Quarta-feira, Junho 12, 2024
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Aventuras inéditas do Sherlock Holmes em Portugal – O caso dos capitais desaparecidos (3)

Holmes não pode ser culpabilizado pelo que se passou.

Soubera, graças ao seu providencial disfarce de mendigo, que um carrasco de sardinhas (já superintendente na fábrica Tenório, empresa indígena de grande prestígio), de nome Botas, à força de praticar centenas de milhares de execuções sumárias dos pequenos animais, fora vítima de uma forte depressão, que lhe causara a perda total do cabelo (usava perruca).

Em seguida, para atenuar o sentimento de culpa que o enlouquecia, abandonara o seu hobby favorito (cantar canções obscenas, de sua autoria, a turistas estrangeiras) e dedicara-se (acreditei-o, embora me parecesse absurdo) à política.

E Holmes, concluía, arguto: “…o que, soube-o de fonte segura, só lhe foi possível com o concurso de três aliados perversos: um Vitorino, mas não o que deixámos há pouco (este é Gago…), outro gago, creio, que se identificou como Zé…zé Cama e…os nossos Capitais! Consegui por fim localizá-los! Só nos resta visitá-los e submetê-los a um interrogatório esclarecedor. The Game is afoot, Watson!”.

Era o que eu temia.

E lá voltamos ao Hotel, para que ele mudasse de fatiota e eu pudesse refrescar-me com um galão de um excelente Porto (safra de eleição), que descobrira numa rua ali perto. Numa loja cantonesa. Propriedade (que povo prolífico, estes amarelos!) de trezentos cidadãos do Celeste Império. Que, com a falta de imaginação que vitima os coolies em geral, designavam por “loja dos trezentos”.

Restaurante Tavares, onde Holmes e Watson comeram sardinha assada e leitão da Bairrada
Restaurante Tavares, onde Holmes e Watson comeram sardinha assada e leitão da Bairrada

Holmes esclareceu-me: “Já sei onde se acoitam. Na maioria do tempo (embora viajem muito, Cayman Islands; ao nosso cruzador em Espanha, Gibraltar, vão muito, também; num pequeno ducado ou principado germânico, Liechtenstein, creio…). Quando param na sua terra, estão por locais que já identifiquei no mapa: Quinta da Marinha, Quinta do Lago, and so…

É evidente que são agricultores (quintas são “little farms”, não são da gentry, portanto…) vivendo uma vida austera, de um papismo lúgubre, mas honrado.

No entanto, indaguei, trabalhei… vamos, mesmo assim, penetrar numa das suas festas. Não é difícil, se os convencermos que conhecemos os nossos ancestrais até ao nível dos avós…”.

Temos um Estoril Express, às 12.16. Avie-se.”.

De facto, tínhamos; aviei-me e o comboio lá partiu, com a fumarada habitual. Às 14.03.

Chegámos a uma mansão senhorial, que nos tinham dito ser uma das tocas onde se acoitavam os vilões (aliás de um novo-riquismo enjoativo, que eu não contemplava desde que visitara os Manors de Drake e Henry Morgan).

Recebeu-nos, risonha, uma senhora, que sem dúvida ofereceria uma nítida semelhança com Vénus, se não fossem as crateras de pele quase centenária que lhe adornavam o espaço entre as duas orelhas (que não me atrevo a qualificar de rosto…) e um corpo que me recordava estranhamente a morgue do St. Bart’s:

“Olá, como vão, queridos? Sou a Lili, a Lili Caneca! Vocês são aqueles VIPs londrinos de que os periódicos falam? Que bom! Entrem, entrem!”.

Entrar, não sabíamos bem para onde, pois estávamos no centro de um relvado (bem mal conservado, aliás) que cercava a mansão. Num transbordar de gritos, risos e cochichos, agitavam-se mais de cem pessoas, na maioria muito jovens e pintadas, admiravelmente empenhadas em imitar (seria um bal masqué diurno?) a severa nudez da estatuária grega.

Holmes, já enciclopédico sobre o pequeno país, apontou-me inúmeros fidalgos, jornalistas (“perigosos, Watson, nunca lhes dirija a palavra…antes falar com uma cobra capelo”), deputados, ministros, grandes industriais, até escritores e poetas.

Estas celebridades passeavam junto a nós, como se fossem pessoas vulgares, sorrindo, falando, proferindo constantemente enormes imbecilidades, sem dúvida na ideia generosa (e nobre) de as tornar inteligíveis ao poviléu ou a pobres diabos como nós, que ali pudessem estar…

Havia também bebida suficiente para quinhentas pessoas (não éramos mais que cem) e comida talvez para vinte (sobejaria imensa certamente, pois era tudo de péssima qualidade e gosto).

Uma encantadora loura, quase adolescente, dirigiu-se-nos, chamando-nos cotas (presumo que um sinónimo de britânicos) e dizendo. “Qual é ninho, queridos? Banca, política, eletrónica…ou drunfa?”.

Conseguiu calar Holmes, que nem abriu a boca. Cá para mim, não percebi uma palavra do que ela gorjeou.

Conseguimos, por fim, chegar junto ao anfitrião.

Este, cara em triângulo, vermelha como a de um pilar de um pub, sempre a sorrir, adornava-se com um bigodinho diminuto, eriçado nas pontas, cumprimentou-nos efusivamente (nunca nos tinha sido apresentado…): “Carros amiigos, que prrazer tenho em vos terr aqui! Sua majestade, bem?”.

Discreto, sussurrei a Holmes: “Sotaque africano… austríaco???”.

Respondeu-me, sibilino: “Não. Belfo. Idiota congénito. E príncipe de sangue real”.

Apresentou-nos em volta.

Conhecemos assim uma multidão de celebridades, todas elas fascinantes.

A tal Manuela, íntima do rei, muito alta, muito seca, muito feia, envergando um tweed inglês de mau corte (inteiramente deslocado ali) de tom lúgubre, o cabelo severo caindo-lhe num bioco sobre a testa óssea, conversava (por rosnidos), com um pateta verboso e magro, de nariz de Pulcinello, cabelo branco dando-lhe um tom de seriedade, mas que o discurso gritado, de vendedor de arenques de Cheapside desmentia e era (disse-me Holmes, para meu pasmo) o alto representante do pequeno país.

Lisboa, 1968, Eduardo Gageiro, com a devida vénia
Lisboa, 1968, Eduardo Gageiro, com a devida vénia

Noutro grupo, três sujeitos, inadequadamente vestidos para a hora do dia e a ocasião, berravam, numa pletora de perdigotos e gestos latinos. Ao ouvir uivar “…porque os capitais…”, acotovelei Holmes. Quase tombando com o impulso, pois este já não estava a meu lado.

Em desespero, tentei aproximar-me, taça em punho (os vinhos, nesta terra, eram das poucas coisas que mereciam referência) do grupinho, sorrindo com ar casual.

Um, truculento e nédio, calva incipiente e barbas hirsutas de anarquista, com um ar alucinado e acre, que me recordou o saudoso professor Challenger, apresentou-se-me: “Pacheco Macieira, proprietário. De cem mil livros”. Após o que, arrotou discretamente e perguntou-me: “E o senhor? Estrangeiro, já vejo. E alemão, que nunca me engano e sou fisionomista”.

Por cortesia para com o proprietário de uma biblioteca maior que a do British Museum, curvei-me, sorridente e em silêncio.

Outro era moreno, olho triste de goraz, baixinho, com a barba por fazer e a bonomia dos vegetais em decomposição. Pensei que era um dos últimos pré-rafaelitas vivos, mas desfez-me as ilusões, suspirando a custo: “Ventura, oposicionista como deve ser”.

O terceiro pertencia decerto à Igreja do Vaticano (talvez bispo), embora vestisse uma estranha casaca e não usasse (!) laço, gravata nem écharpe. Era magro, felino e nodoso (seria irmão da tal D. Manuela? Cardeal papista de uma associação esotérica?), todo em ângulos, verbo untuoso e melífluo. Falava com o tom plangente que usam os sacerdotes romanos nas suas “missas cantadas” … Disse-me ser, afinal, deputado de um grande partido político (quatro ou cinco deputados… o parlamento do país, atendendo ao tamanho, devia ter dez ou doze…) e chamar-se Francis Louça. Mas de frágil e quebradiço não tinha nada. O seu estilo aproximava-o mais do das enguias.

Discutiam o destino…dos capitais!

Enfim!

Mas tudo se precipitou de novo.

Uma figura elefantesca juntou-se ao grupo, com a elegância e graciosidade de uma baleia acasalada com uma alforreca.

Arregalei os olhos de espanto: “Mycroft Holmes???? Aqui ???”.

O monstro sussurrou-me, aterrado: ”Cale-se, idiota; sou Sherlock; disfarçado, claro, pois o físico do meu irmão é tão monstruoso, que me permite carregar no macfarlane até um microscópio e um pequeno canhão portátil…agora, meu bom doutor, peço-lhe um enorme favor: cale-se ou desapareça!”.

Enojado com a ingratidão, afastei-me e recorri ao paliativo que a minha pátria criara: uma boa sucessão de whiskies, bem medidos.

Impossível.

O que aqueles afáveis selvagens (mas mesureiros e desejosos de agradar, é certo) me propuseram incluía, se a memória me não falha, “salsaparrilha, orchata, capilé, uma malvasia de primeira, oporto (temos muito melhor em Londres…), Pinsang Hambun, Favaios e um vinhinho verde que…”, nomes a recordar talvez as suas viagens (bem produtivas para nós, que lhes herdámos as melhores feitorias…) por climas exóticos e fascinantes.

Tentei algo a que chamavam “champagne”, ao que parece, bebido pela gentry indígena apaixonada pela caça à raposa (chamavam Raposeira à beberagem…).

Quase vomitei.

E lavei a boca com alguns copos de vinho tinto, que esse, sim, era bastante bom. Terminada a segunda (seria terceira?) garrafa, voltou-me a alegria céltica dos meus antepassados escoceses e aproximei-me de um grupo que escutava (entre boatos e dichotes constantes), um pianista com ar de louco pouco lavado, que me disseram chamar-se Vitorino de Almada e ser “um génio”.

Se o era, num esforço louvável e nobre, tudo fazia para ninguém se apercebesse de tal, interpretando pessimamente uma sinfonia que me informaram ser de sua autoria. E a mim me parecia uma sessão ininterrupta de escalas, marteladas com um vigor germânico.

Falava-se do “tremendo escândalo” (havia, em média, uns dois por dia…).

Porque isso é uma questão de capital, dizia um. Detive-me, de imediato.

E, então, vi-me interpelado por um vozeirão alegre e juvenil, que olhava para mim e para Holmes (que já se desfizera do disfarce de Mycroft) e me ladeava:

“Olha o Serafim e o Malacueco!”.

Verdade, verdade, sou um pouco corpulento e Sherlock um escadote inclassificável.

Palácio da Cidadela visto do Estoril, por D. Carlos de Bragança, 1885
Palácio da Cidadela visto do Estoril, por D. Carlos de Bragança, 1885

De momento, o epíteto pereceu-me soez. Mas, quando me preparava para corrigir o insolente (com a ajuda do marquês de Queensberry…), olhei-o melhor e fiquei desarmado. Uma face lunar, juvenil e risonha, com olhos que espelhavam uma alegria de viver que até aí nunca tinha visto neste país bisonho. Um chapéu de palha que dançava no alto da cabeleira morena, encimando um físico de globo terrestre.

Contra minha vontade, sorri. E logo ele, jocoso, disse: “Sentem-se! Sentem-se!” e fez um gesto com três dedos espetados para um criado que (inconcebível!) tinha um funil enfiado numa orelha. “Três aguardentes! Daquela, da de vinho verde!”. E, sem transição: “Pois, é amigos, um estudante nunca se atrapalha. Querem uns pastelinhos de bacalhau? A morada dos capitais? Fraca companhia, digo-lhes…, mas enfim, tudo se arranja. A propósito, eu sou o Vasquinho, um amigo às vossas ordens”.

Provou sê-lo.

(continua)

Carlos Macedo

Também pode ler:

Aventuras inéditas do Sherlock Holmes em Portugal (1) – O caso dos capitais desaparecidos

Aventuras inéditas do Sherlock Holmes em Portugal – O caso dos capitais desaparecidos (2)

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