Domingo, Julho 21, 2024
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Taliesinn, O Bardo

Nota explicativa:

Muito do que hoje chamamos inovação, faz parte do rol inumerável das coisas esquecidas. As literaturas da Antiguidade influenciaram a Idade Média, é impressionante a viagem das ideias, como aqui se mostra no Mabinogion e na recolha de contos Kulhwch e Olwen. Lembramos Moisés salvo das águas, os trabalhos de Hércules, o cisne e Lohengrin, e pode-se entender neste bardo o anúncio de uma nova era, há sempre Cavaleiros da Távola Redonda que anunciam o fim de uma opressão. Tome-se, pois, em conta, o que aqui se diz sobre Taliesinn, o Bardo – analogias para tempos futuros é coisa que não falta, como a Netflix e a HBO procuram pôr em evidência…

No País de Gales os animais eram hábeis e ousados e os humanos só ganhavam em os tentar imitar.

No Mabinogion e na recolha de contos Kulhwch e Olwen, repositórios sensatos da melhor mitologia galesa, perpassa uma multidão interminável de cães e javalis, touros e bodes, veados e cisnes. Todos talentosos.tales mabinogion

O Bardo Taliesinn, mais trágico e porventura mais sábio, prefere distinguir, num poema, os Cwn Annwn, matilhas de cães selvagens de pelo ruço acinzentado que eram emissários seguros da Morte. Sabia bem, o sábio bardo, que o civilizado cão continha impulsos ocultos dentro de si mesmo que a própria Natureza ignora.

Mas quem era este Taliesinn e por que razão se fala dele em intermináveis crónicas e contos tradicionais?mabinogion

Diz-se, embora eu o não confirme, que no tempo de Arthur de Pendragon existia um galês chamado Tegid Voel de Pennlyn que tinha um filho chamado Avvagdu. A criança era feia como o inferno dos cristãos. Sua mãe, numa tentativa canhestra de a compensar, resolveu cozinhar para Avvagdu um caldeirão de inspiração e ciência. Mas, para isso, o caldeirão deveria ferver por um ano e um dia. Ceridwen, a mãe, fez-se ajudar por Gwion Bach, que mexia o caldeirão e um cego, Morda, que mantinha o fogo desperto. Mas, perto do fim, três gotas do elixir caíram sobre um dedo de Gwion que, ao lambê-lo, adquiriu a visão profética e a sabedoria que se supunha puderem consolar o jovem Avvgdu da sua fealdade.

Apercebendo-se do que se passara, e temendo a inevitável vingança, Gwion fugiu, transformado numa lebre. A mãe-cozinheira, enfurecida, transformou-se num galgo que o perseguiu, mas, antes de consumar a sua vingança, Gwion transformou­se num peixe que no rio tentava com desespero, escapulir-se de uma lontra enraivecida como um humano. E Gwion transformou-se em pássaro, Ceridwen num falcão. Já com a imaginação esgotada, transforma-se num grão de trigo atirando­se para o meio de outros, numa eira. Mas Ceridwen, agora uma sombria galinha preta, devora-o. Para o dar de novo à luz, nove meses depois, transformado numa criança tão bela que não consegue matá-la, atirando-a ao mar, numa alcofa de couro.

Acontece que Gwyddno tinha uma represa de salmões numa praia, entre Dyvi e Aberystwyth. Seu filho Elphin encontrou aí a mala de couro que se entalara na represa.

Adotaram a criança como sua e chamaram-lhe Taliesinn. E assim nasceu o primeiro dos bardos galeses, cujo primeiro poema era um louvor a Elphin e uma promessa de boa sorte que parecia ir cumprir­ se.mitologia galesa mabinogion

Elphin triunfava nos amores, na fortuna e nos favores do bom Rei Arthur. Mas é fraca a modéstia dos heróis e Elphin gabou-se a Arthur de ter consigo um bardo mais dotado do que qualquer um dos bardos do rei.

E veio a prisão, uma cadeia de prata a prender-lhe os pés e a certeza da morte ignominiosa. Mas Taliesinn foi para a corte de Arthur e, no primeiro dia de festa em que os bardos e menestréis do rei deviam cantar na sua presença, escondeu-se num canto por onde todos os cantores deveriam passar. Quando um bardo passava, Taliesinn juntava os lábios, levava um dedo à boca e fazia “blerwmmm, bleurwmmm…”

Os bardos começam a cantar na presença de Arthur de Avalon e, horror, não conseguiam senão inclinar-se diante do rei e dizer “Bleurwmm, blrerwm…”, com os dedos deixando escorrer a baba dos lábios sem inspiração…olwen mabinogion

E o seu chefe, Heinin, disse “Ó, Rei, não estamos embriagados, mas mudos por influência de um espírito sentado naquele canto com a forma de uma criança.” E, assim, Taliesinn foi apresentado a Arthur e cantou-lhe, de forma muito bela, a sua vida. Enquanto cantava, levantou-se um tremendo furacão que fazia abanar as paredes ciclópicas do palácio de Caerleon-on-Husk e todos compreenderam que era necessário libertar e exaltar a Elphin e tirar-lhe as grilhetas, pois a voz e a harpa de Taliesinn a isso obrigava. E este, a partir daí, compôs e cantou inúmeros poemas sobre coisas secretas do passado e do futuro, diante do Rei e da Távola Redonda, prevendo a chegada dos Saxões àquela terra e a opressão dos Cymry e o seu próprio desaparecimento, quando chegassem os dias marcados pelo destino. E assim sucedeu.

Carlos Macedo

 

 

 

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