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Inês Henriques despede-se do atletismo – “Saí de Estanganhola, fui campeã do mundo e continuo lá”

Inês Henriques está realizada com a carreira de marchadora, que vai concluir no domingo após conquistar um título mundial, na mesma corrida popular em que se iniciou no atletismo, no concelho de Rio Maior.

No domingo, para a Volta à freguesia de São Sebastião, onde deu os primeiros passos de corrida em 1992, Inês Henriques vai juntar a família, os amigos e todos os que sentiu importantes no seu percurso, tendo, entre os vários convidados, o presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP), José Manuel Constantino, a antiga campeã olímpica da maratona Rosa Mota e todos os presidentes do Município riomaiorense.

Aos 43 anos, a pequena [tem 1,58 metros] grande atleta natural da também pequena localidade de Estanganhola vai despedir-se do atletismo de alta competição, na corrida do torneio de freguesias riomaiorense de São Sebastião, onde alinhou pela primeira vez, com 12 anos, e nas quais pretende continuar a participar.

“É um dia [em] que já estou em paz. É óbvio que a tomada de decisão é sempre muito mais difícil. Porque mais de 30 anos da minha vida foram virados para o atletismo, com o objetivo de alcançar boas marcas e bons resultados. A decisão foi difícil e, provavelmente, já devia ter tomada anteriormente. Estes dois últimos anos foram a mais, mas eu preferi adiar e ver se o meu corpo ainda respondia com os meus objetivos. Não respondendo e já não me sentindo bem a fazer o que estava a fazer, foi tomar a decisão e seguir em frente”, explicou a marchadora, à agência Lusa.

Inês Henriques vai encerrar o capítulo competitivo na sua terra natal, numa competição batizada com o nome de Jorge Miguel, o seu treinador de sempre.

“Começou no dia 11 de janeiro de 1992, na prova de São Sebastião, a minha freguesia – eu pedi ao Jorge para ir ver os registos –, em que, sem treinar, fiz um quilómetro em 04.30 minutos. Para uma miúda de 12 fazer isso sem treinar, era bastante bom. Eu costumo dizer que tinha algum valor, mas, depois, foi muito, muito trabalho”, vincou.

Seguiram-se mais de 30 anos de carreira, três Jogos Olímpicos, quatro presenças no top-10 em Mundiais e, coroa de glória, o título de campeã do mundo dos 50 quilómetros marcha, em Londres2017, selado com novo recorde na distância, e ainda o europeu em Munique2018.

Apesar do sucesso tardio, Inês Henriques valoriza todos os momentos do seu percurso, identificando duas mágoas, a retirada dos 50 quilómetros marcha do programa olímpico, contra o qual lutou judicialmente, e o abandono na última presença em Campeonatos do Mundo, em Budapeste2023.

“A maior mágoa que fica é não ter tido a oportunidade de fazer os 50 quilómetros nos Jogos Olímpicos (…) e, infelizmente, em termos desportivos, também não acabo como eu pretendia. Fiquei muito triste por não ter terminado o Mundial, independentemente do lugar ou da marca, eu queria terminar. Já tinha pensado que seria a minha última competição, mas precisei de mais algum tempo de reflexão”, reconheceu.

No domingo, às 10:50, o treinador Jorge Miguel, durante muitos anos organizador do torneio concelhio e dinamizador do atletismo em Rio Maior, dará o tiro de partida para os 5,85 quilómetros da última corrida de Inês Henriques, na Volta à freguesia de São Sebastião, uma volta de consagração da ‘filha da terra’, numa festa que vai contar com inúmeros responsáveis pelo seu sucesso.

“Acho que merecia pôr um fim neste ciclo e, de alguma forma, quero estar com as pessoas que fizeram parte dele. Vai ser um encontro de pessoas que estiveram comigo, que me viram crescer. Foi onde eu iniciei. Tudo tem um significado muito grande. Acho que eu sempre procurei levar as minhas origens comigo. E as pessoas que me viram crescer, acho que vão ficar felizes por isso, por a minha despedida ser com eles. Para mim, faz todo o sentido, porque eu saí de Estanganhola, andei por todo o mundo, mas continuo lá. E continuo a ser a miúda que ia a pé para a escola e vai ser feliz um dia”, concluiu.

Inês Henriques alcançou apogeu tardio nos extintos 50 quilómetros marchaines henriques

Inês Henriques capitalizou a abertura dos 50 quilómetros marcha às mulheres para chegar aos títulos mundial e europeu, então já com uma carreira feita, sendo também vítima do desaparecimento desta distância dos calendários das grandes competições.

“Em 2016, fiz três vezes o meu melhor tempo nos 20 quilómetros, mas estava a pensar terminar a carreira, porque já tinha feito tantas coisas. Com 36 anos, também pensava engravidar, mas, depois, o Jorge [Miguel, seu treinador de sempre] viu que eu precisava de um novo desafio”, recordou a marchadora de Rio Maior, em entrevista à agência Lusa.

Foi após o 12.º lugar no Rio2016, na ressaca de um ano de 2015 para esquecer, que prometeu ser a primeira portuguesa a enfrentar os 50 quilómetros marcha. E cumpriu. Em 15 de janeiro de 2017, em Porto de Mós, estabeleceu em 04:08.26 horas o recorde do mundo da distância, que viria a melhorar sete meses depois, em 13 de agosto, quando se sagrou campeã mundial.

“Ele [Jorge Miguel] lançou-me este desafio. Fui para casa, pensei e, menos de duas horas depois, dei-lhe a resposta. Até estava lesionada, mas, sem pensar muito, aceitei o desafio. E deu-me uma energia diferente”, recordou.

Confiante de que o empenho – de quem assume que quando falhou foi por excesso de treino – lhe poderia dar algo diferente nesta nova distância, introduzida nas competições como corolário da igualdade de género.

“Eu sempre acreditei no nosso projeto, e o Jorge Miguel acreditou ainda mais do que eu, e fui trabalhar”, referiu a marchadora, também licenciada em enfermagem, que, depois de oito presenças em Mundiais arriscou numa aventura maior, mas encurtada pela não inclusão da distância no programa olímpico para Tóquio2020.

Os 50 foram também abolidos do calendário masculino e universalizou-se a prova de 35 quilómetros até aos Mundiais disputados em agosto último, em Budapeste, uma vez que já não integra o calendário para os Jogos Paris2024, num revés para a carreira da marchadora ribatejana.

“Eu tentei adaptar-me aos 35, mesmo não sendo igual aos 50, porque a partir dos 40 é outra história. Apesar disso, ainda sentia alguma capacidade para os fazer e como colocaram 35 para homens e 35 para as mulheres, na igualdade de género possível, achei que isso tinha acontecido porque eu trabalhei para isso, queria lá estar”, sublinhou.

O desfecho ficou longe do desejado, com a desistência após 14 quilómetros em Budapeste, onde, mesmo assim, igualou a conterrânea Susana Feitor como a atleta com mais presenças em Campeonatos do Mundo (11), num registo só superado pelos também marchadores João Vieira e Jesus Ángel García Bragado.

É essa história, em contraste com os “meandros menos bonitos do desporto”, durante a batalha pela introdução dos 50 quilómetros em Tóquio2020, que deixam a certeza na resposta de Inês Henriques quando questionada se tudo valeu a pena.

“Claro que sim. Eu trabalhei estes mais de 30 anos com o Jorge, que, tal como a minha família me deu valores muito bons. Ele também foi um educador, porque eu estou com ele desde os 12 anos. Consegui muitas coisas e posteriormente consegui um sonho, que era ser das melhores do mundo. Já tinha tido vários top-10, já não acreditava muito que poderia ganhar uma medalha num grande campeonato, mas os 50 quilómetros deram-me outra energia e foi possível”, recordou, num desafio de superação pessoal por “mostrar algo que diziam que era impossível”.

Marchadora Inês Henriques procura felicidade pós-atletismo ines henriques

Inês Henriques vai celebrar a sua carreira, pondo-lhe termo na corrida popular em que começou, há 31 anos, juntando os seus, enquanto procura a felicidade no fim da marcha.

“E acho que valeu tudo a pena. Iria voltar a ser a miúda de 12 anos a ir ao torneio das freguesias e voltaria a carreira de atleta. Porque estive sempre num clube pequeno, o Clube de Natação de Rio Maior, a representar a minha cidade e consegui algo tão grandioso como um recorde do mundo e ser campeã do mundo”, salientou a atleta, natural de Rio Maior.

Em entrevista à agência Lusa, Inês Henriques reconheceu o “percurso longo, bonito, com altos e baixos”, como a vida.

A conterrânea Susana Feitor, com quem partilha o recorde absoluto de 11 presenças em Mundiais, foi a inspiração e a culpada pela dedicação à marcha, depois de se ter sagrado campeã do mundo de juniores, em Plovdiv1990.

Ambas fizeram parte do grupo da marcha de Rio Maior, juntamente com o consagrado João Vieira, mas também com o seu irmão gémeo Sérgio Vieira, Vera Santos e, mais recentemente, Mara Ribeiro, Miguel Carvalho e Miguel Rodrigues.

Inês Henriques consolidou a sua carreira nos 20 quilómetros, mas a ‘segunda vida’ começou a desenhar-se depois dos Mundiais Pequim2015.

“Já não estava a ser feliz e não queria continuar algo que já não me deixasse feliz”, reconheceu, recordando os incentivos do treinador e a sua estratégia motivacional: “Eu estive mais de um mês de férias, sem treinar, foi o mês que eu tirei para pintar a minha casa, e pintei-a toda por dentro sozinha, foi a minha terapia”.

Ao pôr fim à carreira, no domingo, Inês Henriques vê com preocupação o futuro da disciplina, por falta de renovação.

“A melhor atleta é a Ana [Cabecinha], que já não vai para a nova. Agora, apareceu a Vitória [Oliveira] a fazer umas coisas engraçadas, a evoluir muito bem, mas também já tem quase 30 anos. Nos homens temos o João Vieira, que é mais velho que eu, por isso está difícil”, lamentou.

O abandono vai também “custar” ao seu treinador de sempre Jorge Miguel, reconhece a própria, e “também é o fim de um ciclo da sua vida”.

“Ele formou muitos seres humanos, que, em vez de estarem a fazer outras coisas que não deviam, estavam na pista. Acho que também para ele vai ser um pouco difícil, porque já não vai estar no treino, já não estamos todos os dias. Mas ele aceitou bem a minha decisão, porque já estava também à espera. É assim, ele só me quer ver feliz e eu quero continuar a ir correr e a sentir-me feliz”, concluiu.

Ainda sem um futuro definido, Inês Henriques rejeita tomar decisões precipitadas, confiando que “outras portas” se irão abrir, sem que o atletismo, e as corridas populares, desapareçam do seu futuro pós-carreira.

João Pedro Simões

Agência Lusa

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