Quarta-feira, Junho 19, 2024
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Leituras inextinguíveis (96): Romance de um plano tenebroso dos EUA para manter ditaduras servis na América Central

Só um genial contador de histórias como o Prémio Nobel da Literatura de 2010 podia passar a escrito o golpe militar que ocorreu na Guatemala em 1954, planeado e financiado pela CIA para proteger os interesses de uma empresa monopolista, a United Fruit.
De um modo quase teatral, assistimos a uma reunião desta empresa, conhecida como O Polvo, em que um técnico de propaganda dá conta de que o presidente guatemalteco Arévalo, o primeiro a ser democraticamente eleito no país, gostava de fazer do seu país uma democracia como os EUA, o seu seguidor, Árbenz, seguia-lhe as pisadas, era um reformista convicto das virtualidades da democracia capitalista. O que ele ali vai propor aos participantes é que é indispensável remover tal sonhador (agora Árbenz) que até fez aprovar uma lei laboral que permitia constituir sindicatos nas empresas e herdades, autorizando os trabalhadores e camponeses a neles se filiarem.

Mario Vargas Llosa
Mario Vargas Llosa

Já podem imaginar o que significaria para a United Fruit a aplicação de semelhante medida, para garantir a livre concorrência: se não for a ruína, será uma séria queda dos lucros. O problema não é só a Guatemala, essa parte pequena do nosso mundo operacional. É o contágio aos outros países centro-americanos e à Colômbia. A United Fruit teria de enfrentar sindicatos, a concorrência internacional, pagar impostos, garantir seguro médico e reformas aos trabalhadores e às suas famílias. O perigo, senhores, é o mau exemplo. Não tanto o comunismo, mas sim a democratização da Guatemala.” E aquela assembleia sinistra aprovou um plano de intoxicação através dos meios de comunicação social norte-americanos, era preciso matraquear que a Guatemala se transformara no cavalo de Troia da União Soviética infiltrado no pátio traseiro dos Estados Unidos.”

Assim caiu um governo reformista por decisão de altas figuras do governo de Eisenhower, com destaque para os tenebrosos irmãos Foster Dulles. A CIA socorreu-se de um fantoche, um medíocre e ressentido, Castillo Armas, e Vargas Llosa recorda-nos as trágicas consequências: “Os efeitos da vitória de Castillo Armas não foram menos graves para o resto da América Latina, e sobretudo para a Guatemala, onde, durante várias décadas, proliferaram as guerrilhas e o terrorismo e os governos ditatoriais de militares que assassinavam, torturavam e saqueavam os seus países, fazendo retroceder a operação democrática por mais meio século. Feitas as contas, a intervenção norte-americana na Guatemala atrasou dezenas de anos a democratização do continente e custou milhares de mortos, pois contribuiu para popularizar o mito da revolução armada e do socialismo em toda a América Latina. Jovens de pelo menos três gerações mataram e deixaram-se matar por outro sonho impossível, ainda mais radical e trágico que o da Guatemala.”
Mas todo este feixe de factos históricos é estonteantemente redigido numa arquitetura romanesca que nos absorve da primeira à última página. Logo, a história dos pais de Miss Guatemala, um enredo que só pode existir na América Latina, vamos saltando no espaço e no tempo, os carrascos de Castillo Armas entram em cena tal como o primeiro presidente democraticamente eleito, e o seu seguidor, Jacobo Árbenz e as suas preocupações sociais, num país brutalmente desigual onde uma percentagem minúscula de fazendeiros dominava a maioria índia; é-nos apresentado Castillo Armas, em toda a sua mediocridade, sobe ao palco o Generalíssimo Trujillo, um dos ditadores mais criminosos da região, apoiara Castillo Armas, agora queria apeá-lo por aquele não ter cumprido as suas exigências, envia um agente intoxicante para a Guatemala, será coroado de êxito, Castillo Armas será assassinado; voltamos atrás, outro cenário, quando o presidente Árbenz apresentou o seu anteprojeto de reforma agrária, como este iria intensificar as manobras golpistas militares, de conluio com os fazendeiros e grandes proprietários; as forças ultraconservadoras, com o apoio explícito do arcebispo, já falavam em comunismo, o partido que assim se intitulava teria no máximo 60 militantes, Árbenz tornara-se inimigo mortal da United Fruit.

O romance redobra de vivacidade com esta Miss Guatemala (Marta Borrero Parra) que, no final da obra, já bem octogenária, será entrevistada pelo autor na sua vivenda não muito longe de Langley, perto da casa-mãe da CIA, um dos momentos mais notáveis desta obra. É que Marta, amante de Castillo Armas, acabará por ser indiretamente um elemento condutor do seu assassinato.
O golpe militar de Castillo Armas tivera o nome pomposo de revolução liberacionista, a Guatemala mudara de pele, começara a caça aos pretensos comunistas, a reforma agrária recuou, a democracia tornou-se inexistente, os interesses do monopólio bananeiro foram assegurados. E retoma-se a história com a preparação deste golpe de 1954, como a CIA organiza reuniões com os militares guatemaltecos, Trujillo consente a preparação de mercenários no seu país, são preparados bombardeiros para intimidar e fazer calar as forças leais da Guatemala.

O que há de absorvente e espantoso neste vaivém da História é o papel que Vargas Llosa concede a esta Miss Guatemala, um autêntico fio condutor não só do golpe que leva ao fim de Castillo Armas como é graças à sua história familiar que vamos sentir o pulsar das classes senhoriais guatemaltecas.

Por vezes, o feitiço volta-se contra o feiticeiro, é o caso do tenente-coronel Oliva, chefe da segurança de Castillo Armas que vai passar uns bons anos nas mais horríveis prisões do país até acabar como chefe de segurança do casino de um homem a quem chamam o Turco, Ahmed Kurony.

Vamos ver Miss Guatemala aos microfones da República Dominicana a elogiar a obra do Generalíssimo e a ter de fugir do país quando o ditador foi assassinado, nessa altura já tinha mudado de amante, foi este que a pôs no México.

Há uma figura repelente entre as muitas aqui apresentadas que é o embaixador norte-americano John Emil Peurifoy, que vinha cumprir a missão decidida pelo Secretário de Estado John Foster Dulles, de destruir o regime de Árbenz. “Tinha 46 anos, um físico de orangotango e muitas privações e esforços acumulados para chegar àquele posto. Ganhara a alcunha de Carniceiro da Grécia, graças a uma capacidade inaudita para a intriga, arranjou as coisas de maneira a armar uma junta militar com armas e dinheiro dos EUA e da Grã-Bretanha que derrotou as guerrilhas. É memorável o seu primeiro encontro com o presidente Árbenz, este responde perante a intimação de expulsar alegados 40 comunistas membros do seu governo:
– Começamos mal, embaixador. O senhor está muito mal informado. Nesta lista só há os quatro deputados do Partido Guatemalteco do Trabalho, que se declara comunista, embora a maioria dos seus dirigentes e o seu punhadinho de militantes não saibam muito bem o que é isso do comunismo. Os restantes são tão anticomunistas como o senhor. Esqueceu-se que a Guatemala é um país soberano e o senhor apenas um embaixador e não um vice-rei nem um procônsul?
O embaixador norte-americano não desistirá, mesmo quando o golpe militar triunfou será ele a decidir quem é o novo governante da ditadura guatemalteca. É difícil imaginar um romance tão extraordinariamente bem contado, assente em factos documentais irrefutáveis, onde venha ao de cima o delírio imperialista, o macartismo que dominou a política externa norte-americana não só nesta fase da Guerra Fria como até bem mais tarde. A Guatemala conheceu um terror que chegou à queima de livros, até os de Victor Hugo e os de Dostoievski não escaparam, ardiam em fogueiras em redor das quais os miúdos brincavam como na noite de S. João.
Haverá um pungente encontro entre familiares de Miss Guatemala, o pai com cancro terminal, o marido, proibido de exercer medicina e polarizado no seu afeto ao filho que Miss Guatemala repudiara.
E tudo isto para quê? A United Fruit irá desaparecer poucos anos depois, tal como a generalidade dos algozes que preparam aquele abominável golpe militar. Há que concordar plenamente com a laude o que a contracapa deste livro reserva ao autor: “Mario Vargas Llosa funde a realidade com duas ficções: a do narrador que livremente cria personagens e situações; e a que foi desenhada por aqueles que quiseram controlar a economia e a política de um continente, manipulando a sua história, pondo e dispondo da vida de países que tentaram caminhos independentes.
Um dos mais notáveis livros de Vargas Llosa, um completo desnudamento de um período tétrico do imperialismo norte-americano.

Mário Beja Santos

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