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À conversa com Fernando Alves no lançamento do livro “Sinais” em Santarém (vídeo)

O jornalista Fernando Alves veio à Sociedade Recreativa Operária de Santarém, para falar do seu recente livro “Sinais, as últimas 50 crónicas da TSF”, editado pela Âncora Editora.

Na conversa, Fernando Alves falou das crónicas que fez durante 30 anos, cinco dias por semana às nove menos dez – os “Sinais” da TSF que deram corpo a este livro. São 50 crónicas selecionadas entre as cerca de 7.000 que escreveu e a que deu voz aos microfones da TSF nos últimos 30 anos.

Joaquim Duarte, jornalista e ex-diretor do jornal O Ribatejo, fez a apresentação de Fernando Alves, com o texto que aqui reproduzimos:

“Sinais” – apresentação do livro de Fernando Alves

Primeiro, dizer do prazer que é estar aqui, na Sociedade Recreativa Operária de Santarém, para falar do Fernando Alves e do seu livro “Sinais, as últimas 50 crónicas da TSF”, editado pela Âncora Editora, do comum amigo Batista Lopes.

De algum modo, todos conhecemos o Fernando. Ele foi a voz que, até há bem pouco tempo, nos entrava familiarmente em casa ao começo da manhã (ou no carro, para os que já iam a caminho do emprego), com a crónica que fez durante 30 anos, cinco dias por semana – os “Sinais” que ouvíamos, cativos da TSF, às nove menos dez.

“Sinais” chegou ao fim, a 29 de setembro de 2023, precisamente com a crónica que encerra este livro, sob o título: “O olhar perto do chão”. Admirável crónica sobre um vagabundo elegante e leitor de clássicos que via, a partir do chão, o rosto de gente apressada e infeliz. Fernando termina essa última crónica da TSF assim: Ficarei a ver passar os transeuntes com o seu ar triste, como só os vagabundos sabem detetá-lo. Até sempre.”

Informou-nos depois em entrevistas para que foi solicitado quando encerrou o ciclo TSF, o que lhe valeu ser rosto de capa no “Público”, que também ele, agora aposentado, iria vagabundear por aí.

Este livro é também, por isso, uma despedida dorida. Não do jornalismo, que esse colasse-nos à pele e não mais nos larga. É mais uma espécie de desencanto e luto pela sua TSF, que deixou de ser a rádio que vai “até ao fim do mundo, até ao fim da rua”, o célebre spot criado por ele.

Estas 50 crónicas, que agora nos apresenta em livro, são menos de 1% das cerca de 7.000 que escreveu e a que deu voz aos microfones da TSF nos últimos 30 anos. Em todas encontramos a mesma sensibilidade poética, o mesmo olhar inquieto e perscrutador sobre o quotidiano, a errância de tópicos que escapam à espuma dos dias, e sempre, ou quase sempre, uma citação oportuna tirada de um poema ou “roubada” a um livro que anda a ler e nos solicita a visitar.

O Portugal que lemos nas crónicas do Fernando Alves não o encontramos nos telejornais, nem nos “achismos” dos “tudólogos” que enxameiam a pantalha a parlar horas a fio. As suas crónicas são lugares de humanidade, mesmo quando o assunto é o cágado-mediterrânico que reapareceu no Rio Sousa e que a ciência julgava extinto. Ou a do menino de 7 anos que viu um assaltante levar-lhe o mealheiro onde guardava as economias para comprar um bezerro. E o cronista – ainda nós condoídos do menino desapossado do seu insólito desejo – desvia-nos para uma outra preocupação muito mais séria que é aos dias de hoje crianças e jovens procurarem o “bezerro de ouro” nos jogos online.

São assim, sempre surpreendentes e interpeladoras as suas crónicas. Poeta/jornalista (ainda não sei qual deles tem a primazia no Fernando, se o poeta ou o jornalista), ele olha a vida a acontecer com o olhar interior de quem vê. E sendo um cultor da palavra, sabe como poucos envolver a narrativa com o seu saber de leitor de bibliotecas.

É um gosto lê-lo, mas prazer maior é ouvi-lo. Afinal, cada um de nós, enquanto leitor tem, sem disso ter nítida consciência, a sua própria voz interior no processo de leitura. Por isso, ao lermos estes “Sinais”, sentimos essa falta da voz inconfundível do Fernando, ainda tão presente na nossa memória radiofónica.

E a propósito de memórias radiofónicas, há outras para recordar, de um outro contexto, já distante no tempo, mas próximo na geografia, dado o local onde agora nos encontramos.

O Fernando Alves, como os mais velhos aqui presentes recordarão, também já foi voz da rádio em Santarém. Em meados dos anos 80, em pleno boom das “rádios piratas”, nasceu a Rádio O Ribatejo, paredes meias como o jornal O Ribatejo, a que o Fernando veio dar corpo e alma. Aqui desbravou caminhos e marcou algumas vidas.

1988 foi ano em que a “antena” do Beco dos Tanoeiros sacudiu o torpor da cidade pacata que era Santarém. Era a voz do Fernando que entrava manhã cedo, com o Gaudêncio, a falar de coisas tão abstrusas como a plantação do tremoço ou a sapateado do fandango, mas a que ele conseguia dar sempre um tom encantatório. Com ele tudo era intenso e apaixonante. E todos lhe respondíamos com a mesma paixão: o Pina, relojoeiro da Ribeira transformado em técnico; o Leonardo na crónica de toiros (ainda não tinham nascido os ativistas do movimentos anti-touradas); a redação com o João Batista, o Alberto Serra e eu próprio na voragem das notícias e reportagens; o António Colaço, que queria “inventar” a rádio debaixo de água (com microfone mergulhado na piscina) ou a lançar foguetes da janela do estúdio que haveriam de trazer a GNR à porta com o papel da multa para o Carlos Cruz lamentar mais uma despesa escusada; e tantos, tantos outros nomes que alimentavam a antena de boa música, em que pontificava o Fernandinho da “Horta da Fonte”.

Foram intensos e apaixonantes esses dias pioneiros da rádio. O Fernando acabou por fazer escola aqui e quando, passado um ano, partiu para abrir a TSF, de que foi um dos fundadores com Emídio Rangel, levaria consigo um punhado de jovens em quem deixara uma forte paixão pelo jornalismo.

E agora, tem a palavra o meu camarada e querido amigo Fernando Alves.

Joaquim Duarte

(Santarém 12-03-2024)

 

 

 

 

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