Quarta-feira, Junho 12, 2024
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“Bem me guerra, mal me guerra”

Há umas semanas li um artigo do presidente do Conselho Europeu no Público, intitulado “se queremos a paz, temos de nos preparar para a guerra”. Infelizmente, não é do meu conhecimento que tenha sido processado por Flávio Vegécio (alegado autor da expressão) por fazer ou dizer o que afinal já tinha sido dito ou feito. Pena.
Decidi-me a publicar um artigo, depois de ler nas palavras desse alto representante da União Europeia uma atitude laudatória do esforço de guerra e da necessidade imperiosa de correr ao armamento.
Por entre frases mais ou menos como “falei com o Borrell e enviámos prontamente armamento letal para a Ucrânia” e afirmações ridículas de que gastar tempo e recursos em guerra é economicamente bom para a União Europeia (ou para qualquer país do mundo, vá), consegui vislumbrar a palavra “paz” lá no meio, ironicamente utilizada no momento de se referir ao que o Kremlin quer ou deixa de querer.
Se, como dizem os arautos da guerra, a Rússia não irá parar por aqui e há-de entrar por aí dentro, resta concluir que os russos, coitados, não dispõem de cérebro e não nos resta outra solução que não seja desbravar terreno até Vladivostok.
Aliás, é o que subrepticiamente temos andado a fazer. Quando a União Soviética se entreteu a instalar mísseis em Cuba, para “defesa territorial”, foi (e bem) um problema. Naturalmente, os EUA não tinham mísseis estacionados na Europa (que ideia absurda!) para “defesa”. É sempre para defesa, existe algum país com Ministério do Ataque, ou que consigne uma % do PIB ao Ataque?
Hoje a NATO vai-se expandido até cada vez mais perto da Rússia, com o que isso implica de bases e exercícios militares, tropas e tensão geopolítica. Aparentemente, isso não é nenhum problema para os do lado de cá da barricada.
Não quero com estas palavras defender ou sequer justificar as asneiras cometidas pela Rússia pós-Soviética, mas é ingénuo e desonesto acharmos que “nós” não temos também participado em jogo sujo.

Enquanto ia escrevendo e pesquisando, deparei-me com uma tal enxurrada de artigos e discursos a identificar a guerra como uma necessidade inevitável, sem pausa para reflexão sobre causas e soluções, desde o já referido Charles Michel até Germano de Almeida. Do outro lado, Viriato Soromenho-Marques, de vez em quando Miguel Sousa Tavares, e pouco mais.
Recorri saudavelmente a uma das palavras utilizadas para designar o órgão sexual masculino, palavra essa que alguns dizem ser igualmente a que se refere ao cesto da gávea. Não sei se a história é verdadeira, mas já que estamos numa de reverter logótipos por questões de identidade nacional e, sendo Portugal uma nação que muito deve à exploração marítima, que era feita com barcos que continham gáveas, sinto que o Polígrafo devia investigar esta situação, a bem do nosso orgulho patriótico.
Adiante, cliquei no rato e enviei o ficheiro, como se encontrava no momento, para a reciclagem.
Mais recentemente recuperei uma parte da fé na Humanidade, depois de me deparar com a opinião, entre o sensato e o sarcástico, sobre o serviço militar obrigatório.
Salvo raras excepções, sobre cuja personalidade ou estado anímico a psicologia tem muito a dizer, as pessoas não têm vontade de estar em guerra. Não nascem, não vivem, não acordam a desejar estar num palco de guerra, onde sabem que vão matar ou morrer, em vez de dar prossecução a uma miríade de possibilidades que contemplam para as suas vidas.
Mesmo quem, em nome da defesa legítima e de uma atitude patriótica, se junta às forças armadas de livre vontade, fá-lo contra um agressor, ou possível agressor. De resto, não admira que o serviço seja obrigatório. Vais porque és obrigado, não é porque queres.
Através de patriotismo ou obrigação se encontram os defensores numa guerra. E através de patriotismo ou obrigação se encontram os atacantes numa guerra, que estavam lá para uma eventual defesa que se tornou um ataque. Pergunto-me onde anda a livre vontade de qualquer um destes intervenientes, à excepção dos líderes que da sua vida dispõem.
Geralmente, e como já não vivemos no tempo das tribos que lutam por comida, a guerra não é uma questão de necessidade, mas uma questão de vontade.

Do mesmo modo que esta guerra na Ucrânia não remonta a 2022, mas sim a 2014, o conflito entre Israel e a Palestina não começou em Outubro passado, mas conta já com mais de 75 anos.
No final de 1947, a ONU decidiu elaborar um Plano para a Partilha da Palestina, que consistia na criação de dois Estados. Horas antes do término do Mandato Britânico (o território encontrava-se sob administração britânica, depois da queda do Império Otomano), Israel autoproclamou-se, unilateralmente, um Estado independente.
Estimam-se que foram expulsos mais de setecentos mil palestinos, decorrentes da guerra civil que já existia e da guerra árabe-israelense que veio a existir, já depois da declaração de independência de Israel.
Nesse ano, o Estado árabe contemplado no Plano da ONU não foi criado. De lá para cá, Israel tem sucessivamente expandido o seu território para lá do estabelecido no Plano, com os colonatos na Cisjordânia e em Jerusalém Leste. O sentimento de impunidade e a arrogância é tal, que para Israel há colonatos “regulares”, permitidos pela sua própria lei!!
De lá para cá, Israel tem sido sucessivamente alvo de resoluções da ONU, para as quais se esteve completamente nas tintas (vamos ver o que acontece agora com a última). Volvidos estes mais de 75 anos, o Estado árabe contemplado no Plano da ONU ainda não foi criado. São coisas que demoram o seu tempo, naturalmente.
Mais de 100 trabalhadores da ONU foram mortos devido aos ataques. Já este mês assistimos à morte de membros da World Central Kitchen em (mais) um ataque israelita.
No pasa nada.
Netanyahu já veio dizer que as mortes dos funcionários da WCK “não foram propositadas”. Sabemos bem que Israel se prende pela dignidade e pela superioridade moral.
Avisam as populações antes de lançar as bombas, num gesto de profundo altruísmo e, recentemente, numa atitude enternecedora, as Forças de Defesa de Israel (a sempiterna defesa) retiraram da cidade de Khan Younis, permitindo à população o retorno aos escombros para prosseguirem a vida a que, livremente, aspiram.

Os EUA, que há uns dias finalmente se abstiveram, permitindo assim que uma resolução do Conselho de Segurança da ONU relativamente a um cessar-fogo fosse aprovada, têm continuado a fornecer armas a Israel.
O eminente ataque a Rafah levará a uma mudança da política externa dos EUA, mas o seu apoio a Israel continua a ser indefectível, depois do ataque israelita ao consulado iraniano em Damasco.
Israel deveria esperar uma justificada resposta militar do Irão, pelo menos a ser coerente com o seu próprio historial no que toca a retaliações.
Também seria de esperar uma condenação dos responsáveis israelitas e sanções ao respectivo país, tal como a Rússia e Putin o têm sido, e bem.

Eis-me chegado ao único ponto em que me dispo do sarcasmo ligeiramente latente ao longo de todo o artigo, por não me ser possível manter essa atitude, e porque este era um dos pontos que tinha já escrito no anterior artigo que tinha planeado e que queria que visse a luz do dia.
A 25 de fevereiro de 2024, Aaron Bushnell, um militar da Força Aérea dos EUA, caminhou em direção à Embaixada de Israel em Washington. Disse para o dispositivo em que se gravava que estava “prestes a levar a cabo um acto extremo de protesto, ainda assim em nada comparado com o sofrimento das populações da faixa de Gaza.”
Em frente à entrada, deitou sobre si um qualquer líquido inflamável e autoimolou-se. Morreu mais tarde, no hospital. Os responsáveis norte americanos chamaram à situação “um evento trágico”.

——–

Para terminar, como o Polígrafo ainda não se pronunciou, quem tem de ir, que vá depressa para o caralho, que grite “guerra à vista!” e que o barco se estatele contra um iceberg.

João Barreiro

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