Quarta-feira, Fevereiro 21, 2024

Oferta

Receba o ebook Leituras Inextinguíveis Vol.II

InícioCultura & lazerRevisitar a Guerra pela escrita de João Duarte
banner-mes-da-enguia-salvaterra-de-magos

Revisitar a Guerra pela escrita de João Duarte

João Duarte oferece-nos uma obra literária sobre a parte que lhe coube na Guerra Colonial (1972/1974). “Diário de um Comando” , assim se chama o texto, explana o dia-a-dia de uma “Companhia”, em que alicerça nostalgia, lado a lado com sofrimento e, porque não, passagens hilariantes. Exaltação de memórias narradas na primeira pessoa, eis o contributo para uma literatura que peca por escassa. Daí o agradecimento endereçado ao autor, que puxa cá para fora doridas lembranças – e só quem as viveu sabe o quanto custa desenrolar esse fio condutor da vida e da morte, em tempos idos de juventude cerceada!
Livro bem estruturado e de leitura escorrida, complementa sem rebuço autores como Carlos Vale Ferraz, João de Melo, Lobo Antunes, José Niza, a que se juntam escritores anónimos, combatentes que vão desfiando o rosário dos operacionais milicianos de 1961 a 1974. E bom seria que mais exemplos consubstanciassem estórias para a História do país. É de acentuar que cerca de 1 milhão de jovens estiveram no teatro de Guerra, em três frentes: Angola, Guiné e Moçambique.
João Duarte, descreve com eficácia as graças e desgraças nos dois anos passados na lentidão das horas, dos dias, dos meses. No convívio do grupo, alternava-se o bom humor com o aperto, que as operações sempre motivavam na savana, na picada, ou na mata frondosa.
“A tragédia individual atenua-se no destino colectivo, tal como a idade nos anestesia do medo da morte. Enganamo-la, até que alguém que amamos desaparece, e percebemos que essa eternidade nos é interdita” (Eduardo Lourenço, 2015). João Duarte oferece-nos uma das dimensões do país que historicamente fomos, de uma nação que se havia espalhado pelo mundo. E em que Camões, nos Lusíadas, nos deu uma boa consciência, que nos permitia compreender o labirinto em que estávamos encerrados. Esse labirinto, que se desfez a partir de 1961, o começo da chamada “Luta de libertação”, em Angola, em que a maioria dos países largaram os seus territórios ultramarinos, à excepção de Portugal, que adiou a “Queda do Império”.
Então, África obrigou a renovado papel: para uns, o cumprimento de um dever e da missão pátria; para outros, o defender a vida; para outros, enfim, “passar a salto” para França. Fosse como fosse, para lá da frase de Pessoa: a nossa pátria é a língua portuguesa, saibamos entender o que pode sugerir este “Diário de um Comando”!
Finalmente, a apresentação da obra, no próximo sábado, 3 de fevereiro, pelas 16 horas, no Salão Nobre da Câmara de Santarém, tem a moderação do Sociólogo Nelson Ferrão.

Arnaldo Vasques

Antropólogo/Temas Contemporâneos

1 comentário

  1. Coragem de contar a passagem pela guerra colonial do João é digno de registo pelo exemplo que dá neste livro para que fique registado para memória futura. Não podemos permitir que este tempo caia no esquecimento e ao comemorar 50 anos do 25 de Abrilde 1974é a altura certa. Parabéns a todas a entidades e pessoas que permitem no dia 3 de fev.2024 recordar tal data. Parabéns ao Arnaldo Vasques por tão brilhante artigo. Obrigado João Duarte.

Deixe o seu comentário

por favor, escreva o seu comentário
Por favor, escreva aqui o seu nome

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Também pode ler

Subscreva a newsletter

Receba as notícias do dia do jornal Mais Ribatejo diretamente na sua caixa de email.

Artigos recentes

Comentários recentes

pub
banner-união-freguesias-cidade-santarem