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Leituras inextinguíveis (108): Na solidão e na melancolia femininas ninguém supera a contista de As Palavras Poupadas

O livro de contos As Palavras Poupadas, de Maria Judite de Carvalho, Editora Arcádia, 1963, Prémio Camilo Castelo Branco é a prova provada de como esta escritora de alta perícia no conto de qualquer dimensão era possuidora de um talento raro para escrever como a mão lhe seguisse a observação do olhar. Há muita tristeza, muita resignação, muitos silêncios cáusticos nestas atmosferas onde tantas vezes há um sentido larvar de que não há qualquer espaço para a esperança, nenhuma abertura para a felicidade.

Maria Judite de Carvalho (1921-1998)
Maria Judite de Carvalho (1921-1998)

O conto dominante desta coletânea tem exatamente o título “As Palavras Poupadas”, vamos acompanhar a vida de Graça, a empregada doméstica é a amargura em pessoa, chama-se Piedade, rezingona, documentários dececionantes, ingressamos no passado, aquela casa já teve vida, o pai, Leda, a madrasta (a mãe de Graça morreu cedo), visitas nem sempre confortáveis, como Clotilde, Vasco, o primo da mãe, objeto de uma observação apolínea: “Vasco era belo, belo, belo. Tinha pupilas claras de um lindo azul de porcelana, um nariz direito, uma boca de cantos levantados sempre a sorrir até quando não sorria. Ficava diminuída, humilhada, agradavelmente relegada para um lugar muito inferior, de intacta e pura admiração.” A escritora anda placidamente do presente ao passado, comenta a importância de um espelho, há o marido de Graça, Claude, também já falecido, só no final do conto nos será reservado o esclarecimento de uma terrível zanga entre o pai e Graça, esta partiu para viver com Claude, regressará àquela casa onde já não vivem o pai nem a madrasta, é dona e senhora daquele espaço, onde Piedade é o apanágio da desgraça. Terá havido uma paixoneta entre Leda e Vasco, mudou a vida de todos.

Como na tragédia grega, Clotilde ali se apresenta em casa enquanto Graça está à espera de outra senhora, saberemos mais tarde que se trata de Leda. Clotilde mudou muito nestes últimos anos, ela aliás é tratada por Clotilde-minha-querida; engordou, tem um ar abandonado, não se pinta. Talvez viesse apresentar condolências, Claude morreu há seis meses. E temos aqui um exercício entre a mão e o olhar, conversam, mas Clotilde é assumida por Graça como uma mulher azeda, sempre se alegrou com o mal dos outros, há mexeriquice que vem do passado, uma outra amiga de Leda e Clotilde, Emília, tinha tido uma experiência extramatrimonial, um “caso”. É através de Emília que Clotilde tem notícias de Leda, divorciara-se depois de Graça ter visto algo de comprometedor entre ela e Vasco, o pai jamais lhe perdoara tal revelação. Clotilde parte, Graça pergunta-se onde estará Vasco, rememora os acontecimentos daquela vida social, está intranquila, Leda deve estar a chegar, telefonara-lhe na véspera a pedir aquele encontro. Sentada na sala, lembra-se do sofrimento de Claude, o doente do quarto 90, a zanga do pai quando houve a dolorosa revelação, está inquieta sobre os motivos da visita de Leda. E chegamos à vida interior de Graça, ela procura uma explicação para aquela visita:

“Para que virá Leda? Que virá dizer-lhe, perguntar-lhe? Que quererá ouvir? Chegará carregada de explicações, dir-lhe-á que nunca houve entre ela e Vasco mais do que aquilo que Graça viu um dia? Virá explicar-lhe a sua vida de mulher quase abandonada, a fugaz ilusão de amor que Vasco lhe dera? Trará censuras, acusá-la-á de ter desfeito um lar, de ter morto o pai com aquele desgosto, de a ter morto a ela? Ou virá vê-la, muito simplesmente, sem saber ela que foi a culpada, a verdadeira criminosa? Mas não vai acontecer coisa nenhuma, tudo ficará irremediavelmente igual e sem conserto. Porque o que tinha de se estragar já se estragou. Morreu uma noite para não voltar.”

E agora o leitor compreende porque é que há palavras poupadas, decide sair, dá uma justificação às três pancadas para se ausentar, já está na rua e esta continua deserta. A chuva voltou a cair, Graça apanha um táxi, não dá um destino certo, diz ao motorista para ir descendo a avenida. É um doce momento de repouso.”

Este é o conto dominante, mas há também uma história de amor, lá no prédio toda a gente tomava como uma relação idílica, ela, a narradora, mudou de residência e um dia proporcionou-se passar por ali, há um magote de gente à porta da sua casa, houvera um crime, a mulher do tal casal idílico matara-o, ele ia deixá-la. “Ela estava velha, não é? Cinquenta anos mas parecia mais, não se sabia arranjar, coitada. Coitada não, coitado de quem morre. Mas enfim, não se sabia arranjar. Os homens levam mais tempo a envelhecer, não é?” Matou o marido com uma faca de cozinha. Há solidão de gente velha, por vezes interrompida por uma visita, desta vez alguém que precisa de desabafar. A senhora velhinha tem 85 anos. “As senhoras amigas que me veem ver, para me entreter, dizem elas, para me fazer companhia, só conseguem fatigar-me. Aos 85 anos… Se pudesse dizia-lhe tudo o que a senhora quer, acredite. Simplesmente não posso. Por mais que queira tirar as recordações de dentro do poço, elas não vêm à superfície, estão afogadas, bem no fundo.” Mas a visita fala da perda de uma filha, a velhinha recomenda-lhe coragem, aquela visita tem uma razão de ser, consta ali na rua que foi a velhinha a última pessoa a ver a menina a saltar da janela, mas ela diz não se lembrar de nada e jamais o leitor terá condições para apurar o que aquela velhinha viu ou não viu, tem tudo uma aura de mistério. Há depois um encontro entre dois amantes, muitos anos depois, ela passou perto dele e reconheceu-o, ele não. Lá em casa mal jantou, está macambuzia, foi-se deitar. “Antes de adormecer chorou um pouco. Mas na manhã seguinte estava bem-disposta e recordou quase sem emoção aquele encontro da véspera. Depois teve um dia muito cheio de ocupações e não pensou mais nisso.”

Estamos no âmago do universo ficcional de uma das maiores contistas portuguesas, é um mundo sobre o qual nos limitamos somente a pensar que existiu, as mulheres pareciam velhas aos 50 anos, e e verdade que ainda há hoje casais de velhos em que ela está dramaticamente dependente dele e ele a morrer, ele procurou um suicido para os dois, ele chegará morto ao hospital, o coração não resistiu, a entrevada salvou-se. E há aquela noiva que não era bem noiva, um namoro que se arrastava, em que ele era mais ausente que presente, morreu afogado. Todos lhe vêm apresentar pêsames, mas algo de muito peculiar se está a passar no seu ânimo. “Toda a angústia desaparecera. Já não receava nada, já não ia acordar todas as manhãs a pensar que talvez tudo fosse terminar antes da noite. Nunca mais. Estava calma. Apetecia-lhe sorrir mesmo sem estar alegre, sorrir precisamente porque estava triste. Era de súbito outra pessoa. A noiva inconsolável do homem que morrera.” Há situações paradoxais, um senhor que se considera muito importante e que verifica que os seus colaboradores no dia do seu aniversário já esqueceram a data; há profundas tristezas numa câmara ardente, e há um casal que parte em lua de mel, ele está profundamente doente, viajam no avião, há poços de ar uns atrás do outros, um risco de luz fulgurante rasga os céus, ele bem quer chamar a mulher mas sente no peito uma dor aguda, o avião sobe e algo que se passou com ele, parece que se sente lá fora, descendo sempre, sentiu frio e lembrou-se vagamente das pessoas a quem cortara uma perna e também de que deixara esquecida num banco qualquer, ao lado de alguém, uma coisa que estava habituado a usar. Mas era com certeza sem importância.

Aqui ficam os dados da mestria de uma contista que bem merecia, pelo seu fulgor literário, ser novamente editada, é tão empolgante o domínio da sua escrita que supera as rugas do tempo.

Mário Beja Santos

 

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