Sexta-feira, Dezembro 8, 2023
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Leituras inextinguíveis (106): Nunca se foi tão longe na descrição da recruta e da especialidade em tempos de guerra colonial

Nunca me fora dado ler um relato tão vincado, minucioso, expressivo, uma sequência tão aprimorada, até de rigor cronológico, desde a chegada para a recruta, as suas andanças, a nova vida de relação, a passagem para a especialidade, as dúvidas sobre aquela guerra tão longínqua, as pesadas decisões. Em “O Pé na Paisagem”, (Editorial Caminho, 1981), Filipe Leandro Martins procura dar-nos tão sinceramente esse itinerário, o pulsar da caserna, os encontros e desencontros com a cadeia do comando, a atmosfera da vida promíscua na caserna, a preparação física, o discurso ideológico reinante. De algum modo, estamos todos lá enquanto geração das casernas, movendo-nos entre o quartel e o fim-de-semana, todo o roteiro que levou a generalidade até ao embarque e outros à deserção. É um relato a vários títulos poderoso, combina o realismo com o expressionismo, desce às entranhas da engrenagem militar, obriga-nos a rever corredores, instrução, novas amizades, a carreira de tiro, a expectativa de partir para uma frente da guerra, lá longe, no completo desconhecido.

Filipe Leandro Martins
Filipe Leandro Martins (1945-2014)

O arranque do romance é quase cinematográfico: “O comboio deixou-nos na cidade com mais ou menos vinte anos. Saímos aos trambolhões, entre malas e saquinhos, berrando uns pelos outros com a solidariedade de bairro, de vila ou de escola. Eu vinha só com a mala pesadíssima que trazia de casa para a caserna que nos esperava, velhaca. Arrastávamo-nos com pressa, desancados pela viagem, pelas bagagens, pelo sol provinciano à uma da tarde no largo amarelo da estação e ouvi alguém gritar o meu nome uma porrada de vezes antes de me voltar”. Segue-se o cerimonial da entrega dos materiais e a chegada à caserna, tudo em tropel, o pessoal deslumbrado pela novidade, intimidados: “Sombras chinesas falavam aos berros, contraditórias e desmoralizantes – já não davam mais lençóis ou só havia botas das pequenas, ou não distribuíam mais fardas nessa noite e amanhã estás lixado que tens de aparecer fardado, despacha-te que o quarteleiro está a dar a roupa da cama… Deram-me duas mantas castanhas e esburacadas, um par de lençóis duros e molhados. Quando voltei ao boliche já a minha cama estava feita e ocupada por uma feroz sombra a ressonar. A caserna ia abrigar cerca de duzentos instruendos, uma companhia de instrução dividida por muros até meia altura e um corredor lateral percorria todo o casarão até aos lavabos e às cagadeiras. Em cada compartimento duas filas de camas em beliches de ferro, assentes no ladrilho encardido, o ferro pintado a descascar-se nas camas e nos cacifos, os colchões de palha endurecidos por gerações de guerreiros que ali tinham cultivado o sono.

São rostos cansados, insones, gente que grita, há quem ande à procura de receber ordens, há gente com fome, há gente que conta histórias, algumas delas horripilantes sobre o que se passa em África. Tocam clarim e alguém grita: “Esta é que é a puta da segunda companhia?” Da desorganização aparece a ordem de um quartel inteiro: “Depois começou a chamada, milhões de nomes a acertar com números, e a fome a roer. Depois firme. Sentido. Os braços esticados, dedos juntos, olhar em frente. Não mexe. O furriel deu um passo em direção a nós, perna estendida, patada no chão. Deu meia-volta, muito teso. Fez a continência a um homem franzino, enquanto a malta bichanava que era um alferes. O alferes fez um gesto mole em resposta, virámo-nos para a direita e lá fomos a caminho do refeitório, a toque de caixa”.capa livro o pe na paisagem

Surgem as novas relações, aprende-se a importância de engraxar as botas, revelam-se as manigâncias de quem quer uma cunha para fugir a África. A descrição do polimento das botas é inultrapassável: “A caserna albergava milhentos homens a esfregar pela quarta vez as botas nesse dia. Os dois pares que tínhamos, iam sempre brilhar nas formaturas, nas revistas, nas chamadas. Quando as recebíamos elas vinham tão grosseiras que era difícil amaciar-lhes o pelo, bebiam frascos de tinta e latas de graxa, aguentavam escovadelas dementes, duras de roer. Alguns havia que passavam o fim de semana a dar-lhes pomada e queimar-lhes o pelo e mandavam-nas ao sapateiro para sofrerem tratamentos de especialista. Outros passavam o dia à volta de dois pares, sentados no chão. Eram engraxadores de coração, a graxa entrara-lhes na alma através dos dedos, o prazer que tinham era mirarem-se no espelho das botas.”

Começam as aulas teóricas e práticas, aprende-se a limpar a arma, a correr e a saltar, os ensinamentos da tática são muito importantes. Vai ser assim até ao juramento de bandeira. De quando em vez, o autor pontua a vivacidade da descrição introduzindo monólogos: Norberto, o fura-vidas, sempre a procurar desenrascar-se, o seu sonho é ser amanuense; o tenente Estêvão que meteu o chico porque gostava da tropa, era ali que estava a juventude do país e que se maravilha com as qualidades da raça. Na especialidade, a qualidade da comida é degradante. Houve mesmo movimento para levantamento de rancho, interveio a tempo o tenente Estevão, a cozinha levou aquele lixo e trouxe atum com batatas. É uma arquitetura literária que se espraia entre o neorrealismo e o expressionismo, veja-se este parágrafo que se prende com a chegada a Tavira, é ali que decorrerá a especialidade: “A cidade cheirava a podre, o bafo das salinas abandonadas permanecia sobre as casas e, quando havia nevoeiro, baixava ao nível do cão, atravessava as portas e instalava-se connosco dentro das roupas. E foi assim mesmo, bafejante, que a cidade algarvia nos recebeu quando saltámos da berliet para o empedrado escorregadio em frente do quartel de portões cerrados àquela hora.”

Já é cabo miliciano: “Tínhamos as divisas novas dentro dos bolsos e esperávamos diante do edifício do comando um sargento que nos viesse dizer para enfiá-las, promovidos e dispostos a mandar nos soldados… Os soldados tinham grandes intervalos, encostavam-se às paredes banhadas de sol pálido, nós atravessávamos os terreiros em grupos e, se um ia sozinho ouvia rosnar as desagradáveis apreciações dos homens mais velhos do que nós, que conheciam a tropa pelas costuras, que se tinham safado à guerra e aguardavam só o dia de abalarem para as suas terras onde iam contar aos garotos como tinha sido divertido, o que tinham aprendido em vilas e cidades distantes, como as sopeiras lhes não escapavam, como gozavam com os capitães, com os sargentos, connosco”. Deste modo começa a aprendizagem de autoridade e a saber reproduzi-la: as ordens; as ameaças vociferadas; a separação entre oficiais, sargentos e praças; os brados marciais: as vozes na formatura, os palavrões ditos em voz baixa para desorientar o instrutor: as novas amizades e as confidências; as rondas, com alguns conflitos de permeio com as sentinelas.

Já fez recruta, já fez a especialidade, vai agora tirar o curso de minas e armadilhas, tudo vai ser descrito com vivacidade e química: “Deram-nos a mesma caserna, os mesmos instrutores, a mesma loucura de aprender perigos novos concentrados em trotil, gelamonite, matérias encerradas em metal aos quais bastava um ligeiro frémito para detonar soprando tudo à volta”. Um aspirante dá as aulas, está prenhe de ensinamentos, apela constantemente à prudência, fala em detonadores, alicates, rebentamentos, armadilhar e desarmadilhar, a segurança é a madre de todos os comportamentos, na mesa da aula estão minas anticarro, minas antipessoal, espoletas, cordão lento e cordão rápido, cordão detonante, tudo o que pode fazer estoiros, pavor e caos. Os instruendos vivem sob a emulação, numa roda-viva um curso inteiro prepara-se para grandes explosões, fazendo os primeiros rebentamentos, estendendo fio elétrico, colocando os detonadores com a língua apertada entre os dentes. Mas havia outros exercícios dignos de um sapador: enterrar minas simuladas no terreno, por exemplo. Toda esta narrativa aparece entremeada de diferentes discursos solitários de gente que procura o desenrascanço, gente que procura que os deixem em paz e que voltem ao ponto de origem. Oficiais e sargentos têm cognomes: o comandante é conhecido por Benzovak, o comandante do curso é o capitão Aguardente. É ele quem apresenta a viúva negra, uma pequena mina eriçada de metal, preparadas para explodir à altura de um homem e devastar uma secção inteira. Não sei a que escaninho da memória Filipe Leandro Martins foi vasculhar e registar a precisão das alocuções, a vivacidade das cenas de instrução, as conversas da cantina, os roubos de fruta pelas quintas e vales durante as aulas de tática, onde se simulavam os reconhecimentos, à procura de acampamentos inimigos.

Nos intervalos, nos fins-de-semana, um grupo prepara a deserção, alguém não nomeado já forjou passaportes, rotas para passar a salto e depois chegar a Madrid, daqui viajar para Paris.

“O Pé na Paisagem” é um olhar inteiro dos seis meses que levam a formar um oficial miliciano ou um furriel. Está primorosamente escrito, possui todos os aliciantes para prosseguir ao lado ou contra o narrador. Nada encontrei na literatura congénere de tão minucioso, documentado, o quotidiano das casernas, dos refeitórios, da descoberta de uma autoridade indecifrável, quase ao nível da vontade de Deus: o medo da porrada, o alívio das saídas ao fim da tarde, as tensões inesperadas de crianças crescidas que estão inexplicavelmente a virar uma página das suas vidas. E a recusa consistente em não partir para a guerra. O que, em literatura, só é interessante quando o escritor se desassombra e nos conta metodicamente o que vai fazer e porquê, tudo em escrita de altíssima qualidade. Quando um dia os investigadores pegarem de cabo a rabo nestes itinerários de um país que esteve tantos anos em guerra “O Pé na Paisagem”, estou absolutamente convicto, será uma referência a ter obrigatoriamente em consideração.

Mário Beja Santos

Mário Beja Santos
Mário Beja Santos
Toda a sua vida profissional, entre 1974 e 2012, esteve orientada para a política dos consumidores. Além da atividade funcional, foi representante associativo, tendo exercido funções no Comité Consultivo dos Consumidores, na Comissão Europeia, e na direção da Associação Europeia de Consumidores. Foi autor de programas televisivos e radiofónicos, bem como de dezenas de trabalhos no campo específico do consumo. Ao nível da sua participação cívica e associativa, mantém-se ligado à problemática dos direitos dos doentes e da literacia em saúde, domínio onde já escreveu algumas obras orientadas para o diálogo dos utentes de saúde com os respetivos profissionais, a saber Quem mexeu no meu comprimido?, 2009, e Tens bom remédio, 2013. Doente mas Previdente, dá continuidade a esta esfera de preocupações sobre a informação em saúde, capacitação do doente, o diálogo entre os profissionais de saúde, os utentes e os doentes. Colabora frequentemente com a imprensa regional e blogues, e exerce benevolato com associações de consumidores, como seu representante. Desde 2006 que se dedica igualmente a estudos sobre a colónia da Guiné portuguesa e a vida política na Guiné-Bissau, temas sobre os quais publicou uma dezena de livros.
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