Quarta-feira, Junho 12, 2024
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“Ah e tal porque é jovem”

O episódio de anteontem do “É ou não é” contou com um debate em que o painel se debruçava sobre se os jovens se interessavam pela política.
À excepção de uma convidada de 23 anos, já ela licenciada, todos os outros tinham para lá de 30 anos. É certo que um debate deste teor não precisa de ter jovens. Basta apenas ter convidados “mais jovens”, como foram apelidados.
De certo modo, fico aliviado, pois os “jovens” como eu afinal são mesmo jovens, sem aspas, até porque aspas deve ser coisa de velho. Por outro lado, como vem a ser vaticinado que sou mesmo jovem, as opiniões sensatas continuam a ser de pessoas com mais idade que eu, que já não são jovens nem “jovens”.
Pelo andar da carruagem, quando eu for mais velho do que sou, serei jovem, pelo que nunca vou ser verdadeiramente tido em conta. Talvez seja melhor assim.

Há um filme, chamado “Favores em Cadeia” (“Pay It Forward“, em inglês), que assenta numa premissa bastante simples, mas apenas ao alcance de pessoas tão novas, que ainda são mais novas do que os “jovens” e até do que os jovens.
Para um projecto da disciplina de Estudos Sociais, é pedido aos alunos que arranjem uma maneira de tornar o mundo melhor. Um dos alunos arranja um sistema em que, se cada pessoa, ao receber um favor, fizer um favor a três outras pessoas, o mundo ficará melhor. Uma espécie de Dona Branca ou sistema bancário com as devidas inversões e ajustes, mas desta vez, sem lixar ninguém.
É, evidentemente, uma ideia mirabolante, mas estamos a falar de putos da escola primária, sendo que alguns teriam, ou teriam tido, amigos imaginários. (Terá passado a ironia?)
Numa aula, para quebrar o gelo e tentar puxar o debate e o pensamento social dos alunos, o professor coloca esta questão: “O que é que o mundo espera de vocês?“. A resposta do protagonista (Harvey Joel Osment) é apenas esta: “Nada!”

Devíamos inverter (e, por momentos, assim foi) a pergunta chave do debate ocorrido no programa da RTP para “Será que a política se interessa pelos jovens?“.
Mas mais do que a relação entre os jovens e a política, interessa-me a relação entre os jovens e a sociedade. É a falta de interesse na sociedade que nos deve preocupar, e não a falta de interesse na política.
O interesse na sociedade é o interesse na política. Pode é ser igualmente acompanhado de uma desilusão com o estado actual da política partidária, constatação necessária para podermos vir a melhorar.
As crianças e os jovens podem levar os adultos à exasperação, dada a sua falta de atenção para com aquilo que nós achamos que deve ser merecedor do seu foco.
No entanto, se há coisa à qual não escapam, e até o fazem de modo exemplar, é a aprendizagem social.
E aprendizagem social não é apenas aprender matemática com o auxílio dos colegas, ou porque se tem mais empatia com o professor.
Aprendizagem social também é aprender a gozar com os outros porque observam o ambiente em redor e verificam um comportamento, quer dos seus pares, quer de quem deve orientar e repreender esse comportamento (ou elogiar outros).
Aprendizagem social também é perceber que os pais estão com complicações financeiras porque a empresa onde trabalham precisa (ou quer) despedir uns quantos “colaboradores”, que sem aspas se traduz por trabalhadores, e portanto a dinâmica familiar vai ser afectada, muitas vezes para pior. E uma das possíveis consequências é a conversão desses dilemas para a sua relação com os seus colegas, professores, etc.
Aprendizagem social é aprender que, apesar das mais boas intenções dos políticos que se interessam pelos jovens, a vida tem de ficar mais difícil por razões que eles não compreendem (nem aceitariam se compreendessem).
Aprendizagem social é constatar que neste mundo (infelizmente, digo eu) há quem ganhe e quem perca, e que se pode optar entre lutar contra isso, ou lutar para beneficiar disso.

Up to date leisure. Positive and merry group of young people using their cell phones while sitting on a window sill and typing text messages
Imagem Depositphotos

A minha profissão dá-me o privilégio (ou “privilégio”, já nem sei) de poder observar, ao longo dos anos, o comportamento das crianças, que virão a ser jovens, e dos jovens, que virão a ser adultos.
São raros, muitos raros, os casos de professores que estão contentes com o sistema de educação ou com os alunos.
Acredito que o desleixe que grassa nas escolas de norte a sul do país tem consequências nocivas para o desenvolvimento da nossa sociedade.
O capital humano é definido como o conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes de uma pessoa que favorecem a criação de valor económico. Por outras palavras, o que é propício ao aparecimento de guita, pilim ou grana.
O capital social diz respeito ao investimento inicial feito pelos sócios ou acionistas de uma empresa para iniciar a sua actividade. Trocado por miúdos ou jovens (acho que os “jovens” já sabem), é o investimento de guita, para a potencial criação de mais guita.
Ora, felizmente, a sacrossanta roda da economia não parará de girar, pois dinheiro sempre haverá, pode é não ser nos nossos bolsos. E capital humano pode ser substituído, até em última análise, ironicamente, pela IA. Teremos robots riquíssimos em capital humano. Coisa linda.
Mas, quando as expressões capital humano e capital social aludem mais a questões económicas, no sentido material do termo, do que a questões humanas e sociais, não consigo ter uma visão risonha do futuro.

É por isso, se colectivamente o escolhermos, que devemos traçar algumas linhas no sistema escolar.
Com aspectos positivos e negativos, a escola é um dos grandes locais onde as crianças e os jovens desenvolvem a sua visão do e no mundo.
É ali que vivem e constroem o seu espaço social, com as suas relações das mais variadas formas. É ali que são confrontados com tutores, seja na figura dos professores, dos funcionários, dos auxiliares, e também deles próprios, uns para os outros.
A escola, queiramos ou não, queiram eles ou não, é parte estruturante da sua concepção de sociedade, porque a escola é para eles parte estruturante da sua vivência social. Mesmo que a odeiem.
Não é por se ser criança que fazer barulho numa sala de aula pode configurar um problema para a actividade que ali se passa. Pode ser igualmente um problema se for um adulto.
Mas se não houver consequências para algo que não devia estar a acontecer, então o que as crianças retêm é que não há consequências. É uma aprendizagem extremamente eficaz, e ai de quem diga que as crianças não aprendem.
Podemos permitir telemóveis a funcionar durante a aula, podemos permitir desleixe total, podemos permitir que avaliações negativas terminem com passagens administrativas, podemos permitir que as suas aspirações e ocupações girem praticamente apenas à volta do tiktok, do twitch, das streams, dos influencers, dos youtubers, cujos conteúdos se confundem por vezes entre o nada e o coisa nenhuma.
Não podemos é achar que, volvidos dezoito anos do nascimento de um ser humano, o seu cérebro compreenderá que tudo o que até ali se passou foi um faz de conta colectivo que é para esquecer, e agora é tudo diferente, porque, enfim, os putos são putos, e é melhor deixá-los andar que eles se vão tornar adultos. Vão, obviamente que vão. Resta saber que tipo de adultos.

Não quero com isto dizer que não devemos ter em conta quem são. Devemos. Devemos exigir respeito da sua parte, porque também lhes devemos respeito. Devemos respeitar crianças porque são pessoas, e crianças devem respeitar adultos porque são pessoas.
E é disto que se trata, de respeito. Não, o respeitinho aos mais velhos não é bonito, porque o respeito é devido a todos, ponto. Aos novos, aos jovens, aos “jovens”, aos adultos, etc.
Os jovens podem ser impetuosos, cometer disparates, forçar a nossa mão e querer tirar-nos do nosso lugar. Talvez precisemos disso, e talvez a prova de que precisemos disso é o facto de não querermos que nos tirem do nosso lugar.
Tal como nós, quando éramos jovens, e alguém nos queria tirar do nosso lugar e nós não queríamos.
Podem até ser imponderados e tomar caminhos que nós não consideramos os melhores, mesmo por causas justas. Podem querer lutar pelo meio ambiente, e podem querer taxar a 99% de IRS o rendimento bruto anual superior a 150.000 euros.
Podem ser insensatos. Podem baralhar isto tudo.
Para dar cartas, convém baralhar primeiro.

Você não sente, não vê mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
O que há algum tempo era novo, jovem
Hoje é antigo
E precisamos todos rejuvenescer

Belchior, “Velha Roupa Colorida

João Barreiro

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