Quinta-feira, Maio 23, 2024
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Capitão de Abril Garcia Correia: “A única forma de acabar com a guerra era pôr fim ao regime” (VÍDEO)

António Garcia Correia foi um dos participantes do movimento dos capitães que desencadeou as operações militares do 25 de Abril. O Capitão de Abril conta ao Mais Ribatejo os acontecimentos do 25 de Abril a partir da Escola Prática de Cavalaria de Santarém.

Nesta entrevista, o agora coronel Garcia Correia, de 84 anos, fala-nos também do seu despertar político em plena guerra colonial e das razões do movimento dos capitães.

Em conversa com o Mais Ribatejo, Garcia Correia faz ainda um balanço destes 50 anos do 25 de Abril e salienta a importância das conquistas de Abril, embora seja muito crítico da situação atual de algumas áreas, em especial a justiça.

Pode ouvir a entrevista no podcast

 

Seis anos na guerra em África…

Há 50 anos, o então Capitão Garcia Correia tinha acabado a sua terceira comissão na guerra em África e tinha-se a presentado ao serviço na Escola Prática de Cavalaria em Santarém.

Nesta entrevista, conta-nos a sua participação desde o início do movimento dos capitães. “Eu tinha feito três comissões, de dois anos cada uma em Angola e Moçambique, mas havia ainda quem tivesse feito quatro e cinco comissões, e o movimento surge na consequência do decreto de lei 353/73 que procurava fazer face à escassez de capitães dos quadros permanentes; portanto o movimento começa por ser corporativo”. Garcia Correia particiou nas várias reuniões do movimento até que se chega à conclusão de que a única maneira de acabar com a guerra coonial e com o regime seria com uma operação militar. Repare-se que havia muita gente que lutava pela democracia há muito tempo, sem resultados, porque era muito difícil: o regime detinha todo um aparelho de repressão, com a censura e a polícia política, a PIDE, e quem escrevia ou falava contra a guerra ou pela democracia era perseguido, preso, até torturado e nunca mais podia ter emprego no Estado”.

Quando o movimento dos capitães passou a ser o programa do MFA

Entretanto, o problema corporativo dos capitães torna-se um problema político. Garcia Correia recorda uma das mais determinantes reuniões do movimento, que teve lugar em Cascais, no ateliê do arquiteto Braula Reis. “Fomos da EPC de Santarém com o capitão Maia e o tenente António Palma, e nessa reunião o major Melo Antunes apresentou o programa político do movimento. Desta forma, o que começou por ser o movimento capitães para ser o Programa do MFA – Programa das Forças Armadas”.

A tomada de consciência política de que a guerra colonial não era solução

Garcia Correia recorda que uma das suas primeiras tomadas de consciência política foi logo na primeira comissão, “com os meus militares, principalmente com os alferes milicianos, que já tinham ou estavam a fazer cursos universitários, e possuiam um grau de politização que nós na Academia Militar não tinhamos. Também falava muito de política com o meu irmão (o advogado João Correia) que estava a estudar Direito. Nas cubatas em Moçambique os soldados escreviam make love nor war. Percebi que a guerra colonial e o regime tinham de acabar e que isso só seria possível com uma ação de força”.

Internacionalmente o país estava isolado e era pressionado nas Nações Unidas para acabar com a guerra e permitir a autodeterminação das populações das colónias. Os soldados portugueses morriam a milhares de quilómetros de casa. De acordo com o Capitão de Abril, registaram-se 10 mil mortos e 30 mil feridos, dos quais 60 por cento ficaram com deficiências profundas”.

Em Moçambique a minha companhia sofreu 4 mortos e 30 feridos…

“Em Moçambique, estive colocado em Cabo Delgado, no norte, que está agora sob os ataques do Estado Islâmico. Comandava uma companhia de 120 homens. Viviamos no mato, sem água, sem luz, fazíamos as necessidades no mato. Sofremos 4 mortos, 30 feridos, dos quais 12 mutilados…”

Depois da tentativa de golpe das Caldas tudo acelerou

Na reunião de Cascais, o major Melo Antunes, que era o mentor político do movimento, apresentou o programa político do Movimento das Forças Armadas (MFA), e a partir daí o Otelo Saraiva de Carvalho elaborou o plano operacional. O general Costa Gomes (que era o chefe do Estado Maior das Forças Armadas) e o general Spínola (vice-CEMFA) assumiram-se como os “mentores” do movimento.

Garcia Correia recorda que a 16 de março de 1974 deu-se uma “operação intempestival do Regimento das Caldas da Rainha que decidiu avançar sobre Lisboa, contrariamente a tudo o que estava pensado. Os militares envolvidos foram todos presos e isso fez acelerar as operações do 25 de Abril, desta vez com todas as unidades militares, de norte a sul do país, cada uma com a sua missão atribuída, de acordo com o plano operacional definido”.

A missão da EPC de Santarém no 25 de Abril

À EPC – Escola Prática de Cavalaria em Santarém, foi atribuída a missão de avançar sobre Lisboa e tomar o Terreiro do mPaço, onde estavam os ministérios e o Banco de Portugal. Missão desempenhada por Salgueiro Maia com uma coluna de 120 militares, que depois avançou para o Quartel General da GNR no Carmo, onde o Presidente do Conselho Marcelo Caetano se tinha refugiado. Salgueiro Maia cercou o quartel e deu-lkhe ordem de rendição. Marcelo caetano acabou por se render, foi levado por Salgueiro Maia no chaimite para o aeroporto e partiu para o exílio.

“Nessa noite de 24 de abril, na EPC fiquei eu e o capitão Correia Bernardo”, recorda. Garcia Correia levou o comandante da EPC a jantar em sua casa, informou-o do que se estava a passar e tentou convencê-lo a aderir ao movimento, mas ele manteve-se intransigente. “Mais tarde, já no quartel da EPC, depois de ouvirmos a primeira senha na rádio (a canção E Depois do Adeus), informei-o: Meu comandante, o que se passa aqui é o que lhe disse ao jantar, mas é hoje! O comandante continuou a recusar aderir ao movimento e acabou por se recolher no seu quarto, e na manhã seguinte saiu do quartel e foi para casa. Não sofreu quaisquer represálias”, conta Garcia Correia.

Em Santarém, havia o plano B para resistir se a revolução em Lisboa corresse mal

Conjuntamente com o capitão Correia Bernardo, Garcia Correia efetuou os reconhecimentos necessários no Planalto de Santarém e estabeleceram o Plano da Defesa de Santarém (plano B), na perspetiva de um possível insucesso das forças da EPC, em Lisboa, comandadas pelo capitão Salgueiro Maia, ficando com a responsabilidade do comando da resistência em Santarém, o que felizmente se tornou desnecessário.

Recorda, o regresso da coluna militar da EPC a Santarém no dia 27 de Abril. “A população de Santarém, quase em peso, veio aclamar a coluna de Salgueiro Maia ao Largo do M unicípio, e as fotos desse momento captadas por Grandela Aires podem agora ser vistas numa exposição que está patente no Arquivo Distrital, junto ao Cabaceiro”.

Nos dias seguintes, “foram substituídos os vários dirigentes políticos e na Câmara Municipal foi constituída uma comissão administrativa presidida por Francisco Viegas. Foram presos os agentes da PIDE e legados para o estabelecimento prisional de Alcoentre, de onde pouco depois se evadira. Alguém lhes abriu a porta…”

Foi uma Revolução inspiradora para muitos paises em todo o mundo

“Foi uma Revolução que todo o mundo admirou porque os militares não mataram ninguém e não tomaram o poder para si – os civis é que ficaram com o poder. O nosso 25 de Abril correu o mundo e inspirou um movimento de democratização em vários países. O nosso objetivo no MFA era mudar o regime, implantar a democracia e a liberdade e acabar com a guerra. Eram os três dês – Democratizar. Descolonizar e Desenvolver. Os dois primeiros foram cumpridos e o desenvolvimento é um processo que nunca acaba. Mas verdade seja dita, estamos hoje incomparavelmente melhor do que estavamos há 50 anos.”

Agora, é preciso continuar a desenvolver…

Apesar das incontestáveis conquistas de Abril, Garcia Correia não deixa de manifestar o seu descontantamento com a atual situação em alguns setores: “em especial na justiça que está um caos. E também temos a questão grave da falta de habitação e é preciso resolver os problemas na saúde e na educação”.

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