideia, Watson! Existem uns amadores, uns judeus argutos… Benoliel, Relvas, creio… pode ser um começo…”.

Espalhámos gorjetas, interrogámos gente da nossa embaixada e lá conseguimos chegar a um amador da nobre arte fotográfica (seria correto dizer arte, aqui?) que nos abriu as portas à sua enorme coleção. E começou então o nosso verdadeiro tormento.

O colecionador, que era rico e também comprava cavalos e amantes (por esta ordem) tentava ajudar-nos:

– “Ora repare, veja lá se reconhece!”.

– “É o Lorde Kitchener”, disse eu, atento.

– “Que disparate! É minha mãe, D. Carlota Ervas!”.

– “Claro, enganei-me, foi o buço…”.

– “O buço??????”

– “Queria dizer o rebuço da blusa; Watson fala pessimamente até inglês”, dizia Holmes, sempre oportuno.

“Bom, passemos a outra, já vi que não é fisionomista…”.

“Não, sou médico do exército, na reserva…”

Resultado: sete horas e duas mil fotografias depois, desistimos.

E Holmes, providencial, mudou de estratégia.

E, sejamos justos, não pode ser culpabilizado pelo que se passou.

Soubera, graças ao seu providencial disfarce de mendigo, que um carrasco de sardinhas (já superintendente na fábrica Tenório, empresa indígena de grande prestígio), de nome Botas, à força de praticar centenas de milhares de execuções sumárias dos pequenos animais, fora vítima de uma forte depressão, que lhe causara a perda total do cabelo (usava peruca).

Em seguida, para atenuar o sentimento de culpa que o continuava a enlouquecer, abandonara o seu hobby favorito (cantar canções obscenas, de sua autoria, a turistas estrangeiras) e dedicara-se (acreditei-o, embora me parecesse absurdo) à política.

E Holmes, concluía, arguto: “…o que, soube-o de fonte segura, só lhe foi possível com o concurso de três aliados perversos: um Vitorino, mas não o que deixámos há pouco (este é Gago), outro gago, creio, que se identificou como Zé…Zé Cama e… os nossos Capitais! Consegui por fim localizá-los! Só nos resta visitá-los e submetê-los a um interrogatório esclarecedor. The game is afoot, Watson!”.

Era o que eu temia.

E lá voltamos ao Hotel, para que ele mudasse de fatiota e eu pudesse refrescar-me com um galão de um excelente Porto (safra de eleição), que descobrira numa rua ali perto.

Numa loja cantonesa.

Propriedade (que povo prolífico, estes amarelos!) de trezentos cidadãos do Celeste Império. Que, com a falta de imaginação que vitima os coolies em geral, designavam por “loja dos trezentos”.

Holmes esclareceu-me: “Já sei onde se acoitam. Na maioria do tempo (embora viajem muito, Cayman Islands; ao nosso cruzador em Espanha, Gibraltar, também; num pequeno ducado ou principado germânico, Liechtenstein, creio). Quando param na sua terra, estão por locais que já identifiquei no mapa: Quinta da Marinha, Quinta do Lago, and so…

É evidente que são agricultores (quintas são “little farms”, não são da gentry, portanto…) vivendo, creio, uma vida austera de um papismo lúgubre, mas honrado.

No entanto, indaguei, trabalhei… vamos, mesmo assim, penetrar numa das suas festas. Não é difícil, se os convencermos que conhecemos os nossos ancestrais até ao nível dos avós…”

Temos um Estoril Express, às 12.16. Avie-se.”.

De facto, tínhamos, aviei-me e o comboio lá partiu, com a fumarada habitual.

Às 14.03.

Recordação do passeio de Holmes e Watson a Monserrate (fotografia retocada)
Recordação do passeio de Holmes e Watson a Monserrate (fotografia retocada)

Chegámos a uma mansão senhorial, que nos tinham dito ser uma das tocas onde se acoitavam os vilões (aliás de um novo-riquismo enjoativo, que eu não contemplava desde que visitara os Manors de Drake e Henry Morgan).

Recebeu-nos, risonha, uma senhora, que sem dúvida ofereceria uma nítida semelhança com Vénus, se não fossem as crateras de pele quase centenária que lhe adornavam o espaço entre as duas orelhas (que não me atrevo a qualificar de rosto), um nariz corvídeo e um corpo que me recordava de novo a morgue do St. Bart’s:

“Olá, como vão, queridos? Sou a Lili, a Lili Caneca! Vocês são aqueles VIPs londrinos de que os periódicos falam? Que bom! Entrem, entrem!”

Entrar, não sabíamos bem para onde, pois estávamos no centro de um relvado (bem mal conservado, aliás) que cercava a mansão. Num transbordar de gritos, risos e cochichos, agitavam-se mais de cem pessoas, na maioria muito jovens e pintadas, admiravelmente empenhadas em imitar (seria um bal masqué diurno?) a severa nudez da estatuária grega.

Holmes, já enciclopédico sobre o pequeno país, apontou-me inúmeros fidalgos, jornalistas (“perigosos, Watson, nunca lhes dirija a palavra…antes falar com uma cobra capelo”), deputados, ministros, grandes industriais, até escritores e poetas.

Estas celebridades passeavam junto a nós, como se fossem pessoas vulgares, sorrindo, falando, proferindo constantemente enormes imbecilidades, sem dúvida na ideia generosa (e nobre) de as tornar inteligíveis ao poviléu ou a pobres diabos como nós, que ali pudessem estar.

Havia também bebida suficiente para quinhentas pessoas (não éramos mais que cem) e comida talvez para vinte (sobejaria imensa certamente, pois era tudo de péssima qualidade e gosto).

Uma encantadora loura, quase adolescente, dirigiu-se-nos, chamando-nos cotas (presumo que um sinónimo de britânicos) e dizendo. “Qual é ninho, queridos? Banca, política, eletrónica…ou drunfa?”.

Conseguiu calar Holmes, que nem abriu a boca. Cá para mim, não percebi uma palavra do que ela gorjeou.

Conseguimos, por fim, chegar junto ao anfitrião.

Este, cara em triângulo, vermelha como a de um pilar de pub, sempre a sorrir, adornava-se com um bigodinho diminuto, eriçado nas pontas, cumprimentou-nos efusivamente (nunca nos tinha sido apresentado…): “Carros amiigos, que prrazer tenho em vos terr aqui! Sua majestade, bem?”.

Discreto, sussurrei a Holmes: “Sotaque africano… austríaco ???”.

Respondeu-me, sibilino: “Não. Belfo. Idiota congénito. E príncipe de sangue real”.

Apresentou-nos em volta.

Conhecemos assim uma multidão de celebridades, todas elas fascinantes.

A tal Manuela, íntima do rei, muito alta, muito seca, muito feia, envergando um tweed  inglês de mau corte (inteiramente deslocado ali) de tom lúgubre, o cabelo severo caindo-lhe num bioco sobre a testa óssea, conversava (por rosnidos), com um pateta hindu, risonho, verboso e corpulento, de nariz de Polichinelo, cabelo branco dando-lhe um tom de seriedade, mas que o discurso gritado, de vendedor de arenques de Cheapside desmentia e era (disse-me Holmes, para meu imenso pasmo) o primeiro-ministro do pequeno país.

O nariz abatatado reforçava cada parágrafo com um sobe e desce enérgico.

Noutro grupo, quatro sujeitos, inadequadamente vestidos para a hora do dia e a ocasião, berravam, numa pletora de perdigotos e gestos latinos.

Ao ouvir uivar “…porque os capitais…”, acotovelei Holmes. Quase tombando com o impulso, pois este já não estava a meu lado.

Em desespero, tentei aproximar-me, taça em punho (os vinhos, nesta terra, eram das poucas coisas que mereciam referência) do grupinho, sorrindo com ar casual.

Um, truculento e nédio, calva incipiente e barbas hirsutas de anarquista, com um ar alucinado e acre, que me recordou o saudoso professor Challenger, apresentou-se-me: “Pacheco Macieira, proprietário. De cem mil livros”. Após o que, arrotou discretamente e perguntou-me: “E o senhor? Estrangeiro, já vejo. E alemão, que nunca me engano e sou fisionomista”.

Por cortesia para com o proprietário de uma biblioteca maior que a do British Museum, curvei-me, sorridente e em silêncio.

Outro era moreno, olho triste de goraz, baixinho, com a barba por fazer e a bonomia deprimente dos vegetais em decomposição.

Pensei que era um dos últimos pré-rafaelitas vivos, mas desfez-me as ilusões, suspirando a custo: “Alberto Tosta, Ministro da Justiça”.

O terceiro pertencia decerto á Igreja do Vaticano (talvez bispo), embora vestisse uma estranha casaca e não usasse (!) laço, gravata nem echarpe. Era magro, felino e nodoso (seria irmão da tal D. Manuela? Cardeal papista de uma associação esotérica?), todo em ângulos, verbo untuoso e melífluo. Falava com o tom plangente que usam os sacerdotes romanos nas suas “missas cantadas”.

Disse-me ser, afinal, deputado de um grande partido político (quatro ou cinco deputados… o parlamento do país, atendendo ao tamanho, devia ter dez ou doze…) e chamar-se Francis Louça. Mas de frágil e quebradiço não tinha nada. O seu estilo aproximava-o mais do das enguias.

O quarto, de voz aflautada e educadinha (deveria ter frequentado uma public school britânica na infância) tinha ademanes estranhos. Ora franzia a sobrancelha direita e fornecia-nos uma imitação pífia do Príncipe de Bismarck, regougando impropérios contra os “de esquerda” ou regougava paradoxos, com gestos e ademanes que me faziam lembrar o jovem irlandês, Oscar Wilde. Foi o único a apresentar-se formalmente, de forma educada: “Paul Indoors, um seu criado”.

Discutiam o destino…dos capitais!

Enfim!

Mas tudo se precipitou de novo.

Uma figura elefantesca juntou-se ao grupo, com a elegância e graciosidade de uma baleia acasalada com uma alforreca.

Arregalei os olhos de espanto: “Mycroft Holmes???? Aqui ????”.

O monstro sussurrou-me, aterrado: ”Cale-se, idiota; sou Sherlock; disfarçado, claro, pois o físico do meu irmão é tão monstruoso, que me permite carregar no Macfarland até um microscópio e um pequeno canhão portátil…agora, meu bom doutor, peço-lhe um enorme favor: cale-se ou desapareça!”.

Enojado com a ingratidão, afastei-me e recorri ao paliativo que a minha pátria criara: uma boa sucessão de whiskies, bem medidos.

Impossível.

O que aqueles afáveis selvagens (embora mesureiros e desejosos de agradar, é certo) me propuseram incluía, se a memória me não falha, “salsaparrilha, orchata, capilé, uma malvasia de primeira, oporto (temos muito melhor em Londres…), Pinsang Hambun, Favaios e um vinhinho verde que…”, nomes a recordar talvez as suas viagens (bem produtivas para nós, que lhes herdámos as melhores feitorias…) por climas exóticos e fascinantes.

Tentei algo a que chamavam “champanhe”, ao que parece, bebido pela gentry indígena apaixonada pela caça à raposa (chamavam Raposeira à beberagem…).

Quase vomitei.

E lavei a boca com alguns copos de vinho tinto, que esse, sim, era bastante bom.

Terminada a segunda (seria terceira?) garrafa, voltou-me a alegria céltica dos meus antepassados escoceses e aproximei-me de um grupo que escutava (entre boatos e dichotes constantes), um pianista com ar de louco pouco lavado, que me disseram chamar-se Vitorino de A. Cruges e ser “um génio”.

Se o era, num esforço louvável e nobre, tudo fazia para ninguém se apercebesse de tal, interpretando pessimamente uma sinfonia que me informaram ser de sua autoria. E a mim me parecia uma sessão ininterrupta de escalas, marteladas com um vigor germânico.

Falava-se do “tremendo escândalo” (havia, em média, uns dois por dia…).

Porque isso é uma questão de capital, dizia um. Detive-me, de imediato.

E deparei-me com uma espécie de cocheiro dos Dales, entroncado e anguloso, que se me apresentou sem mais exórdios: “Jerónimo Cousa, proletário. Já soube, por alguns camaradas, que o amigo veio de Londres. Tem recados “Dele”?”.

Ignorava quem era o Ele, pronunciado com uma devoção que os papistas reservam ao bispo de Roma. Ainda arrisquei: “Quem? Salisbury? Gladstone?”.

O que me valeu ser insultado com furor, pois “qualquer homem honesto percebia que se referia a Marx”, que culposamente nem sei quem seja e pelo nome nem me pareceu britânico.

Fugi, tentando fazê-lo com alguma dignidade.

E, então, vi-me interpelado por um vozeirão alegre e juvenil, que olhava para mim e para Holmes, que já se desfizera do disfarce de Mycroft e me ladeava:

“Olha o Serafim e o Malacueco!”.

Verdade, verdade, sou um pouco corpulento e Sherlock um escadote inclassificável.

Mas o epíteto pereceu-me soez.

Mas, quando me preparava para corrigir o insolente (com a ajuda do marquês de Queensberry…), olhei-o melhor e fiquei desarmado. Uma face lunar, juvenil e risonha, com olhos lúcidos que espelhavam uma alegria de viver que até aí nunca tinha visto neste país bisonho. Um chapéu de palha que dançava no alto da cabeleira morena, encimando um físico de globo terrestre.

Contra minha vontade, sorri. E logo ele, jocoso, disse: “Sentem-se! Sentem-se!” e fez um gesto com três dedos espetados para um criado que (inconcebível!) tinha um funil enfiado numa orelha. “Três aguardentes! Daquela, da de vinho verde!”. E, sem transição: “Pois, é amigos, um estudante nunca se atrapalha. Vim sem convite sem farpela adequada. E cá estou. Querem uns pastelinhos de bacalhau? Ah, a morada dos capitais? Fraca companhia, digo-lhes…, mas enfim, tudo se arranja. A propósito, eu sou o Vasquinho, um amigo às vossas ordens”.

Provou sê-lo.

Resumimos a nossa odisseia e abancámos.

Enquanto comíamos (ele, por seu lado, comia, bebia e falava por dez), começámos a obter, por fim, algumas pistas concretas.

Imagem recolhida pelo Dr. Watson na visita a Lisboa, lembrava-lhe a Waterloo Station, imagine-se…
Imagem recolhida pelo Dr. Watson na visita a Lisboa, lembrava-lhe a Waterloo Station, imagine-se…

Não que o nosso novo amigo levasse a sério a nossa procura do velo de ouro. “Estas coisas, sabem“, dizia-nos, “são complicadas! Os tolos só perguntam coisas a que as pessoas sensatas não sabem responder. Os outros…se são sabichões e doutores, acreditam em tudo; se são gente remediada, desconfiam de tudo; se são políticos, sabem tudo! De quem é que podemos obter informações? A propósito, obtiveram informações do tal Coelhone? É por aí que deviam ter começado, desculpem a franqueza!”

Holmes entupiu. E refugiou-se em monossílabos escassos, que disfarçavam à evidência o seu embaraço. e, por fim, falou. Dalguns casos mais curiosos (“Que lhe deram uns guinéus nos contos que escreveu para o Strand, não é verdade meu bom Doutor?”), na cigarreira de ouro e nas libras que tinha esportulado a algumas casas reais. Chegou a inventar, levado talvez pela dispepsia que o óleo dos codcakes provocava, a descrever-nos como o giantminded detective e o seu devoted friend…

“Pois, pois, você é o bufo de eleição da vossa rainha e tudo o mais! Idolatrar-se a si próprio deve ser o único romance de amor que terá até à sua morte. Olhem cá, rapazes, querem mesmo deitar as mãos aos capitais?”.

Queríamos, claro. E ele, de imediato, apresentou-nos o seu plano.

(continua)

Carlos Macedo

 

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