Quarta-feira, Junho 12, 2024
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Um dos acontecimentos culturais do ano: Apareceu a última correspondência de Fradique Mendes, era dada como perdida

I – AO BARÃO DA TRAFARIA

Até hoje, um bom humor que todos os dias agradeço (não sei bem a quem) tem-me mantido o sorriso dos fortes e dos simples. Mas começo a mudar. Rumino, passeando pela sala, com a mão coçando freneticamente o alto da calva. Surpreendo-me a rouquejar, em voz alta, coisas soezes contra os políticos portugueses (só possíveis aqui) e as multinacionais (possíveis no planeta inteiro),  num misto de viuvez da alma e de isolamento moral.

Que quer Você?

Almoçar, filosofar, anedotizar, divagar suavemente, como nos tempos diletos das numerosas e sempre decisivas crises académicas (ele foi o 1961, o sangrento 1969,  a Livrelco de saborosa memória…), num sentimento de amizade que nunca se  gastava, era próprio dos vinte, trinta, até quarenta.

Agora, à menor convivialidade, temos a sublevação do intestino, do colesterol, do enfisema, a exigir a severa repressão da dieta e do comprimido.

Isto, na melhor das hipóteses.

Porque há pior.

À menor discordância de ideias, de estratégias, de juízos valorativos meigos, há corte de relações, o fanatismo que brilha, o insulto soez pelas costas, o dichote torpe, o  linchamento mediático…

Os Passos Manuel de hoje quiseram-se humanitários e tolerantes, papaguearam na estação própria (as eleições) os Direitos do Homem, fizeram-se liberais, filósofos,  polidos, literários.

Mas mexa-se-lhes na fimbria dos interesses, das sinecuras, dos cargos bem remunerados, do cocheiro por conta e… estala o verniz !!!!

Sob o cetim dos coletes à Anthony, com um soluço de “valores morais” à mistura, palpita o cálculo biltre do “factótum” dos Rothschild que Deus nos deu e eles bajulam: Jardins e Espírito Santos, Soares dos Santos, que de florido e metafísico, apenas têm o apelido (e nem todos) …

Reformado que sou, temo mais a um bicho com os feios nomes de cortes e impostos, inflação, doença, do que a eles…

Pulga cívica (que também sou) resigno-me, risonhamente, a não pertencer à confraria da panelinha, respeito – no possível – a gramática, sobrevivo à penosa rotatividade do bloco central (a despontar no horizonte?) e ganho barriga. É que nada sei, confesso, dos políticos deste burgo.

De um, consta-me que desenterrou um elixir pomposo e bafiento com que conta salvar a Pátria. Outro, venera as excelências da arte da perfídia, o que o fez híbrido e coleante, além de narciso. De um terceiro, reformado, dizem-me que continua na intriga, calando sempre, imaginando-se o talvez José Fouché da Travessa da Palha.

Por fim, um último, cópia patética de Salazar tecnocrata reciclado, consta que desafina a voz nos discursos e se tenta dar uma autoridade que a sua incurável incompetência obstaculiza.

Enfim, um sistema que é desnutrido moralmente e acanaveado nos princípios. Aquilo a que, n’ “As Farpas”, chamei, em 1871, a intriga constitucional. É uma farsa em que o espectador, acesos os lustres, nada tem que ver com o que se representa no palco.

A não ser que paga tudo, paga para tudo. Paga aos que o espoliam, traem, corrompem, são os seus parasitas. E lhe pedem, quando lhes convém a eles, que neles vote novamente.

A Assembleia da República é uma prateleira de copos de água intactos. O Governo, uma agência de empregos. As Universidades, próvidas em turbo docente afadigados, uma escola de vícios e conúbios escusos.

Enquanto isso, as árvores do Rossio e do Parque-Expo (que nome, meu Deus!) enchem-se de folhas. O futebol, ganho o Europeu, desejado o Campeonato ou a Liga, dá fortuna a alguns traficantes de segunda, que comandam os “três grandes”. Ou a outros que os compram, para gladiadores da turba, na televisão, em prélios que já se estendem de sexta-feira a terça (que fará a populaça à quarta e quintas feiras?).

O povo, coitado, morre (se é velho ou doente), nos braços de um SNS que definha, enquanto vai pedindo empréstimos aos bancos, já oficialmente dados por falidos. Gostaria, em vez disto, de lhe contar agora uma bela história bem sentida, real e, no entanto, poética, com uma arte fina e sóbria.

Mas com os berros dos esfaimados (de justiça, de pão, de carinho) não se ouviria nada.

Um largo e carinhoso abraço do s. do coração.correspondencia fradique mendes

EÇA DE QUEIROZ

II – AO MARQUÊS DE CONDEIXA

Escrevo-te do meu exílio voluntário. Aborreço-me como Victor Hugo desterrado e como Monte-Cristo prisioneiro.

E apetece-me vibrar grandes lançadas contra rolos de névoa.

Que fedem.

No entanto, as instituições nacionais, de robustas canalizações, pareciam-me sólidas como a democracia, os seus alicerces, capazes de desafiar as trombetas de Josué. Enganei-me.

Há um longo e estouvado sussurrar de folhas. E nenhuma folha cai, pois ignoram que já morreram.

A Atenas que criámos no exílio do” Londres” e do “Canas”, na turbulência rubra das R. I. A. S., está podre. Ou senil.

Soluções profiláticas todos as dão. Os deputados do Sr. Montenegro e daquele anémico fala-barato Rui Rocha, untuosos sacos vazios de verbo habilidoso; o periquito moço de recados, que  dizem chefes na Federação Europeia ou no Banco Central Europeu e a quem a  extrema direita inglesa pela voz máscula de plebeu de Kent, Nigel Farage, condecorou  com o título de “hiena”; o ambicioso narcisista, que, antes de ser preso, corria pelas  manhãs, em trajes menores; os pequenos empresários e sindicatos, convencidos  ainda que já não são senão meros espectadores; uma patética oposição, temporariamente afastada das mordomias por intrigas sexuais ou de empregos  pingues (torpes, mas sempre eficazes); os empregados de café; as meninas dos  supermercados.

Mas o “Bem Público”, excêntrico maganão, pede emprestado, vê o “Preço Certo”, a “Casa dos Segredos”, o futebol, vai à praia e às procissões e até reza. Em Fátima, o que se vai já tornando muito caro.

Pesadote e pacatote, sonha com a negociata que o fará ”empresário de construção civil” ou autarca. E joga no Euromilhões.

Já te estou a ver.

Erguendo a tua soberba, algo encurvada, estatura de beirão, carinhoso e amigo, mas justo, deitas sobre mim uma olhadela oblíqua, rosnando: “Falas por despeito, enverdece-te a face a inveja!”.

E sei lá, talvez tenhas razão.

Neste país, os bons exemplos não inspiram. Se é que existem.

Mas é mais provável que seja desordem dos fígados, do estômago, que sei eu… Duas avaras linhas mais, para acompanhar este desabafo. As minhas desculpas por este tagarelar meridional, com espalhafato e abundância.

E a intuição luminosa de que, apesar de tudo, tenho carradas de razão. E que tu só me censuras, por saberes que ainda me perco.

Um generoso e enorme abraço do t. do coração

EÇA DE QUEIROZ

lisboa seculo xix

III – AO CONDE DE ABRANHOS

Não, meu caro Amigo, não se curam misérias ressuscitando tradições. Sobretudo pífias, como as que tenta defender.

Não me queira mal por este exórdio, mas na pasmaceira de Novembro, numa Lisboa chuvosa, que queria Você?

Se a tradição consubstancia a consciência escrita da Humanidade, o melhor é não ressuscitarmos muitas…

Pelo que a mesma tem feito, nos últimos cinco mil anos…

Para si, a tradição o que é? O colete de cetim sobre a sua esquelética elegância, já faisandée, o laço de seda impecável, a casaca londrina um pouco coçada, é certo, a claque e bengala de Malaca, as luvas irrepreensíveis?

Ou, antes, geração após geração, como o virtuoso Plutarco, berrar bem alto que “a alma mais forte e bem constituída é aquela que os sucessos não orgulham e que se não abate com os revezes”, como nos tentou dizer (mal) aquele poeta-caçador de vozeirão de S. Carlos, que está ficando áfono (e muito velho…) ?

Esclareça-me, por favor, na volta do correio.

Seu do c.

EÇA DE QUEIROZ

José Maria Eça de Queiroz por Rafael Bordalo Pinheiro
José Maria Eça de Queiroz por Rafael Bordalo Pinheiro

IV – AO BARÃO JOSÉ FOUCHÉ

Caro Amigo:

Sei que não devia ter escrito este prospeto sem ser cifrado. E disso, desde já me penitencio.

Até já tinha um nome de código: “Vaticano300XX” …

Sei ainda que me tinha posto à disposição dois estafetas de Cister e um telégrafo. Sagazmente controlado…

Mas, agora é tarde. O seu cuidado, já resvalou na espessa capa da minha estouvada inconsciência e a esta hora, “eles” já sabem que lhe escrevi.

Para lhe dizer o quê?

Pensando bem, nada merece ser reescrito sobre o nosso pobre país. Nem, sobretudo, sobre si, que nele se sente como peixe na água…

Valha-nos isso.

Seu Amigo do c.

EÇA DE QUEIROZ

IV – AO COMENDADOR FRANCISCO PINTO.

Sabe Você como a ceia tardia é má conselheira.

Aconteceu-me “isso” ontem.

E deu-me de cismar nos mercenários da política, para quem a vida, por agora, corre faceira.

Intrigam, arquitetam, trabalham (até isso, calcule Você!), gesticulam, discursam, madrugam e tudo para proveito da sua incomensurável veia humanista e melhoria do País…

E medram, numa fradesca opulência, numa santa rotundidade bancária (em offshore, claro).

Saltam-lhes casas, piscinas e BMW, como tortulhos nas florestas dos nossos avoengos.

Mesmo em plena crise, com banqueiros suicidas rosnando “swaps” e escrevendo para os jornais!

Disseram do Teófilo Braga (quando jovem) que era um bom moço que lia livros velhos.

Antes isso.

Antes isso, que esta casta, com intrigas pérfidas cada três dias, perfis de hiena, que são velhos tratantes, que já nem leem livros novos!

Contou-me, em Bristol, um viajante experiente das florestas do Afeganistão, que os macacos, quando pressentem ou veem a luta de duas feras, trepam em chusma para  as árvores e dali, contemplam extáticos, guinchando de pura alegria, a ira terrível  das duas feras, escorrendo sangue e despedaçando-se membros.

Os homens estão cada vez mais “assim”. O que parece comprovar que, apesar dos evidentes êxitos da engenharia genética, o homem vai retrocedendo para o macaco; daí para o réptil e daí, descendo sempre, retornará, feliz, à primitiva origem onde se formou – o limbo, a lama primígena, a podridão.

Mas deixemos estes resquícios de dispepsia maltratada e falemos de jantares, de festas, de teatros, de modas, de cinema, de eleições.

Porque tudo vem desembocar nestas, não é verdade?

Como melhor do eu Você sabe, a caricatura é de boa guerra. É uma arma terrível, mas não desleal, porque diz demais, para que nós ataquemos apenas o suficiente. A caricatura não torna o seu objeto odioso; torna-o desprezível.

O que é muito mais eficaz.

Ora, quando aguçava as garras para falar destas (apenas porque sei que o assunto lhe é tão caro) ocorre-me que estamos caminhando para o Natal. Pelo menos, para os aterrados comerciantes da Avenida Guerra Junqueiro, tornaram-se peritos em decorações gárrulas e ainda não começou Novembro…. Época do peru (mesmo o de aviário, gripado, rescendendo H5N1 e guta-percha, do nefando Feira Nova…), das rabanadas e do presépio…

Desempregados descontados, que são tantos, a esses acudirá talvez a próvida Jonet, a do Banco Alimentar. Mas não o quero apoquentar.

Demais, esgotados os queijos, os vinhos da Madeira e outras vitualhas que surjam no caminho, a quem irão Vocês recorrer? Quem vos lerá, verá ou ouvirá?

O Bibi da Casa Pia? O incansável Pulido, entre duas flûtes? O florentino (embora encantador) Presidente de Cabeceiras de Basto? O presidiário ex-estudante parisiense? A D. Lili Caneças? O “cauteleiro fardado”? Os pequenos anões, dos ditos grandes partidos? O tonitruante poeta? O Cardeal Mazarino de sabor trotskista? O canalizador comunista? O Pai Natal, risonho e (muito) bronzeado que promete eleições e alianças de “arcos”, lá para o ano que vem? O patético comissário europeu Lord Fauntleroy, já a recibos verdes e com carta de saída no bolso?

Saúda-o, com espírito impregnado de Santa Claus, o seu

EÇA DE QUEIROZ

V – AO VISCONDE MENDO DE SANTA COMBA:

Caro Senhor, consta, ao que parece, nas conversas fáceis dos que comem apressadamente em restaurantes, onde ainda são tratados mais como gente que  como clientes, que Vª. Senhoria me faz protagonista de papéis de que não desdenhariam Luís XI, o versátil Fouché ou mesmo o temível Torquemada….

Não me admiro que tal distinção me contemple.

A educação do antigo regime, onde tanto se distinguiu (o que hoje naturalmente renega…) deu-lhe o conhecimento exímio de saber atacar sem a presença do atacado e de tudo fazer para que o seu poder nunca se esgote.

Esse regime, a que chamavam, creio, “salazarista” ou “fascista” (meu Deus, que o Renan da Universidade Nova, o Doutor Fernando Rosas, não me leia…), apesar de se adornar  com alguns “ideólogos” (muitos dos quais sinceros e gente séria), de mais fanatismo  do que erudição, nunca foi uma ideologia (baseada, quando muito, em leituras  apressadas do prometedor jovem Charles Maurras) mas sim, e somente, um sistema brutal e eficiente de domínio económico, baseado na corrupção e no apoio de certos  sectores corporativizados, que ditaram as regras de jogo durante quase meio século. Isto num total desprezo (até ódio, nos mais propensos, como V., à apoplexia…), pelas heranças do Iluminismo: as liberdades individuais, os direitos do cidadão, o respeito pela mulher, pelas minorias, pelos iletrados.

Face à insubmissão, chovia a paulada, a grilheta, que sei eu…

Você modernizou-se. Serve os mesmos amos, mas mudando de ideias como de camisa (consoante sobem ao poder o Gouvarinho ou o inefável Pacheco…), e usa o insulto, o “charme” dengoso, como outros usariam o garrote.

É de ficar tremebundo de pavor, imaginá-lo, vozeirão calmo e modulado, sem se apiedar de pobres de Cristo como eu, bolsando, sem parar, impropérios e calúnias, em nome de princípios ou pessoas que nunca lhe mereceram, até há pouco, a menor atenção.

Nem, a verdade deve ser dita, lha prestaram…

Pessoas assim, levando o oportunismo ao carácter místico e violento de um S. Juan de la Cruz, são perigosas. Porque não sabem quando devem parar. E V. fá-lo do modo mais artístico, em espetáculo que gera admiração. Mas, como dizia o Rabbi Loew ben Bezalel, na longínqua Praga, a clemência acabará sempre, mas sempre, por triunfar sobre o Direito. Sobretudo quando este nem se funda na verdade nem na razão. Ao que creio, o Papa atual confirma esta esperança. Cabalisticamente seu,

EÇA DE QUEIROZ

 

 

 

 

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