Terça-feira, Julho 23, 2024
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Leituras inextinguíveis (74): Aqui se saúda um daqueles ensaios que podem parecer maçadoria e são pepita de ouro

Com a concordância do jornal, criou-se uma secção com a seguinte especificidade: leituras do passado que não passam de moda, que ultrapassam por direito próprio a cultura do efémero, que roçam as dimensões do cânone da arquitetura, da estética e do estilo, tidas por obras-primas, mas gentilmente remetidas para as estantes, das bibliotecas públicas ou privadas. Livros ensinadores, tantas vezes, e injustamente, tratados como literatura de entretenimento. E, não raro, agigantam-se obras-primas que, por razões inexplicáveis, jazem no esquecimento.

Cecília Barreira
Cecília Barreira

Porquê trazer à consideração do leitor um ensaio sobre matéria tão específica, basta atender ao título: Nacionalismo e Modernismo, de Homem Cristo Filho a Almada Negreiros, por Cecília Barreira, Assírio & Alvim, 1981? É a qualidade magistral da narrativa, a faculdade de tornar excitante o verbo dentro da atmosfera de um período convulsivo, correspondente à alvorada da I República, ao ideário do movimento monárquico que teimava em manter-se vivo e que ganhou doutrina nas páginas de “A Ideia Nacional”, um periódico dirigido por Homem Cristo Filho, financiado na primeira fase por Homem Cristo Pai e na segunda fase por Alberto de Monsaraz, uma publicação marcante, de vultos emergentes do conservadorismo e do ideário nacionalista e que num dado momento acolhe, imagine-se, figuras que se irão revelar como consagradas e que fazem parte da história do primeiro modernismo português.
Cecília Barreira ter-se-á entusiasmado por tão palpitante interpenetração e justifica as razões do seu zelo profissional: “A função do historiador já não é mais a do bom fotógrafo do passado, mas a do meticuloso anatomista-psicólogo das pulsões sociais, das motivações, dos efabulários, dos mitos, das obsessões coletivas dos homens.”
O quadro monárquico que vai figurar na I República detém complexidade: há os monárquicos leais ao rei exilado, eram constitucionalistas; e foi emergindo um sentimento monárquico-nacionalista, o Integralismo Lusitano, cujos mais importantes ideologistas eram Alberto de Monsaraz, João do Amaral e António Sardinha. É historicamente comprovado que a publicação “A Ideia Nacional” espoletou ideias golpistas como as que estiveram à frente do 18 de abril de 1925 e do 28 de maio de 1926; não esquecer que quem escrevia na Ideia Nacional admirava Sidónio Pais, assassinado em finais de 1918, Mussolini tornar-se-á no novo farol. Homem Cristo Filho (doravante HCF) começou pelo ideário anarquista, depois tornou-se num acérrimo defensor do princípio monárquico, mesclado de um ideário cesarista. É expulso de Portugal, mesmo antes da instauração da República, em Paris monta uma casa de chá, torna-se conferencista sobre temas de literatura e arte, entusiasma-se com os ideários nacionalistas de caris autoritário. “A Ideia Nacional” surgiu em 1915 durante a breve ditadura de Pimenta de Castro, nesta fase estão nela congregados os reacionários portugueses dos mais variados quadrantes, irão chegar personalidades como Alfredo Pimenta, Salazar, o futuro cardeal de Cerejeira. HCF chega a desligar-se do ideário monárquico para aderir ao sidonismo, mais tarde entusiasma-se pelo fascismo italiano, um dos seus livros será mesmo dedicado a Mussolini. Morre num acidente em Roma em 1928, o historiador João Medina tratá-lo-á como “o primeiro autêntico indiscutível fascista luso”.

“A Ideia Nacional”

“A Ideia Nacional” é a caixa de ressonância da atividade dos centros monárquicos no tempo da ditadura de Pimenta de Castro. Findo este período aparecem em peso os paladinos do Integralismo Lusitano, HCF rompe ideologicamente com Homem Cristo Pai. A publicação reaparece em 1916, a sua questão central é a restauração da monarquia, questão melindrosa ir-se-á pôr aos germanófilos, como Alfredo Pimenta, isto numa altura em que já se faz apologia racial, o próprio HCF fala amiudadas vezes na raça latina. Cecília Barreira dirá que em “A Ideia Nacional” desembocam filões ideológicos complexos e compósitos: das novelas de cavalaria idealizadas, à rigidez mental dos cronistas de Alcobaça, passando pelo providencialismo messianista, tudo serve de Bíblia e de musa inspiradora aos integralistas que nela colaboram, sem esquecer os mestres franceses da Action Française. A guerra obrigou os monárquicos a um compromisso político, D. Manuel milita na Cruz Vermelha, em Inglaterra, a causa aliada torna-se indiscutível. Tanto monárquicos como republicanos não ignoravam que nas vésperas da grande guerra a Alemanha dispunha-se a cair sobre Angola e contava com o beneplácito de Londres. Os germanófilos criticavam abertamente o Reino Unido, dizendo que tinham declarado guerra à Alemanha sem nos consultar, sem nos dar aviso prévio. Mas lá se conseguiu um pacto discreto de apoio da causa monárquica à nossa entrada na guerra.

Modernismo e futurismo

Chegou a hora de falar do modernismo e do futurismo. Este é um movimento de vanguarda que surge em Itália no início de Novecentos, opõe-se a escolas anteriores, traz propostas para a música, para a literatura e para as artes plásticas e tem uma visão cesarista de governação das sociedades, que o vai aproximar gradualmente do fascismo italiano. Em Portugal, é a partir de 1911 que se começa a romper com os movimentos plásticos ligados ao Romantismo e ao Realismo, aparecem em exposições de pintura chamados de Humoristas, surgem nomes como Almada Negreiros, Amadeu de Souza-Cardoso, António Soares e José Pacheco; surge a revista “Orpheu” em 1916. Alguns dos modernistas passam a colaborar em “A Ideia Nacional”, é o caso de António Soares, Almada Negreiros, Stuart Carvalhais, Jorge Barradas. Cooperação de curta duração, vão começar as polémicas e depois a cisão. HCF brande o machado de guerra, lança a acha na fogueira atacando severamente o futurismo, isto em abril de 1916: “Desordem na política, na literatura, nos costumes, nas artes, nas indústrias e no comércio, desordem geral em todas as manifestações da vida portuguesa. O futurismo, sem que nem nós nem ele déssemos por isso, invadiu e domina tudo. Novos arautos da anarquia, os senhores futuristas escouceiam a gramática, a geometria, a aritmética, a moral, a disciplina, os velhos princípios imortais que regem o mundo desde a noite dos séculos, ostentando um orgulho que só pode ser tomado como sintoma iniludível de loucura e um desprezo por todas as conquistas da civilização e todas as maravilhas do Passado.” Daqui à rotura foi coisa de um instante.

Cecília Barreira lança uma pergunta: que percurso entre uma ideologia monárquico-integralista e uma expressão artística de vanguarda? Referindo-se a um inquérito promovida por “A Ideia Nacional”, a que responderam Alberto de Monsaraz, Fernando Pessoa, Stuart Carvalhais, Ruy Coelho, Almada Negreiros e António Soares falando-se sobre a nova geração, há que reter o que respondeu Fernando Pessoa: “A influência da nova geração sobre a vida portuguesa? Nenhuma, porque não há vida portuguesa. A única vida portuguesa que há é a nova geração, e essa, por enquanto, pouco se tem influenciado a si própria.”; Almada Negreiros também não foi meigo: “Portugal parou em Camões e recomeça no século XX. As gerações modernas acordas as heroínas dos plintos intactos da Batalha e reedificam as aristocráticas ruínas do Carmo sobre o Tejo.”
Houve, pois, uma fugaz aproximação entre integralistas-monárquicos e modernistas, teria de ser de pouca dura porque o modernismo vituperava os passadistas, mas não se pode esconder que os nossos modernistas lá tinham as suas contradições e hibridismos, e não tenhamos ilusões, revelaram-se conciliadores perante o salazarismo; os integralistas também se dividiram, uns aderiram à “Ordem Nova”, outros mantiveram-se de olhos postos em Mussolini.

Quem conseguiu manter as pontes foi um vulto menor, António Ferro, simpatizante do modernismo e do futurismo, como inequivocamente revelou nas suas escolhas na obra do SNI e até na Exposição do Mundo Português.

E há por último um dado curioso que convém deixar registado: as importações ideológicas, HCF bebeu muito do seu nacionalismo no cosmopolitismo francês e na Action Française, importação que chegou até ao Centro Académico da Democracia Cristã, onde pontificaram Salazar e Cerejeira; e o modernismo muito bebeu dos bolseiros que foram até Paris, e só ganhou bilhete de identidade com dois génios: Amadeo e Almada.
Então não será por puro prazer que se lê com o maior agrado este ensaio que nos traz também capitosas revelações?

Mário Beja Santos

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