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Olhos de Água – a crónica de Vítor Franco (podcast)

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“Olhos de água” é um interessante livro de Alves Redol, um dos escritores neorrealistas que mais gosto.

“Olhos de água” é descrito assim por Alves Redol, em 1954: “Em histórias desgarradas, tendo a cerzi-las, com o ponto demasiado à mostra, notas de reportagem ou crónicas de voo raso, não fosse o delírio da altura exagerar a deformação da realidade, aqui fica o arremedo de um pequeno romance”.

É um livro delicioso. Os seus contos, as lendas ou as histórias são muito coladas à vida da lezíria, aos conceitos mítico/culturais do tempo, às relações sociais entre as pessoas na sociedade. Daí surgem as relações entre os casais, entre o rancho dos trabalhadores agrícolas e o agricultor, entre pescadores e o desalento com o descaminho do rio e a escassez do seu sustento. Era também o tempo da ditadura, do almoço de pão com azeitonas ou um naco de toucinho, de ir à escola descalço, o tempo que muitos hoje elogiam com saudosismo. Naquele tempo é que era, naquele tempo é que havia ordem!

Bem, voltemos ao livro. Entre os vários contos há um que partilho convosco: “O homem que foi às uvas”.

Imaginai porque começa assim, atalho a resposta se eu disser que “o homem foi mudar o óleo”. A aparente brejeirice traz-nos agradavelmente numa leitura “sem papas na língua” ou no dizer de Redol “de pôr os pontos nos ii” ou “pôr tudo em pratos limpos” …

Bem, deixemo-nos de metáforas. Falemos do Sr. Serafim da venda dos tecidos, do Serafim da Loja. Homem honrado, “um monge ao serviço do comércio e para bem da sacrossanta instituição da família”. Homem inteligente que estimava a clientela e com o qual as modernas superfícies comerciais por certo aprenderam a arte dos descontos e promoções.

Ora o Serafim da Loja fez-me lembrar um pouco do meu pai, também homem de família e temente a Deus, que tinha uma mercearia e taberna ali na rua Arco dos Mansos. O velho coxo, como muitos chamavam ao José Franco, era um pouco mais direto na arte dos descontos: aliviava o preço na fruta já tocada ou nos grelos já com flor-amarela e depois dizia “já não vais mal com o cheiro dos nabos”… Coisas de outros tempos que o tempo levou…

Não vos vou contar de quando o meu pai ia às uvas, nada de pensamentos libidinosos, falo de ir às compras para a venda na mercearia. Era homem de regatear e resmungar, quando o negócio estava feito mandava carregar tudo numa velha carrinha Opel Kadet. Cá vinha a carrinha, carregadinha, até à cidade onde sempre alguém esperava para a descarregar e com isso ganhar um almocito ou uma bucha e uns copos de vinho.

Bem, voltemos ao Serafim da Loja. Serafim também acolhia pobres sem janta nem pinga para ajuda na amanha das hortaliças e videiras da horta. Serafim conquistava o respeito da aldeia, ele que todas as quintas-feiras tomava o seu banho semanal e com a sua D. Carlota ia à revista à Lisboa.

A história culmina com a ida do Serafim às uvas, não às suas, mas, às da videira da vizinha Aninhas. E mais não digo… Ide amigos e amigas, ide às letras de Redol.

Vítor Franco

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