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Leituras inextinguíveis (109): O crime da praia do Guincho, opositores de opereta, nas entranhas das polícias de Salazar: Quando a literatura de José Cardoso Pires se tornou inultrapassável

Foi no blogue “Fragmentos e Olhais” que encontrei, com data de 2012, o importante depoimento de Correia das Neves que tinha 30 anos quando ocorreu o chamado crime da praia do Guincho, em 1960, Correia das Neves tinha sido recentemente nomeado inspetor da Polícia Judiciária de Lisboa. O crime, profusamente noticiado nos meios de comunicação social, prendeu a atenção do país. Numa manhã chuvosa (31 de março) foi encontrado um homem morto no areal da chamada praia do Padrão, no Guincho. Parte do cadáver já tinha sido desenterrado pelos cães. Ao magistrado nem lhe passa pela cabeça o mês de difíceis provas que tem pela frente. Identificado o morto, tratava-se do capitão Almeida Santos, um oficial que andava a monte pelo seu envolvimento na chamada revolta da Sé, ocorrida em 1959. A partir da identificação, teceram-se as mais díspares especulações: teria sido a PIDE? Um ajuste de contas?

Almeida Santos fugira do forte de Elvas com o aspirante Jacques e o cabo Gil, veio-se a descobrir o envolvimento de Maria José, a bela e manipuladora companheira do capitão. Mais de 50 anos depois, Correia das Neves resolveu dar forma aos acontecimentos e acabou por esclarecer a trama que inspirou uma obra-prima de José Cardoso Pires, a Balada da Praia dos Cães, que conheceu a partir de 1982 um inusitado êxito literário. Diz o magistrado que “Embora o livro seja apresentado como ficção, eu posso dizer que é uma ficção misturada com a realidade e há mesmo no livro pormenores, tão coincidentes com o real que só podiam ser conhecidos por quem, ou examinou o processo, ou recebeu informação de alguém metido no processo.” Depois do 25 de Abril, o então aspirante Fonte Nova e o então cabo Gil já tinham cumprido a pena. Um dos aspetos mais empolgantes do livro de Cardoso Pires é a abertura do romance que se prende com a descoberta por uns pescadores de Peniche que costumavam vir para a zona do Guincho ao berbigão e que viram um cão a fossar na areia.

Tudo pareceu muito estranho ao magistrado: o morto mal enterrado, longe do mal, não podia ser pessoa afogada, logo se admitiu crime. Feita a recolha das impressões digitais, identificou-se o capitão de cavalaria Almeida Santos, envolvido na revolta da Sé. “A investigação teve dois momentos decisivos: a identificação do cadáver e o ter-se conseguido que o tenente Maldonado Sequeira, irmão da companheira do morto, me tivesse levado ao local onde eles tinham estado na clandestinidade, depois da fuga de Elvas.” As diligências efetuaram-se na vivenda Pino Verde, Rio de Mouro, em Sintra. O que o magistrado veio a apurar é que os fugitivos de tinham desentendido e o aspirante e o cabo mataram o capitão. Para quem queira conhecer a obra de Correia das Neves, intitula-se “A Terra e o Mar (Crónicas diversas)”, uma edição do Instituto Politécnico de Beja, 2005.

Romance empolgante e apaixonante, da primeira à última página: a ficha que identifica o cadáver, feita por um perito forense, a descoberta do achado macabro, o início da investigação, apresenta-se o chefe de brigada, Elias Santana, figura central do romance: “Individuo de fraca compleição física, palidez acentuada, 1 metro e 73 de altura; olhos salientes (exoftálmicos) denotando um avançado estado de miopia, cor de pele e outros sinais reveladores de perturbações digestivas, provavelmente gastrite crónica. No aspeto exterior nada de particular a registar como circulante do mundo em geral a não ser talvez a unha do dedo mínimo que é crescida e envernizada, unha de guitarrista ou de mágico vidente. Veste habitualmente casaco de xadrez, calça lisa e gravata de luto com alfinete de pérola adormecida; caranguejo de ponteiros fluorescentes, marca Longines, que usa no bolso superior do casaco com amarra de ouro presa à lapela…” Cardoso Pires fará dele uma figura inodora, insípida e incolor, um elemento da Judiciária ensimesmado, solitário, indisponível para afetos. Depois a casa, no romance situada no Vale do Lourel, Sintra, a Casa da Vereda, segue-se a descrição ao detalhe minucioso, o mistério e a fantasia adensam-se, contam-se histórias de aparecer na água-furtada uma mulher nua, no interior descobre-se roupas de um padre. Chegou o momento de conhecermos o superior de Elias Santana, o inspetor Otero, os diálogos deste com Elias são autênticos combates de corpo a corpo, com fintas de ironia, ninguém ganha nem ninguém perde.

A investigação prossegue, atina-se o percurso da fuga de Elvas até à Casa da Vereda. E nisto, a 10 de abril, o inspetor Otero e o agente Roque detêm Filomena Ataíde, a mulher do grupo fugitivo. Elias vai começar os interrogatórios, recapitulam os itinerários da fuga, nos intervalos Elias vistoria a documentação encontrada na Casa da Vereda, o poder imaginativo do escritor Cardoso Pires vai subindo de tom, Almeida Santos é no romance o major Dantas Castro, o cabo Gil passou a ser o cabo Barroca, qualquer destas personagens tem direito a retrato próprio, logo Barroca: “Tinha o mesmo rosto triste e teimoso que o chefe de brigada conhecia da fotografia posta a circular pela Judiciária e estava de capote pelas costas. Capote de tropa, botas de soldado e calças de bombazina – se isto faz sentido.” Tagarela-se, conspira-se, há um perfeito delírio deste grupelho se levar muito a sério, estão a aguardar decisões para a ação, porventura para um ato revolucionário, aguarda-se instruções de Gama e Sá, conhecido por o Comodoro. Voltamos aos interrogatórios, Mena colabora, a Judiciária sabe que a PIDE só irá intervir quando se souber de ciência certa que há para ali um crime político.

É um romance de retratos psicológicos, o major Dantas Castro é assumidamente um alucinado politico, nutre uma obsessão por Mena, Elias vai recolhendo dados desde a porteira da casa de onde vivia Dantas com Mena, chegam cartas anónimas à Judiciária, vamos conhecer de corpo inteiro o advogado Gama e Sá, virá a ser detido, tem álibi para tudo; uma organização dita revolucionária, a Frente Armada Independente, publicou um panfleto que a PIDE apanhou exigindo vingança para quem mata antissalazaristas como Dantas Castro; chega uma outra carta anónima à Judiciária: “O assassino do major está na rua António Maria Cardoso. É da PIDE.”

Mas o romance de José Cardoso Pires também quer desvelar a vida salobra das polícias de Salazar, vamos ver Elias num banquinho de armar, à soleira do jazigo da família, já limpou o pó das urnas, já as tornou a cobrir com as alvas toalhas rendadas, lá vai meditando à porta do jazigo, onde se amontoam crisântemos apodrecidos, passa uma cadela aluada seguida por matilha, e temos uma descrição do interior doméstico de Elias Santana, das mais espantosas da literatura portuguesa contemporânea. E em catadupa vamos ouvir falas de parentes dos intervenientes, uma brigada policial passa a pente fino a Casa da Vereda e estamos de novo em interrogatório, Mena e Elias frente a frente. Outro diálogo gigante, há perguntas diretas, há solilóquios, reconstroem-se acontecimentos sobre a vida na Casa da Vereda.

Haverá um momento em que a polícia deita a luva ao aspirante e ao cabo, irá ser reconstituído o ambiente daquela casa e a atmosfera que leva ao crime. As diligências acabaram, agora o doutor juiz que decida. Elias regressa a casa, vamos ter a atmosfera dessa Lisboa do início da década de 1960, veio do cinema Capitólio, subiu a calçada do Torel, fez uma pausa de galão e torrada na leitaria do Campo Santana; emergem por milagre damas de má vida, ele cumprimenta-as de longe, contempla a estátua do cirurgião Sousa Martins, o tal que depois de morto continua a semear curas entre os vivos; senta-se ao lado no banco um soldado paraquedista, veio para o engate, Elias encaminha-se para casa. “É então que vê passar as três jaulas rolantes vindas não se sabe de onde. De longe. Certamente da autoestrada do Norte, Avenida do Aeroporto abaixo, atravessando a cidade. São três transportes de circo, gradeados, mas sem esferas, que avançam de madrugada. Dentro deles viajam os tratadores com um ar estúpido, ensonado. Desfilam pelas ruas desertas, sentados no chão, pernas para fora, caras entre grades. Elias deixa de cantar. Durante o resto do caminho pensa nos tratadores enjaulados a atravessarem a noite sobre rodas: o que mais o impressiona é que pareciam vaguear sem destino.” Que misteriosa metáfora que este irresistível romance de inegável peso político, com oposicionistas de opereta e amores obsessivos desfecha no seu final.

Obra-prima absoluta.

Mário Beja Santos

 

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