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Leituras inextinguíveis (66): Kikia Matcho, por Filinto de Barros, retrato de um país que ignora os seus libertadores

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Com a concordância do jornal, criou-se uma secção com a seguinte especificidade: leituras do passado que não passam de moda, que ultrapassam por direito próprio a cultura do efémero, que roçam as dimensões do cânone da arquitetura, da estética e do estilo, tidas por obras-primas, mas gentilmente remetidas para as estantes, das bibliotecas públicas ou privadas. Livros ensinadores, tantas vezes, e injustamente, tratados como literatura de entretenimento.

O filme de Flora Gomes Mortu Nega data de 1988, é a primeira grande manifestação nas artes plásticas guineenses a denunciar que as novas gerações e os políticos comprometidos no assalto ao poder tinham esquecido completamente o ideário de Amílcar Cabral e o respeito pela sua História enquanto luta pela libertação, na pessoa dos seus combatentes. Kikia Matcho, O desalento do combatente, por Filinto Barros, teve a sua primeira edição em 1999, foi a primeira obra literária deste quadro do PAIGC que se preparou em Portugal, pois aqui fez estudos secundários no Colégio Nun’Álvares, em Tomar, e estudos superiores na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra e no Instituto Superior Técnico na Universidade Técnica de Lisboa. Depois da independência da Guiné-Bissau foi embaixador em Lisboa, entre 1978 e 1981. Foi várias vezes ministro. Foi nessa qualidade que o conheci, quando fui cooperante na Guiné-Bissau em 1991, ele era o responsável político pelo meu trabalho, na qualidade de ministro dos Recursos Naturais e Indústria. Tive oportunidade de o reencontrar em finais de novembro de 2010 quando voltei a visitar a Guiné à procura de elementos para finalizar o meu romance A Viagem do Tangomau. Reencontro mais que afável, como é de supor, falámos da sua ficção, li mais tarde um livrinho que lhe é atribuído, Testemunho, um texto pungente onde se repertoriam um sem número de arbitrariedades, atos de corrupção, nepotismo, assalto aos dinheiros públicos.

Filinto de Barros
Filinto de Barros

Assim que vi este título de Kikia Matcho nas livrarias fui comprá-lo e tocou-me profundamente esta narrativa que é muito mais do que um pequeno exercício de ficção, é uma litania, um libelo acusatório sobre o esvaimento da memória no que toca ao passado recente da Guiné-Bissau.

Tudo começa com a notícia do falecimento de um valoroso combatente ‘N Dingui Có; o seu sobrinho, António Benaf, não esconde o aborrecimento que lhe vai provocar as cerimónias do choro, o velório, ter que conversar com homens e mulheres que vivem mergulhados no passado. Paciência, Benaf é o parente mais próximo do falecido, que frete ter de permanecer no local até ao enterro, cerca de 24 horas! Para Benaf, a luta de libertação nacional é assunto remoto. Vai aparecer Papai, o maior amigo do falecido, talvez a única pessoa que o subtraía à solidão a que se entregara, tal o desalento do combatente. Benaf continua contrariado.

“Fixou o olhar no caixão e tentou imaginar como foi possível que o semianalfabeto pudesse ter sentido a necessidade de lutar por algo transcendental. Como foi possível ter abandonado tudo para pôr a vida em perigo? Mas ‘N Dingui abandonou o quê? Afinal o tio teria tido alternativa? O que seria ‘N Dingui sem essa luta? O que seria ele, Benaf, o jovem doutor, sem a luta desse seu tio?” Aquela morte está sendo menos simples que Benaf esperara.

Há uma outra sobrinha do falecido combatente, Joana, enfermeira, para ela a ilusão da independência durara muito pouco tempo, emigrara para Portugal, discutira a questão com o tio, dissera-lhe na cara: “Vocês não criaram nenhumas condições para nós. Nos serviços, só os que lutaram no mato é que ocupam postos de comando. E se ainda soubessem do assunto!…” A vida não lhe corre bem em Portugal, para sobreviver anda por tugúrios, tem um filho de um praticamente desconhecido.

Papai viu à janela um Kikia, ave de mau agoiro, é conhecido como um mensageiro da morte, fica aterrorizado, vamos saber que Papai entrou em Bissau num dia glorioso de outubro de 1974, percebeu cedo a repetida advertência de Cabral de que Bissau podia estragar tudo.

“Triunfantes na estrada, logo sentiram dificuldades em gerir uma população habituada a um padrão de vida acima das capacidades produtivas do país. A economia de guerra tinha transformado Bissau. A cidade tinha vencido o mato.” Lutou para se adaptar, ficou um fantasma, reduziu-se a um farrapo. “Papai sonhou que terminada a Luta seria um herói venerado por todos. Afinal, a dura realidade mostrava que já não passava de uma múmia petrificada como o seu amigo ‘N Dingui.”

Vimos igualmente a descobrir que Benaf, o licenciado recém-retornado, também sonha com o poder, por ora está desempregado e tem um viver pelintra. Papai sente-se comprometido em ir avisar os amigos da Luta da morte do amigo, vemo-lo na loja de Mana Tchambú, é ali que come fiado, há ali gente que é a sobra do seu passado, gente que resvalou para a miséria devido à política do ajustamento estrutural, um fenómeno devastador que alterou as hierarquias sociais e políticas.

Filinto de Barros dá-nos, neste ambiente da locanda de Mana Tchambú, a atmosfera sociocultural, os heróis do passado misturados com antigos combatentes do lado português e renegados do PAIGC, Papai põe perguntas a si próprio, está a falar com um desertor e questiona que significado tem esta palavra na atualidade: “Quem não desertou dos caminhos traçados por Cabral? Que diferença entre este desertor da Luta e aquele que elegeram o enriquecimento ilícito à custa do povo de Cabral como a forma mais refinada da deserção?”

Joana é o símbolo da emigrante, e numa atmosfera de confronto cultural, irá mesmo consultar um género de feiticeira na outra margem do Tejo, tudo por causa do desespero em que morreu o seu tio ‘N Dingui, foi informada que apareceu um Kikia com o rosto do seu tio, dando gritos alarmantes, havia que decifrar em que sofrimento se encontrava aquela alma no outro mundo. O mesmo faz Papai que irá visitar a balobeira Na Barisni; esta, depois de rituais, informa Papai de que o falecido está aflito e solicita ajuda, ela não pode fazer nada mais, tem que consultar outros feiticeiros, Papai parte para o centro de Bissau para encontrar antigos combatentes, deparou-se com uma mistificação que desconhecida, encontra um círculo de gente onde quase todos se dizem ser antigos combatentes, ele não reconhece ninguém, então um velho companheiro de luta explica-lhe que é gente que não combateu diretamente, agora querem uma pensão, basta dizer que foram combatentes. Papai está estarrecido com a sujidade que vê à sua volta, é tudo sujidade e imundície e a ira contra os colonialistas já não serve de álibi.

É este o momento em que o autor põe Papai a discorrer se valeu a pena lutar, mas vê-se que ele ainda é um homem de sonho e esperança, mesmo quando discorre lugubremente:

“Como a cidade, adulterou-se tudo e todos. Ninguém tem respeito pela Luta! Como era possível confundir os grandes da Luta com os carregadores das balas? Os comandantes sabiam disso? Os comandantes dos comandantes sabiam disso?

Papai, na sua ingenuidade peculiar, recusa mais uma vez aceitar esse facto que a dura realidade dos momentos atuais colocava perante os seus olhos. Papai tem razão, nos tempos que passam é muito mais cómodo a gente recusar-se a aceitar os factos como eles se nos apresentam, é mesmo um ato de sanidade mental fechar os olhos e recusar ver as metamorfoses da Luta.”

O falecido irá ter enterro cristão, é memória do passado, para a família do morto era necessário o cumprimento deste preceito. E percebe-se finalmente aquela mensagem aflitiva que viera através do Kikia Matcho, era preciso pôr termo a tanta monstruosidade, havia que fugir ao desencanto de uma revolução que teimava em afastar-se do caminho traçado pelo sonho de Amílcar Cabral. “Afinal, ‘N Dingui fugia da sua própria consciência, fugia da máquina que, tendo-o transformado num monstro, o havia repudiado de seguida.”

Assim morreu ‘N Dingui, de quem os comandantes nem sequer se dignaram a assistir ao funeral. Filinto de Barros concluiu a sua narrativa em outubro de 1997, no ano seguinte iniciava-se uma cruenta guerra civil que deixou na Guiné a sua marca indelével, até hoje.

Kikia Matcho é o primeiro grande romance luso-guineense, um tremendo grito de dor, que abriu as veredas para uma nova literatura que hoje floresce na Guiné-Bissau e na diáspora.

De leitura obrigatória.

Mário Beja Santos

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