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A boa e a má polémica… e os 500 anos do nascimento de Camões – por José Luz

A vida de Luís de Camões continua envolta em grandes incertezas e alguns mistérios realidade a que não escapa a questão da data precisa do nascimento do vate. A presente crónica traz a público o essencial da investigação promovida pela Associação camoniana de Constância, publicada em 1977. Em suma, coloca-se em causa o suposto assento do Cartório da Índia que deu origem à conjectura de que que o poeta nasceu  em 1524. A data de 1517 é muito mais concordante com a «prova textual irrefutável» produzida pela saudosa conservadora do Arquivo Nacional  da Torre do Tombo, Maria Clara Pereira da Costa.

Em 20 de Dezembro passado noticiava o jornal «Público» que o Programa das comemorações dos 500 anos de Camões em 2024 estava por fazer. Mais precisamente: «Os 500 anos do nascimento de Luís de Camões assinalam-se no próximo ano, mas o programa das comemorações, que deveria ter sido proposto ao Governo até final de 2022, não existe, porque depende de estruturas que nunca foram criadas».

Casa de Camões em Constância, foto de Ricardo Escada.
Casa de Camões em Constância, foto de Ricardo Escada.

Nesse mesmo dia e após pressão da comunicação social e da opinião publicada, o Governo criava apressadamente o comissariado para as comemorações. O despacho tardio era finalmente assinado pelo Ministro da Cultura, a reboque do país cultural…

Não é intenção da presente crónica dissertar sobre a questão da (in) competência política  que ensombra a organização desta dita efeméride (atrasos organizacionais e dúvidas sobre a orçamentação do futuro programa foram notícia e opinião veiculadas nos órgãos de comunicação social).

A vida de Luís de Camões continua envolta em grandes incertezas e mistérios, realidade a que não escapa a questão da data precisa do seu nascimento. A questão não é irrelevante nem despicienda. Saber se Camões nasceu em 1524 ou em 1525 ou mesmo em 1517, pode ser decisivo para a credibilidade e verosimilhança de algumas investigações académicas. Na verdade, a diferença de 8 a 9 anos que medeia entre as datas reconhecidas pela crítica, pode pôr em causa a credibilidade da tradição literária relativa a alguma da lírica supostamente escrita em Punhete (actualmente, Constância).  É meu intento,  nem mais,  a defesa da credibilidade da investigação de décadas promovida sob a égide da associação durante o consulado  da escritora e fundadora, a jornalista e grande amiga pessoal de boa memória,  Manuela de Azevedo. Já lá vamos…

Capa do livro: ««Casa de Camões em Constância», Maria Clara Pereira da Costa, com Estudo do Arquitecto Jorge Segurado e Nota Explicativa de Manuela de Azevedo, 1977, Obra custeada pelo Fundo de Fomento Cultural da Secretaria de Estado  da Cultura.
Capa do livro: ««Casa de Camões em Constância», Maria Clara Pereira da Costa, com Estudo do Arquitecto Jorge Segurado e Nota Explicativa de Manuela de Azevedo, 1977, Obra custeada pelo Fundo de Fomento Cultural da Secretaria de Estado  da Cultura.

Faria e Sousa, na primeira vida que escreveu do poeta, e que precede o comentário a «Os Lusíadas», seguira então o licenciado Manuel Correia, colocando assim o nascimento do vate no ano de 1517.  Diz Juromenha que, mais tarde,  Faria e Sousa, em 1643,  percorrendo o cartório da Índia, «teve a fortuna da encontrar no registo das pessoas que de Lisboa passaram a servir na Índia desde o ano de 1550 até o tempo em que escrevia, e em o título de homens de armas o assento seguinte:«Luís de Camões, filho de Simão Vaz e Anna de Sá, moradores em Lisboa a Mouraria escudeiro de 25 anos barbirruivo trouxe por fiador a seu pai vai na nau dos Burgalezes». Comentando este assento o Visconde exaltava: «Este documento infalível, esta declaração da idade na presença do seu próprio pai, e em uma estação pública, equivale bem a uma certidão de baptismo, em tempo em que não havia registos eclesiásticos, e é prova irrecusável para fixarmos no citado ano de 1524 o nascimento de Camões».

Será que Faria e Sousa viu mesmo o dito assento sobre Camões?  Maria Clara Costa, antiga Conservadora da Torre do Tombo é peremptória em afirmar que  este «não o viu». Comentando um passo da obra de Carolina  Michaelis sobre a jornada de Tunes em que participou o Infante  D. Luís  sobre um  pajem de 10 a 11 anos chamado Luís de Camões o qual Mário de Sá  identifica com um primo do épico descendente  de D. Gonçalo de Avis, a investigadora da Associação de Constância admite «ser possível que a leitura do assento na Casa da  Índia, revelado por Faria e Sousa, tenha sido incorrecta, até porque este não o viu».  Expoente máximo da ironia: uma leitura incorrecta de algo que não se viu. Bravo!

E acrescenta que Faria e Sousa saíra de Portugal em 1632 «para não voltar». A primeira biografia do poeta,  de autoria de Faria e Sousa, é de 1639 e, conclui Maria Clara, «por essa altura Faria e Sousa não tinha conhecimento do referido assento».

Ilidindo assim a dita  «prova irrefutável» do chamado «assento da Cartório da Índia» a então conservadora da Torre do Tombo  julga por prudente regressar-se à simplicidade da informação de Severim de Faria o qual, diz, «tratara com Manuel Correia, o licenciado amigo e comentador de Camões, e que  afirma que o poeta nasceu por volta de 1517».

É, pois, admissível, a hipótese de que a data oficial (?) de 1524, estará viciada.

Continuando a citar a nossa fonte: «sobre o que era a idade para as pessoas da época já muitos se têm pronunciado e diz-nos Aquilino que por vezes se tinha a que era necessária. Camões, quando se alista como soldado para combater na Índia, estaria fora da idade habitual; Julgamos que além da sedução que Lisboa representava para o  poeta, este não reunia aquele mínimo de condições económicas que lhe permitisse a necessária fiança e talvez esse o motivo próximo de não ter conseguido embarcar à primeira tentativa».  Haveria, portanto, necessidade de se fazer passar por mais novo. «Indicar anos a mais ou a menos, numa época em que não havia registo para confirmação, não é testemunho que se possa considerar irrefutável». Não se ficando por aqui, Maria Clara recorre à investigação de Frazão de Vasconcelos sobre alguns companheiros do vate na viagem para a Índia, em 1553, para pôr em causa o dito assento do Cartório da Índia,  quanto a outro suposto facto: «Por outro lado, há também dúvida quanto à indicação da nau em que seguiu Camões».

A nossa investigadora julga existir «uma prova textual irrefutável»  que pode pôr em causa a data do dito assento da Casa da Índia, leia-se, suposto, claro.

Em causa e para o caso, está um soneto de Camões  dirigido a D. Teodósio, «grão sucessor e novo herdeiro do braganção estado». Segundo Maria Clara,  aquele duque herdou a casa de seu pai por morte deste, ocorrida a 20 de Setembro de 1532, concluindo ser evidente que o soneto  foi escrito algum tempo antes: «Camões, se tivesse nascido, em 1524, teria àquela data 8 anos e portanto ao escrever o soneto teria no máximo 7 anos ou 7 anos e pouco, o que nos parece manifestamente impossível que tivesse feito, por muito precoce que fosse. Ou o soneto não é de Camões, ou o poeta não nasceu em 1524 mas alguns anos antes».

Na sua investigação, Maria Clara conclui que o poeta, muito jovem, ter-se-ia deixado enfeitiçar  pela beleza de D. Isabel Freire, filha dos senhores de Punhete (actualmente Constância), que teria encontrado em Lisboa, em Coimbra e naquela Vila (Constância).

Ironicamente, é o próprio Faria e Sousa que admite ter Camões conhecido D. Isabel Freire, identificada por Maria Clara como «Belisa» anagrama perfeito de Isabel, filha dos senhores de Punhete.  Ora, dá-se o caso  desta Isabel Freire ter acompanhado a Infanta D. Isabel, filha de D. Manuel, como dama de honor,  nomeadamente, quando por casamento com Carlos V, aquela se deslocou para Espanha.

 Anos 90. Delegação da Casa-Memória de Camões a Pedrógão Grande. Na mesa, a escritora e fundadora da associação, Manuela de Azevedo, O Presidente da Câmara Municipal de Pedrogão Grande e o autor da presente crónica, José Luz.

Anos 90. Delegação da Casa-Memória de Camões a Pedrógão Grande. Na mesa, a escritora e fundadora da associação, Manuela de Azevedo, O presidente da Câmara Municipal de Pedrogão Grande e o autor da presente crónica, José Luz.Segundo a nossa investigadora, «dizem também os críticos de literatura que a beleza da irmã de D. João de Sande (D. Isabel Freire, de Punhete, citamos), era tal que inspirara Garcilaso de La Veja e Sá de Miranda e que estes a imortalizaram, o primeiro com o anagrana de «Elisa», o segundo de «Célia»».

Façamos a cronologia: Em 1526, D. Isabel Freire,  muito jovem e bela, teria ido para a corte de Castela. Jorge de Sena indica-nos, «com bons argumentos»,  que terá morrido entre o intervalo de 1533 a 1534. Ao que parece, terá morrido de parto.

Admitindo que Camões nascera em 1517 , diz Maria Clara, que vimos seguindo de muito perto,  que o poeta «poderia ter visto D. Isabel na Corte portuguesa, antes de esta partir com a Infanta». E admite ainda que, D. Isabel, ainda solteira, «viesse a Portugal preparar o seu futuro casamento e Camões de novo se encontrasse na corte com a filha dos senhores de Punhete, donde de novo se afastará».

Aduz a investigadora que o poeta estaria então na idade em que compôs a égloga «Feita do autor na sua puerícia» e em que se refere à sua amada.

Camões, na égloga II, escreve a determinado passo que «a barba então nas faces me apontava». Pode pois concluir-se, com Maria  Clara, que os amores ali recordados naquela égloga eram da adolescência.

É na dita égloga II que «Almeno» e «Agrário» dialogam . É recorrente entre os eruditos reconhecer-se em «Almeno» o nome pastoril do nosso poeta. Maria Clara defende que «Agrário» será um dos amigos de Camões, João Lopes Leitão ou o primo deste, D. Rodrigo de Sande.  Parece fora de dúvidas para a investigadora que «se a praia do Tejo  onde a amada se assentava era realmente em Punhete», o poeta se encontrava no Ribatejo, onde também assim, localiza os seus amores.

  1. Isabel Freire seria apenas 5 ou 6 anos mais velha do que Camões, deduz a nossa investigadora.

Camões é um poeta do real e não um teorizador hermético. Os versos a que nos reportamos podem ser interpretados como aludindo a factos? Fica o desafio.

Constância e a sua Associação,  não podem perder o foco sobre o essencial da tradição oral e literária e sobre a investigação camonianas. Que é feito do Centro Internacional de Estudos Camonianos?

José Luz

(ex-presidente do Conselho Fiscal e ex-associado da Associação da Casa-Memória de Camões em Constância)

PS – Para a elaboração da  presente crónica  o autor socorreu-se especialmente do livro: «Casa de Camões em Constância», Maria Clara Pereira da Costa, com Estudo do Arquitecto Jorge Segurado e Nota Explicativa de Manuela de Azevedo, 1977, Obra custeada pelo Fundo de Fomento Cultural da Secretaria de Estado  da Cultura.

 

 

 

 

 

 

 

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1 comentário

  1. É precioso este cruzamento de informação proveniente de tão diversas fontes. Obrigada por esse trabalho trabalho, só ele permite abandonar conclusões apressadas.

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