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Jaime Fernandes: “Saber o que representa o 25 de Abril é muito importante para os jovens darem valor à liberdade”

O Mais Ribatejo entrevistou Jaime Fernandes no lançamento do seu novo livro “Em Abril Estórias Mil – Da Ditadura à Liberdade” que teve lugar esta quinta-feira, 11 de abril, na SRO Solciedade Recreativa Operária em Santarém 

Jaime Fernandes é natural de Santarém, licenciado em Geografia, e foi documentalista dos jornais A Capital e Diário de Notícias e lecionou no ensino básico e secundário. É autor dos romances “Os Canhões de Santarém que Foriram em Lisboa” e “Voando sobre um Vulcão”. Participou nmas campanhas eleitorais pela Oposição Deomcrática, integrado nas CDE do Distrito de Santarém em 1969 e do distrito de Lisboa em 1973. Participou nos encontrpos nacionais da Oposição Democrática em representação do distrito de Santarém. Quando cumpria o serviço militar doi preso pela PIDE, a polícia política do regime fascista, julgado no Tribunal Plenário e condenado a 22 meses de cadeia que cumpriu no Forte de Caxias, na Fortaleza de Peniche e no Presídio Militar de Santarém. Viria a ser novamente preso pela polícia política e encarcerado no Forte de Caxias, de onde foi libertado no dia 27 de Abril de 1974, pelo MFA – Movimento das Forças Armadas.

Neste romance, Jaime Fernandes coloca um avô, Francisco, a contar à neta como se vivia em Santarém e em Portugal antes do 25 de Abril, e através da história pessoal de Francisco conta os acontecimentos da história do 25 de Abril de 1974.CAPA LIVRO ABRIL ESTORIAS MIL JAIME FERNANDES 2024

Mais RibatejoEscolheu para capa do livro uma fotografia sua no momento em que foi libertado do Forte de Caxias onde foi preso político até ao 25 de Abril. Este é um livro autobiográfico?

Jaime Fernandes – Parte deste livro é autobiográfico, mas confunde-se com o meio social em que vivi e convivi. Bastantes vezes são descritas as situações políticas e culturais em que me envolvi. Nas mais diversas situações havia sempre companheiros nas estórias contadas no livro.

+R – Considera muito importante transmitir aos mais novos o que aconteceu em 1974? É necessário manter a memória do que representa o 25 de Abril?

JF – Conhecer bem a nossa história é sempre importante para melhor trilharmos os caminhos do futuro. Saber o que representa o 25 de Abril é muito importante para os mais novos para perceberem a importância de defender a liberdade e a democracia, de impedir o regresso da ditadura e de evitar as lutas titânicas para o povo se libertar.

+R – Acha que os jovens aprendem a história do 25 de Abril nas escolas e nas suas famílias?

JF – Esse é um grande problema. Uma boa parte dos pais e dos professores mais novos sabem pouco acerca do que representou o 25 de Abril. Por vezes são os avós que lhes transmitem algum conhecimento. Mas para que isso aconteça também é necessário alguma curiosidade por parte dos jovens.

+R – Será por ignorância que muitos jovens deram o seu voto ao partido da extrema-direita nestas últimas eleições?

JF – Penso que o problema estará no analfabetismo político, na preguiça para pensar, no deslumbramento das novas tecnologias e nas facilidades em adquirir o que desejam.

+R – Será pela falta de memória ou pela ignorância que se justifica a adesão de mais de 1 milhão de pessoas, entre eles muitos jovens, às ideias de um partido que se afirma abertamente antirregime democrático e que pretende fazer um ajuste de contas com a história e com o 25 de Abril?

JF – Os mais jovens não podem ter memória do que foi a ditadura porque não a viveram. E a ignorância depende da curiosidade de cada um e do meio em que vivem. O sistema de ensino e o meio familiar não serão os melhores em muitos casos. Mas também é muito difícil transmitir conhecimentos a quem não os quer adquirir.

+R – Ouve-se frequentemente nos meios de comunicação certos políticos e muitos comentadores a fazerem a normalização do Chega, tentando equivaler um partido antidemocrático com os partidos de esquerda como o PCP e o Bloco de Esquerda. O que pensa disto o Jaime Fernandes, que foi preso duas vezes pela polícia política do Estado Novo apenas pelas suas opiniões políticas e que só saiu da prisão da Caxias graças à liberdade trazida pela revolução do 25 de Abril?

JF – Vou-lhe dar uma resposta muito simples: os valores desse partido de extrema-direita são semelhantes ao da ditadura que nos oprimiu durante quase 50 anos. Só não vê isso quem não quer ver. O partido que mais combateu a ditadura e que mais sofreu com ela foi o PCP. Em 50 anos de democracia o PCP tem respeitado sempre as instituições democráticas. Isto são factos.

+R – Como é que explicaria à sua neta as razões por que foi preso pela PIDE e que desde o 25 de Abril nunca mais ninguém foi preso pelas suas ideias políticas?

JF – Dir-lhe-ia o que escrevi no meu livro. Naquela fase da minha vida senti que deveria dar o melhor de mim para ajudar a derrubar a ditadura. Era sobretudo uma questão de dignidade que estava em causa. Era indigno viver num país em que eram sistematicamente proibidos livros, filmes, peças de teatro e canções, e onde a censura a todos os órgãos de comunicação social era uma constante. Só podíamos saber o que eles deixavam que soubéssemos. Era um ultraje não podermos exprimir o nosso pensamento. E era o medo com que se vivia quotidianamente. Quem discordava da política do governo corria o risco de ser preso, de ser torturado e mesmo de ser assassinado, como aconteceu a muitos oposicionistas. Bastava que fosse denunciado pelos informadores da PIDE. Era preciso acabar com uma Guerra Colonial onde estavam a morrer ingloriamente milhares de jovens. E eram também chocantes as condições de vida miseráveis em que vivia grande parte da população, quando uma minoria vivia faustosamente, com grandes privilégios.

“As liberdades e a democracia nunca estão consolidadas”

+R – 50 anos após o 25 de Abril, a democracia está consolidada e garantida em Portugal?

JF – As liberdades e a democracia nunca estão consolidadas. É preciso defendê-las permanentemente porque os poderosos não olham a meios para aumentar os seus poderes e satisfazer a sua ganância. São muito perigosos. Estudos têm revelado que essa gente, na maior parte, é psicopata, não têm remorsos.

+R – Ouvi recentemente um alto responsável político dizer que o 25 de Abril não tinha ainda resolvido uma série de problemas. Mas na verdade o 25 de Abril cumpriu os 3 Ds – Democracia, Descolonização e Desenvolvimento. O que falta então cumprir desse legado que o 25 de Abril nos deixou?

JF – Para mim é essencial termos uma educação mais qualificada, um Serviço Nacional de Saúde mais eficiente, e salários e pensões que permitam aos portugueses viver com dignidade.

+R – Nesta semana, assistimos a um ex-primeiro ministro, ao lado de um atual ministro e de mais uma série de gente com responsabilidades políticas e universitários, a apresentar um livro onde se defende o que consideram ser a família tradicional, com a mulher a ser remetida para o papel de dona de casa. De igual modo defendem num retrocesso na lei da interrupção voluntária da gravidez, nos direitos dos homossexuais, e outros direitos humanos. Acha que estamos em risco de haver um retrocesso na igualdade da mulher e nos direitos humanos em Portugal?

JF – Como disse atrás, eles estão sempre à espreita e raramente perdem as oportunidades para restringir as liberdades e a democracia. A extrema-direita levantou a cabeça e a defesa dessas medidas apareceram logo a seguir…

+R – A guerra volta a ser uma realidade na Europa e, apesar de ainda estar longe, começa a aproximar-se de nós. Ao ponto de estar a provocar o debate entre nós sobre a necessidade de reforçarmos os investimentos na defesa e de voltarmos a introduzir o serviço militar obrigatório. Qual a sua opinião sobre esta questão do SMO?

JF – Se querem instituir novamente o SMO para enviar portugueses para a guerra, discordo totalmente. Se for para dar treino aos portugueses a fim de adquirirem noções mínimas para defender o território, serei levado a concordar. A guerra não interessa aos povos porque são sempre eles que sofrem. Só interessa aos poderosos porque lucram com ela.

“Sinto vergonha por um Presidente da República ter condecorado um militar que atentou várias vezes contra a democracia”

+R – Soubemos esta semana que o Presidente da República condecorou o marechal Spínola no ano passado e só esta semana soubemos disso pelo jornal Público, porque a condecoração foi atribuída às escondidas… Provavelmente devido à polémica ação do general Spínola contra o 25 de Abril – sendo-lhe atribuída a tentativa de reinstaurar uma nova PIDE, de impedir a libertação de parte dos presos políticos (como conta neste livro) e depois com a tentativa de golpe de estado contra o movimento do 25 de Abril e a formação do movimento de extrema-direita MDLP de que, curiosamente, várias figuras estão agora em alta, como Pacheco de Amorim, vice-presidente da Assembleia da República, e Miguel Júdice, advogado proeminente e comentador político na televisão. Quer comentar?

JF – Vergonha é o que eu sinto. Vergonha por um Presidente da República ter condecorado um militar que atentou várias vezes contra a democracia e, mais grave ainda, por ter tentado esconder cobardemente esse acto. E vergonha por ter sido com o voto dos portugueses que temos um vice-presidente da Assembleia da República que militou numa organização terrorista a quem foram atribuídos muitos crimes, incluindo assassinatos, provando-se mais uma vez que eles não olham a meios.

+R – É autor de outros dois romances “Os Canhões de Santarém que floriram em Lisboa e “Voando sobre um Vulcão”. Fale-nos um pouco sobre esses anteriores livros.

JF – “Os Canhões de Santarém que Floriram em Lisboa” é um romance onde são abordadas as lutas da resistência à ditadura, nos meios operários, estudantis e católicos, com destaque para Santarém, Lisboa e Alpiarça. E termina com as operações militares do 25 de Abril e a libertação dos presos políticos.

“Voando sobre um Vulcão” é a continuação do primeiro livro. Os personagens principais são os mesmos e acompanha todo o Processo Revolucionário em Curso (PREC) até ao 25 de Novembro. Também contém um percurso pelo património histórico de Santarém.

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