Leituras inextinguíveis (72): Que falta o ódio faz para nos sentirmos saudáveis, neste Alentejo da ocupação das terras

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Com a concordância do jornal, criou-se uma secção com a seguinte especificidade: leituras do passado que não passam de moda, que ultrapassam por direito próprio a cultura do efémero, que roçam as dimensões do cânone da arquitetura, da estética e do estilo, tidas por obras-primas, mas gentilmente remetidas para as estantes, das bibliotecas públicas ou privadas. Livros ensinadores, tantas vezes, e injustamente tratados como literatura de entretenimento.

antonio lobo antunes
António Lobo Antunes

Auto dos Danados, de António Lobo Antunes, com 1º edição em 1985, introduz alterações profundas nas temáticas e na arquitetura da escrita. Se as suas primeiras obras circunvagavam em torno da guerra colonial, de uma dolorosa experiência como médico psiquiatra, gritando de dor por uma perda de afeto, seguiu-se uma obra de nova organização, intitulada Fado Alexandrino, e a seguir este Auto dos Danados, nova formulação, não é um auto vicentino, não se estrutura para dele se extrair moralidade, passa-se em dois tempos distintos, em setembro de 1975, tratado por um narrador sete anos depois, e vamos ser inseridos numa família completamente disfuncional: um avô que terá sido latifundiário e que esbanjou praticamente tudo, está agora nas vascas da agonia, isto enquanto decorre uma festa do lugar, em Monsaraz, não faltará brutalidade do espetáculo de um touro anavalhado; este avô tem um filho com a mania dos comboios, dormindo vestido inclusive de chefe de estação, com a corneta pendurada ao pescoço; uma filha nasceu mongoloide, o que não a impede de engravidar e dar à luz por sua vez uma filha; um neto jovem acasala em Lisboa com uma atriz quarentona e reparte o dia a dia entre a droga e expedientes de sobrevivência, como umas vagas pinturas; há também um genro que faz de boi de cobrição familiar, nem a cunhada mongoloide lhe escapa; o leitor, em suma, é sujeito a um mergulho que o leva em turbulência ao tempo das ocupações, em setembro de 1975, e a pretexto de uma família disfuncional vamos ter diante dos olhos o fim de uma era, a decomposição final do Antigo Regime rural que o Estado Novo abençoava.

Tratando-se de uma obra seccionada, entramos nos primórdios da reforma agrária, prosa frenética:

“Logo a seguir à revolução, em abril do ano anterior, civis barbudos e soldados de cabelo comprido e camuflado em tiras vigiavam as estradas, revistavam automóveis, ou desfilavam lá em baixo, em bando, nas pracetas, comandados por um desses microfones incompreensíveis de sorteio de cegos que o marxismo-leninismo-maoismo reciclara. Semelhantes aos cães das praias, que trotam rente ao mar a perseguir um cheiro imaginário, juntavam-se nos montes do Alentejo para ladrar o socialismo aos camponeses sob um projetor poeirento; percorriam o país em camionetas escavacadas a ameaçar os lojistas com as pupilas vesgas das metralhadoras; arrombavam as casas à coronhada brandindo mandados de captura diante dos narizes estupefactos. Quanto a nós, visitávamos aos domingos os tios que sobravam do naufrágio da família, presos no Forte de Caxias por sabotagem económica, a verem as marés do Tejo subirem e descerem na muralha entre grades de celas e sovacos de paraquedistas.”

Entramos na vida do casal Nuno e Ana, esta neta do latifundiário que estertora em Reguengos. Se não vivem em estado de ódio, aparentam. Ele é dentista e tem aura de D. Juan, teve um caso com a Mafalda, ela só promete retomar se ele definitivamente romper com Ana. Nuno é estomatologista, vamos vê-lo a tratar de cáries e depois a correr para se encontrar com Mafalda, ela não está carente de sexo, precisa de uns certos comprimidos, ele chantageia, vai a casa da Mafalda, segue-se uma peripécia que horroriza a mulher a dias. Nuno visita os pais, o pai é um travesti, a mãe intermediária de negócios, neste momento está lá em casa o Assírio, tem umas libras de parte, convidativas para mais um negócio da China da mãe do Nuno. Ana telefonara em comunicar a trombose do avô, viagem noturna levam o irmão de Ana, Francisco, criança bisonha, ensimesmada, irá dar que falar sete anos depois, vivendo com uma quarentona, consumidor de droga e pintor nas horas vagas. A riqueza de imagens é estonteante, a atmosfera é permanentemente de excesso, parece que tudo é quebrável, a tendência desta gente é partir a louça, artefactos domésticos, em horas de violência até se escavaca uma loja de artesanato. A viagem para Reguengos é uma peripécia, mete a GNR ao barulho, Nuno em fuga para Évora.

Estamos agora em pleno Alentejo, é aqui que vai decorrer o psicodrama, vamos conhecer a família do latifundiário que está em estado de agonia. O tio Gonçalo fecha-se no quarto com os comboios, é o tal que dorme com a corneta presa ao pescoço por uma fita de nastro. Ana tem um cunhado que no final da história revelará o pior do seu caráter, esgatanha-se para encontrar o testamento, e como estamos em pleno auto, aparecerá alguém a cuidar dos interesses da mãe de Ana, isto numa casa em que está tudo ou quase penhorado. A atmosfera é de uma derrisão completa, o médico que vem ver o doente tem as calças rasgadas num molosso, o Francisco vai desfazendo o estetoscópio. “A mongoloide trepava para nós como um pato, o Gonçalo, plantado no meio do corredor, ergueu de súbito a bandeira, apitou, deu a partida a um comboio de mercadorias, e travões e rodas de metal fumegavam ao comprido do sobrado, e uma brisa de viagem desarrumou-nos as madeixas…” É sublime a descrição em que Gonçalo vem anunciar ao pai que se vai casar, o filho insano, louco por comboios, vai casar com a filha do Dionisio, um empregado do sr. engenheiro, deu trabalho civilizar a filha do Dionisio: “E a minha cunhada Leonor comprou vestidos em Évora, obrigou-me a tomar banho, a limpar as orelhas, a cortar as unhas, ensinou-me a lavar os dentes, a sentar-me sem mostrar as pernas, a conversar sem as palavras vulgares da minha mãe e do meu pai.” A lubricidade atravessa toda a obra, há mais violação do que amor, há relações nojentas, mesmo a mulher do sr. engenheiro fora amante do sr. major, irmão do sr. engenheiro, senhora esta que um dia arrumou a bagagem e desapareceu. O cunhado de Ana é um verdadeiro cobridor.

Que o leitor não espere encontrar a diacronia, há 1975 e posteriores reminiscências em 1982, reaparece Francisco, jovem adulto e dependente de uma quarentona, vivem ambos num espaço exíguo ali para os lados da Estrela. E entramos no clímax, surge a prima da Ana que vem reclamar a sua parte, é enxovalhada pelas tias. Estamos na festa, estralejam foguetes, ouvem-se as bandas, o sr. engenheiro fina-se enquanto um touro é anavalhado, descrição mais cruenta não pode haver, o médico é chamado de urgência, mais uma situação truculenta. Temendo invasão de propriedade, embalam-se quadros, pratas, porcelanas, joias, há que atravessar o Guadiana e fugir para Espanha, para não deixar pistas chacinam-se os perdigueiros. E alguém chega àquela casa vazia, já todos tinham partido para Espanha, o Alentejo transfigurara-se, todos aqueles ódios antigos partiam para o exílio e o Antigo Regime rural que Salazar tanto apreciava apagava-se naquela convulsão.

Era uma nova e decisiva etapa na obra de Lobo Antunes, a carga metafórica e os esplendor das imagens vão passar a tomar conta em definitivo de quem lhe segue a escrita, uma verdadeira revolução no campo da palavra.

Mário Beja Santos

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