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Tomaz Vieira da Cruz na Guerra Civil de Espanha

A participação do poeta de Constância, Tomaz Vieira da Cruz, na Guerra Civil de Espanha, longe de constituir uma hipótese, aparece tratada num estudo de Antonio Rivero Machina, poeta e investigador, em particular, da literatura espanhola e portuguesa do século XX. Neste estudo o autor associa o poeta à propaganda salazarista. Na presente crónica pretende-se alertar os mais incautos para a visão selectiva e habilmente manipuladora do referido estudo. Tomaz, o poeta que se terá refugiado na estação de Santarém por ocasião duma perseguição de republicanos fanáticos.

Tomaz Vieira da Cruz, poeta constanciense, tem sido vítima de alguns dos muitos paradoxos que não raro, parecem atingir os poetas maiores. Logo no início da sua vida literária, conquistou a aura de «o poeta ” segundo testemunhava em retrospectiva, em 1964, a revista «Panorama».

A 22 de Abril de 1900 nascia na Vila de Constância, numa pacata travessa, paralela à Rua dos Ferreiros, aquele que viria a ser um dos poetas maiores angolanos, da chamada, lusofonia, Tomaz Vieira da Cruz, sobre o qual tenho vindo a escrever na imprensa desde 1991.

No estudo de Rivero acima citado, Tomaz, aparece, a meu ver, demasiadamente associado à literatura dita propagandística salazarista no contexto da Guerra Civil de Espanha (1936-1939). Já lá vamos…

Para compreender a questão identitária e ideológica e bem assim o processo literário deste «príncipe dos poetas angolanos», mister é recorrer aos seus biógrafos e às suas recensões.

Tomaz partiu para Angola em 1924, tendo-se sido Director do periódico literário «Mocidade». Segundo o estudo de Rivero, Tomaz participou na Guerra de Espanha, junto ao grupo nacionalista vinculado às filas de «Os Viriatos» e da Legião espanhola. É o próprio que o afirma na obra «Vitória de Espanha, como assevera Rivero:

«Espanha e Portugal são dois velhos namorados. Profundo amor platónico os enleia e separa. O verdadeiro amor reside no sentimento das Almas, muito aquém e além da volúpia sangrenta da posse.

A minha missão Lusíada, em África, foi alterada por um motivo imprevisto. Ausentei-me durante algum tempo, mas regressei mais forte, e mais português. Combati por minha dama, cantando…

Da minha espátula de boticário fiz alfange e também andei na guerra. O meu espírito colonial desembarcou em Algeciras; e o meu espírito já regressou, condecorado com muitas penas. Escrevi com elas um pouco de poesia que aí fica, em louvor dos mártires e dos heróis».

A sua participação na Guerra Civil, dizemos nós, pode inferir-se da seguinte passagem: «Da minha espátula de boticário fiz alfange e também andei na guerra».

«Vitória de Espanha», do poeta Tomaz Vieira da Cruz. Capa do artista Vasco  Vieira da Costa. Exemplar raríssimo assinado pelo poeta.
«Vitória de Espanha», do poeta Tomaz Vieira da Cruz. Capa do artista Vasco  Vieira da Costa. Exemplar raríssimo assinado pelo poeta.

O livro de Tomaz contém duas partes, sendo que a primeira contém um conjunto de breves notas explicativas. É aí que se encontra precisamente a passagem sobre a sua participação na Guerra. Na segunda encontramos sete sonetos que invocam lugares míticos da contenda espanhola, como sejam: «Madrid na paz», «Madrid na guerra», «Ascensão», «Toledo», «Alcazar», «Tércio marroquino» e «Espanha».

Nos anos 80 tive oportunidade de recolher diversas informações escritas e orais sobre o poeta, em particular, por parte junto da sua cunhada, Manuela Vieira, de saudosa memória, de Constância e, ainda, junto de seus antigos amigos.  Augusto Alves Soares e Manuel Alves Soares , irmãos, contavam-me que o poeta foi acusado de ser monárquico tendo sido vítima duma perseguição em  Santarém (anos 20 ou 30 do século XX). Recordo bem as palavras do antigo Engenheiro Manuel Soares, antigo colega da instrução primária de Tomaz e mais tarde, presidente da Câmara do Peso da Régua durante quase duas décadas. Contou-me um dia na quinta de São Gens em Lamego, que o poeta encontrando-se na estação em Santarém e por via dum episódio sobre a questão republicana foi perseguido, tendo escapado a um linchamento pois conseguir esconder-se ali, após uma fuga, numa arrecadação.

Emblema da milícia «Viriatos».
Emblema da milícia «Viriatos».

A viagem que Tomaz fez para Espanha, no tempo da Guerra Civil, foi por nós abordada nas nossas tertúlias ao piano.  Na altura a D. Manuela Vieira, octogenária, não tinha à mão o livro «Vitória de Espanha», o qual só recentemente consegui obter num alfarrabista, ainda que já tivesse tido acesso a algumas páginas reproduzidas anteriormente.  É, porém, dado assente que o poeta esteve na Guerra. Esse facto não levantou dúvidas ao académico da Universidade da Extremadura. E jamais a sua cunhada mo teria afirmado sem disso ter a mínima certeza. Vem isto a despeito da opinião diversa emitida há tempos na imprensa (em comentário a um artigo meu) por parte de um seu primo de Praia do Ribatejo, com a qual discordo plenamente, em que se pretende ver nas palavras do poeta em questão apenas uma idealização artística que nunca se teria concretizado (?).

Há na nota explicativa do poeta toda uma narrativa de autenticidade:

Afirma então na primeira pessoa: « A minha missão Lusíada, em África, foi alterada por um motivo imprevisto; acto contínuo: «Ausentei-me durante algum tempo, mas regressei mais forte, e mais português».

Em 1937, também Ernest Hemingway, escritor ideologicamente de esquerda, viajou para Madrid com o fito de promover algumas reportagens, «dado o avanço dos revoltosos» diz a literatura disponível. Alguns anos mais tarde concluiria o seu romance sobre a Guerra Civil, «Por Quem os Sinos Dobram».

A Guerra Civil de Espanha teve muitas facetas e não pode ser compreendida fora do contexto internacional ao tempo. O Governo era então constituído por uma coligação  de republicanos, liberal, apoiada nas Cortes pelos socialistas e pelos comunistas. A Guerra teve início na sequência de um pronunciamento de 1932 sendo que só em Julho de 1936, as forças nacionalistas tentam depor o governo, com um Golpe de Estado.  Da parte dos nacionalistas lutava-se contra aquilo que denominavam de «perigo do comunismo e do anarquismo em vários sectores do Estado».

O conflito foi interpretado por  Salazar como um assunto de carácter nacional que poderia condicionar decisivamente a sobrevivência e o futuro de Portugal.

Toledo era, diz Rivero, «o símbolo da Espanha vitoriosa, assim como esta, e a Península como um todo, eram a fortaleza e baluarte da cristandade. Uma luta com pretensão não apenas de “reconquista” contra os infiéis – transmutados em vermelho em vez de mouro – mas de autêntico sacrifício comparável apenas ao sofrido pelo próprio Cristo na sua cruz».

Reflexos duma “Espanha” de Vieira da Cruz apresentada neste soneto homónimo, defende Rivero:

«Do calvário da raça da vitória

tal-qual o sol rasgando a tempestade,

 um grito se levanta, em plena glória,

 cheio de luz, de sonho e de verdade!

 

 Vai a passar, cantando, a mocidade,

Requetés, Viriatos… E a história

novas iluminarias de saudade

 aceita em suas páginas de glória.

 

 Vão a passar os mortos desmentidos,

 e ninguém acredita que os vencidos

 fôssem capazes duma acção tamanha!

 

 Silêncio… Agora e sempre, ajoelhai!

 Mártir e santa, lá vai Ela, vai,

 vai a passar a gloriosa Espanha!»

Para Rivero, esta poesia de Tomaz Vieira da Cruz contém elementos no seu conteúdo, passo a citar, «sintomáticos da sociedade em que e para os versos estudados no presente trabalho foram escritos. Tal é o fôlego (…)  Um espaço para a epopeia mais grandiloquente do catolicismo nacional. Numa altura em que o genocídio a que ambos os lados se entregaram levou a versos altivos para a fuga curta da mera propaganda de guerra».

Uma foto da estação de comboios na Ribeira de Santarém captada por volta de 1870, segundo a página na internet «Eu gosto de Santarém», local onde o poeta Tomaz Vieira da Cruz se terá refugiado, aquando duma perseguição feita por republicanos fanáticos, nos anos 20 ou 30 do século XX.
Uma foto da estação de comboios na Ribeira de Santarém captada por volta de 1870, segundo a página na internet «Eu gosto de Santarém», local onde o poeta Tomaz Vieira da Cruz se terá refugiado, aquando duma perseguição feita por republicanos fanáticos, nos anos 20 ou 30 do século XX.

O tema do nacionalismo em Tomaz, não pode ser, contudo, abordado, selectivamente,  apenas e tão só, a partir de uma única obra ou de forma parcial. Francisco Gomes prefaciando a edição moderna de «Quissange» coloca assim o problema da liberdade e da auto(governo) dos povos: «quando alguém que se diga nacionalista promove a destruição de outras nações torna-se imperialista e colonialista». Tomaz Vieira da Cruz, pelo contrário, e ainda segundo o mesmo autor, «denunciando as injustiças, a escravatura, a imoralidade de certos colonos e de certas situações coloniais, tal como irmanando-se com os Bailundos e outros povos colonizados, demonstra ter sido um nacionalista íntegro mais do que integralista».

Tomaz conviveu no Quanza Sul o que terá levado à crioulização da sua escrita (cafrealização, dir-se-ia então), tendo retratado superiormente em «Bailundos» o drama da «gente negra». Chamou-se a si próprio «primitivo», tendo aprendido a amar o «selvagem». Na sua poesia encontramos a denúncia das sequelas da escravatura.

Para que possamos compreender a poesia e a personalidade de Tomaz talvez devamos ler o seu soneto, quiçá, mais vibrante, «A última batalha» que integra segundo Francisco Gomes, «a primeira recolha de motivação africana do autor – Quissange – Saudade Negra.

Ou, recorremos a o poema inédito que o poeta Tomás Jorge, filho de Tomaz Vieira da Cruz deu à luz através das publicações Imbondeiro, intitulado «África»,  obra que, nas palavras do autor do proémio de «Quissanje», «tira de vez aos mais cépticos qualquer dúvida sobre este homem visceralmente português e humanamente africanizado».

Foto do poeta Tomaz Vieira da Cruz
Foto do poeta Tomaz Vieira da Cruz

Na poesia de Tomaz, no entanto, parece privilegiado o tema do amor. «o amor entre o sujeito lírico e um «tu» itinerante, geralmente uma mulher negra ou mestiça, não apenas a mulata de que falam os críticos».

Jorge Macedo, o derradeiro autor do «Livro das batalhas» num artigo literário citado por Francisco Gomes, coloca lado a lado citações de Tomaz e de Agostinho Neto ou mesmo, Viriato da Cruz.

Tomaz,  poeta, português,  conquanto incontornável  na história da formação da literatura angolana.

Talvez possamos em epílogo, encerrar esta crónica, contraditando a imagem feita,  de Rivero, não tanto a da confusão dos heróis lendários e comandantes militares que o autor alega variar neste particular corpus poético, o qual além de Tomaz parece outros incluir: «Epílogo tardio perfeito para aqueles jogos florais do século XIV realizados emLisboa, como o final inconfundível daqueles sonetos de glorificação nacionalista eescárnio republicano assinado pelos Vieira da Cruz, Freitas Soares e Correia Leite»?

A resposta para Rivero: “Quando os infiéis assaltaram os túmulos das Catedrais, os mortos riram tragicamente, e continuaram mortos, mas não deixaram de rir”  (…)

«Na Espanha triunfou o comunismo da morte – distribuindo a paz eterna a todos os espanhóis que morreram na luta. Quando tivessem desaparecido do mapa europeu as fronteiras dêsse país admirável que é a Espanha, melhor do que qualquer desenho a côres ficaria a música espanhola a gritar seus lamentos de alegria triste. A independência na Arte, a liberdade da Arte, jamais algum materialismo plebeu será capaz de destruir.

Sevilha foi a cigana que leu no coração de Espanha  a Sina da Vitória» – in “Vitória de Espanha”.

José Luz

(Constância)

PS – Não uso o dito AOLP.  Nota 1 – «Viriatos» era o nome genericamente atribuído aos voluntários portugueses que combateram junto das forças nacionalistas espanholas.

Fontes principais da presente crónica

Luz, J. (04-09-2021). «Denúncia do colonialismo e da escravatura pelo poeta constanciense Tomaz Vieira da Cruz». Crónica/Opinião. Jornal «Mais Ribatejo».

Vieira da Cruz, T. (1939). «Vitória de Espanha»- Edição Especial para ser vendida a favor do monumento a erigir aos mortos que reconquistaram a Pátria. Imprensa Nacional. Luanda (Portugal).

Rivero Machina, a. (2015). «La literatura salazarista ante la guerra de españa. poesía y propaganda en Correia leite, Freitas Soares y Vieira da Cruz». Estudios humanísticos. Filología 37. issn: 0313-1329.

Vieira da Cruz, T. (2004). «Quissange». Com prefácio de Francisco Soares. Imprensa Nacional da moeda. Lisboa.

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