Quarta-feira, Junho 12, 2024
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Aventuras inéditas do Sherlock Holmes em Portugal – O caso dos capitais desaparecidos (2)

Para melhor compreensão do leitor deste episódio passado em Lisboa que envolveu o grande detetive Sherlock Holmes e o seu magistral cronista, Dr. Watson, recomenda-se a leitura do primeiro episódio: https://maisribatejo.pt/2023/02/21/aventuras-ineditas-do-sherlock-holmes-em-portugal-1-o-caso-dos-capitais-desaparecidos/

Não é com facilidade que um cidadão do Império Britânico se consegue orientar nas mandarínicas regras sociais, manhas e protocolos daquela sociedade original onde nos encontrávamos.

Nas primeiras digressões a que Holmes me condenou por aqui, já me tinha dado conta que os hábitos dos autóctones eram ainda mais selváticos que os do Império brasileiro onde tínhamos estado no ano anterior. A convite do Imperador, o que, convenhamos, era mais prestigiante que aquela convocatória torpe…

Felizmente encontrei um amigo (se se pode ser amigo de tal tipo de autóctones…) que me abriu inúmeras portas. Era de famílias nobres, porta-voz do rei (creio), intriguista e mexeriqueiro dando-nos conta de todos os escândalos (banais) da cidade de Lisboa.

Ouvindo-o, percebi que a canalha, neste país, suporta facilmente, por uns tempos, os Messias salvadores, a quem incensa como a um Buda omnipotente. Até os deitar fora, culpando-os de tudo o que de mau ela própria fez. Agora os apóstolos dos Messias, tradutores oraculares, rémoras parasitárias, odeia-os instintivamente desde o primeiro momento (talvez porque não está nos seus lugares) e não lhes dá qualquer importância. Este era um deles.

Casa Havaneza do Chiado onde Holmes e Watson compraram tabaco de cachimbo, cigarrilhas e as lembranças que levaram para Londres
Casa Havaneza do Chiado onde Holmes e Watson compraram tabaco de cachimbo, cigarrilhas e as lembranças que levaram para Londres

O seu aspeto e maneiras eram os de uma torrada escorrendo manteiga quente, lábio pendente e vidrado, bochecha luzidia sobre um corpo de anão breve e manhoso, sorriso estereotipado de Policcinello. Pince-nez à moda, perdendo-se pelo nariz arredondado. Tipo batata irlandesa.

“Tive o meu tempo de cricket, dizia, mas acabou…que para comentar, isso… estou sempre pronto!”

Mas não me pereceu ter adquirido um aliado precioso.

Nem o excelente rapaz, sempre revoluteando, envolvido (em Julho, repito) num espesso casacão negro de couro, figura untuosa, cumprimentando para os lados, na “Patriarcal” ou no “Rossio” (my God…), podem crer, se atemorizava com os insultos, viragens bruscas de costas, quando tentava saudar alguns figurões e mesmo um encontrão, que um assomadiço cavalheiro, forte como um estivador, braços musculosos e abrutalhados de polícia na reforma, adornado com um papillon e um paletó cinzento claro muito decente (B. B., disse ele ser o seu nome) lhe pespegou, chamando-lhe “fascista” (título que confesso, ignoro, mas me pareceu pouco lisonjeiro, pelo tom usado), ao mesmo tempo que se identificava e dizia que não tinha medo.

O nosso aliado não lhe respondeu, limitando-se a arvorar um tom verde gelatina na face esgazeada.

Enquanto me explicava que nada adiantava ter questões com aquele cavalheiro.

Que ele era um homem digno, não o temia. Era até bravo, em certas circunstâncias.

Noble Guedes era um herói. Só que à sua maneira.

E resolvera ajudar-me.

Por um preço módico.

Caminhámos longo tempo, pelas ruas lúgubres do centro da cidade.

De súbito, um grito sobressaltou o pobre escocês ingénuo que eu sou e quase me fez tropeçar.

É ela, vai ali! Passeia o cãozinho!”.

Olhei-a. Grande, seca, hirta, de tez amarelada de pergaminho, farripas de cor indefinida e dentes cavalares, parecia, numa primeira análise, uma perceptora inglesa.

Chamava ao cão, primorosamente tratado, “Paulito Rangente”, “Polo Atochado” ou “Palino Regelado”, segundo me pareceu…

Senhora D. Manuela! Senhora D. Manuela! Como está Vª Exª?” berrava, ainda à distância, o anão frenético. E para mim:

É Condessa e muito bem relacionada! Se os tais Capitais frequentam a Corte, ela saberá tudo sobre eles. Mexericos, boatos, histórias… embora seja muito severa, até contam umas histórias… sabe?”.

A dama olhou-o com ar desdenhoso, sem uma palavra. E ele, aproximando-se repetia, como um realejo italiano: “Como está Vª Ex.ª?” sem desanimar.

Por fim, apresentou-me. Fui despachado com um conciso “Estimei conhecê-lo”. Depois suportei vinte minutos de um monólogo de Harvest e três ou quatro rosnidos de resposta da dama.

Despedimo-nos. Ele ia radiante. E explicou-me, exuberante:

Sabe que isto de ser político, como eu ou a Sr.ª D. Manuela, exige características e feitio muito especiais. No seu grande país chamam-lhes, ao que creio, buccaneers ou pirates. Requer infinita safadeza e hipocrisia, além de outras invulgares qualidades essenciais. Uma memória ilimitada para boatos e mexericos, mais do que para rostos ou nomes. Enorme sagacidade e muito expediente e descaramento, anedotas sempre prontas e uns piropos, até, se necessários. De uma toca de toupeira, saber tirar um Himalaia de intrigas, montanhas de especulação indutiva, que deixariam tonto até o Camões!”.

Quem?”, perguntei, atónito.

Um poeta português, muito antigo. Zarolho e mau espadachim. Não admira. Cheirava mal dos pés e era caloteiro.  Mas é muito estimado, cá no burgo…que eu versos dele não os conheço. Bem vê, não tenho tempo para nada…”.

O tempo passava e nada tinha adiantado. Disse-lho, claramente.

É que neste reino, sabe, cultivam-se apenas as vagas universalidades desconchavadas, confusas e que dizem uma coisa e o seu contrário. Bem forradas a burocracia. Ter ideias sólidas, estudar a enorme pirâmide das verdades científicas, não é cá para a rapaziada! Preferimos o Turf Club e uma batotinha…no Casino Lisboa, por exemplo, coisa como as que se veem lá fora!

Ah, seja como for, devemos muito ao Pedro Lopes. Criou, entre nós, um princípio político fundamental: um boatinho catita ou um amante “chic”, faz mais pela nossa conta no banco, que uma vida de trabalho paciente e suor! Ele, o Fontes, o Platão, o nosso engenheiro, temos feito muito pela civilização, sabe? Abolimos já a pena de morte!”

Discordei. Os portugueses, aparentemente, matavam-nos com muito mais eficácia pelos discursos que faziam, riachos de azeite rançoso, escorrendo sobre um mata-borrão…

E voltei à carga. “Então esses Capitais?”.

Não os largo! Temo-los filados!”.

Apercebi-me, então, que éramos seguidos, discretamente, por um gorduroso homenzinho, quase um anão (seria assim em todo o país?), que sorria num tique permanente, a que se adicionavam uns cinco pés de altura (só a cabeça ocupava metade; o apêndice nasal, quase outro tanto), uma calva sincera e um fato de cheviote impecável. Um pince-nez fumado encimava-lhe o Gibraltar que lhe servia de nariz.

Inauguração da estátua de D. Pedro IV, no Rossio, 1870

Inauguração da estátua de D. Pedro IV, no Rossio, 1870Os transeuntes que se cruzavam connosco trocavam comentários picarescos entre si, ao vê-lo. “É o do Turf e do Jockey Club!…arre, que é feio como o Arrobas…fala às segundas…pois, pois, mas é muito bem-falante…”

Inevitavelmente acabei por lhe ser apresentado. Tinha um nome patusco: Vitorino (homenagem de seus pais à nossa Rainha-Imperatriz?). Horror.

Além de maçador, era maníaco das doenças. Fossem achaques próprios ou alheios.

Radiava felicidade, relatando os seus próprios padecimentos, com uma franqueza que achei indecente. Fazia alarde de possuir doenças estranhas, de nomes complexos e difíceis. Como entre nós, elogiamos aos amigos, um magnífico potro árabe, que comprámos, ele inchava de pose ao referir a sua miocardite ou outros males, que a decência me impede de referir e imporiam antes o apoio arguto de um proctologista…

Parecia, pelo seu ar impante, esperar da nossa parte sintomas de inveja, despeito ou talvez veneração, como que nos dizendo: ”Ora toma, eu sou hemorroidoso e hemorrínico e tu não!”

E a avalanche de pormenores do inqualificável relato não terminava, numa onda interminável de particularidades, minúcias e divagações, sem o mais remoto parentesco com as maleitas, envolvendo até a mulher de Harvest, uma tal Judith, que em vez de seguir a sua homónima bíblica (usando espada, machado ou até um revólver) lhe ministrava receitas de tisanas, que ainda o mantinham por cá…

Salvou-nos um mendigo (das dezenas que nos rodeavam a cada passo, entoando em coro uma espécie de música folclórica, de que só entendia “pfvpfv, só uma…”). O aspecto era particularmente repugnante. Cheirava a alho a vinte metros, era alto e cheio de cicatrizes, barba por fazer, coxeando e remexendo nos farrapos que o cobriam, e produzindo sonoridades frequentes, que me abstive de analisar.

Fujam, meus fidalgos, fujam! Isto já nem se pode andar na rua! Um polícia aos tiros! A Havaneza já pôs os taipais! Isto vai dar molho, meus fidalgos! Mortos aos centos! Cavalaria na Patriarcal! E assim, de repente!”

Não foi preciso mais. Os dois comparsas puseram-se ao fresco, com uma celeridade que parecia passe de mágica. O mendigo agarrou-me o braço com firmeza, arrancou a perruca, por onde passeavam, com vagar, vários insectos indígenas, e disse-me, com um sorriso lupino: “Destes, não tiramos nada que valha!”

Era Holmes, está claro.

Disse-lhe que não me era fácil descobrir algumas pistas úteis. Tentando mantê-lo o mais longe de mim possível (o alho…). “Ainda se tivéssemos um retrato deles, um daguerreotipo…”

Boa ideia, Watson! Existem uns amadores, uns judeus argutos… Benoliel, Relvas, creio… pode ser um começo…”

Espalhámos gorjetas, interrogámos gente da nossa embaixada e lá conseguimos chegar a um amador da nobre arte fotográfica (seria correcto dizer arte, aqui?) que nos abriu as portas à sua enorme coleção. E começou então o nosso verdadeiro tormento.

O colecionador, que era rico e também colecionava cavalos e amantes (por esta ordem) tentava ajudar-nos:

– “Ora repare, veja lá se reconhece!”.

-“É o Lorde Kitchener”, disse eu, atento.

– “Que disparate! É minha mãe, D. Carlota Ervas!”.

-“Claro, enganei-me, foi o buço..”.

-“O buço??????

– “Queria dizer o rebuço da blusa; Watson fala pessimamente até inglês”, dizia Holmes, sempre oportuno.

Bom, passemos a outra, já vi que não é fisionomista…”.

“Não, sou médico do exército, na reserva…

Resultado: sete horas e duas mil fotografias depois, desistimos.

E, Holmes, providencial, mudou de estratégia.

A rainha D. Amélia e o rei D. Carlos na inauguração do Sanatório Sousa Martins, em 1907
A rainha D. Amélia e o rei D. Carlos na inauguração do Sanatório Sousa Martins, em 1907

(continua)

Carlos Macedo

 

 

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