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Por favor, morde-me no pescoço ou chamo a bruxa, tudo é fantástico! (5): Atenção, fantasmas sempre os houve, presumivelmente sempre os haverá

FANTASMAS

Falar de fantasmas quase nos reduz a referir as histórias e filmes de fantasmas anglo-saxónicos, únicos dignos do arrepio de frio que os costumes impõem.

Mas há fantasmas noutros países e, não o esqueceremos. É que os fantasmas são muito, muito velhos, tão velhos como o ser humano.

Cartaz do filme “Fantasma e CIA”, realização de Christopher Landon, Netflix, 2023
Cartaz do filme “Fantasma e CIA”, realização de Christopher Landon, Netflix, 2023

Encontramos imensas histórias sobre estes mortos-revivos na Babilónia e Assíria, nos Hititas ou nos Chineses das primeiras dinastias.

Podemos lê-las na Bíblia e nenhum dos judeus pré-cristãos punha em dúvida a sua veracidade. Os gregos temiam-nos e encontramos referências fecundas da sua maldade até em Ésquilo. Os romanos tinham um gigantesco património escrito e oral sobre tais gentes, obrigatório na sua mitologia e a eles devemos a criação dos malfadados Stryges, primos dos vampiros, mas mais horrendos e maléficos.

Um dos mais primitivos relatos das aparições de tais seres (que se pretende científica) que conhecemos é  a carta a Sura de Plínio, o Jovem.

Na primitiva Idade Média, a reconstruir-se da invasão das hordas bárbaras, os vivos e os fantasmas conviviam sem grandes dramas.

Os espíritos fortes, no século XVIII, esquecendo os fantasmas (que pareciam imortais) de Saint-Germain (Balsamo) ou outras almas penadas (ou que pretendiam sê-lo) como Robertson ou Phylidor, as histórias de Daniel Defoe, pareciam esquecer que, durante a Renascença, os seus avós adoravam histórias de espectros que eram as mais populares na tradição oral dos longos serões de inverno. Veja-se “Hamlet” de Shakespeare.

Imagem de um dos filmes do Caça-Fantasmas, realização de Jason Reitman, 2021
Imagem de um dos filmes do Caça-Fantasmas, realização de Jason Reitman, 2021

E, no século XIX, com o advento do romantismo que atinge o auge, em qualidade e quantidade na Alemanha.  As “Ballades” (Lenore) de Bürger e o próprio Goethe serão os percursores. Muito pouco tempo depois, é a vez dos ingleses entrarem em campo com as suas fúnebres gothic stories: Horace Walpole, Ann Radcliffe, Lewis, Maturin, Clara Reeves.

A novela espectral não inova o estilo, concisão jornalística, grande sentido de observação da natureza humana da história de fantasmas de um Defoe de princípios do século XVIII.

O seu conto, “Mrs. Veal” parece, lido hoje, de uma banalidade abissal. Mas aos olhos dos contemporâneos, impressiona e faz pensar.

Com o romantismo, a maior qualidade literária, exploração de temas mais ou menos arrepiantes, inovadores e com conteúdo mais filosófico, multiplicam-se admiráveis obras na Inglaterra e Irlanda, Alemanha e em menor grau, Estados Unidos, França, Rússia, Suécia.

Imagem da obra “Carmilla” de Joseph Sheridan Le Fanu, Ilustração do The Dark Blue de D. H. Friston, 1872
Imagem da obra “Carmilla” de Joseph Sheridan Le Fanu, Ilustração do The Dark Blue de D. H. Friston, 1872

Os irlandeses, de Limerick, Fitz-James O’Brien, de Dublin, Joseph Sheridan Le Fanu e Charles Robert Maturin; os ingleses e norte-americanos Bram Stoker, George Macdonald, Charles Dickens, Sir Walter Scott, Wilkie Collins, Rudyard Kipling, Bulwer-Lytton, Marion Crawford, Fréderic Marryat, Mrs. Ridell, Mrs. Oliphant, R. e A. Benson, Arthur Machen, Mark Lemon, Mrs. Edith Wharton, Vernon Lee, com primado incontestável para Robert-Louis Stevenson, Nathaniel Hawthorne.

O mérito das (boas) histórias de fantasmas reside em, partindo de acontecimentos ou temas banais, comunicar-lhes progressiva ou brutalmente uma tonalidade, uma intensidade trágica verdadeiramente apavorante, pela aparição de detalhes estranhos ou pelo cortar definitivo com o nosso mundo, criando universos diferentes com regras que não são as nossas.

Mas parece importante definir em que consiste um fantasma.

Uma pessoa? Com aparência de um qualquer ser comum ou transparente?

Ou uma parte de um ser humano (mão, coração, pés)?

Ou uma casa (“assombrada”) ou um castelo?

Ou um animal (normalmente doméstico)?

Ou um objeto (banal como um lápis ou uma mesa de cozinha, um punhal)?

Ou uma voz (de uma entidade invisível) que prevê, aconselha, ameaça?

Ou uma rua?

Que, por vezes, se limita a um quarto de hotel, que assassina quem lá se atreva a dormir?

Ou a um pesadelo, que se repete noite após noite, até à aniquilação de quem o tem?

Ou apenas a uma embalagem de “petit-fours”, como refere Jean Ray num dos seus contos de pavor?

O menu é interminável e estes exemplos são apenas uma pequena parte de que podemos encontrar em livros ou filmes.

Convém voltarmos ao princípio e recordar que o ser humano pode surgir de mil formas diferentes. E ser assassino sádico, ou bondoso protetor de um qualquer pobre diabo, sarcástico ou trágico, autómato impessoal que se exibe (o que muitas vezes basta para assustar) ou ser ululante que discursa, uiva ou sibila canções de morte.

Do ponto de vista físico é infinita a variedade.

Do duplo sem mácula do seu vivo que o fantasma encarnou, visões de pesadelo de cadáveres em avançada decomposição, crianças macilentas de choro enternecedor que se fazem ouvir, gnomos de faces pestilentas, de damas etéreas vestidas de mantos translúcidos e gigantes de faces bestiais e dentes de vampiros a cavaleiros semitransparentes, de pele cor de giz, mas com espadas que matam os mortais.

Serão dezenas e dezenas de milhares as obras literárias, ficcionando fantasmas.

De passagem, cito algumas que me foram particularmente dignas de elogio.

Imagem retirada da série “The Turn of the Screw”, baseada na obra de Henry James, BBC
Imagem retirada da série “The Turn of the Screw”, baseada na obra de Henry James, BBC

De Tractate Middoth” e “Number 13“, “A Warning to the Curious” de Montague Rhodes James; “Turn of the Screw” de H. James; “La Ruelle Ténébreuse“, “La  Main de Goetz von Berlichingen“,”Le Psautier de Mayence“, “Le Grand Nocturne“, “Storchhaus“, “Trois Petites Vieilles sur un Banc“, todas de Jean Ray; “The Hounds of Tyndalos“, de Frank Belknap Long; “La Estatua de Sal” do argentino Leopoldo Lugones; “The Martensen” e “The Lurking Fear“, de Howard Philips Lovecraft; “La Haunted and the Haunters” de Sir Edward Bulwer Lytton;  “Wandering Willie’s Story“, de Sir Walter Scott; “The Caterpillars“, de E. F. Benson; “The Second Generation“, de Algernon Blackwood; “A Watcher by the Dead“, de Ambrose Bierce; “Lost Hearts“, de Montague Rhodes James e tantos, tantos mais…fantasma canterville oscar wilde

O que mais valoriza a estas obras é o crescendo dramático através do qual o horror se vai materializando e que torna fascinante a expectativa (que à partida já temos) que algo de sobrenatural se vai passar.

Não nos deixemos iludir, classificando as histórias de fantasmas em estereótipos de “ler e deitar fora”, frívolos e primários. as boas obras do género são algo mais sério e o culto da norma terrorífico-fantástica tem de perverter o mundo ordenado em que vivemos, adaptado a um planeta que já não controla muito bem, mas que tem regras e dogmas. Obras-primas como “The Turn of the Screw” (1897), de Henry James, são socialmente críticas da sociedade onde ocorrem e descrevem com mais lucidez e bom senso que as ditas opus majus da Literatura considerada universal.

Este tema é precursor do “fantasma” das obras de Freud.

Versão alemã do filme “O Fantasma dos Canterville”, realização de Isabel Kleefeld, 2005
Versão alemã do filme “O Fantasma dos Canterville”, realização de Isabel Kleefeld, 2005

Como ficou dito atrás, os fantasmas são tão velhos como os humanos. As histórias de aparições, hediondas ou fascinantes, é, afinal, a parte mais pura da ficção literária que tenta convencer os que a leem, que existem outros mundos, paralelos à quotidiana realidade e que nele entram, por vezes, para mostrarem que existem dimensões ou mundos para além da nossa compreensão.

Carlos Macedo

 

 

 

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