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Guilherme Carreira: Só quando cheguei a Lisboa é que percebi que estava metido numa revolução (vídeo)

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Guilherme Carreira foi um dos militares que saíram da EPC em Santarém para fazer a revolução em Lisboa, na madrugada de 25 de Abril de 1974.

Atualmente reformado, com 72 anos, Guilherme Carreira afirma em entrevista ao Mais Ribatejo o seu enorme orgulho por ter feito parte das operações do 25 de Abril. Mas, na verdade, afirma que foi o único que não foi voluntário na operação.

Ouça aqui a entrevista no podcast:

Guilherme Carreira era o cabo enfermeiro da ambulância que acompanhou a coluna militar comandada por Salgueiro Maia. Costumava dormir na enfermaria da Escola Prática de Cavalaria e, por isso, nessa noite não foi chamado para a formatura em que o Capitão Salgueiro Maia fez o já célebre discurso em que disse aos seus homens que iam a Lisboa para acabar com o estado que isto chegou.

“Fui chamado para ter a ambulância pronta para seguir viagem, mas nem sabia onde me ia meter”, recorda.

“O caminho até Lisboa foi sereno, só nos cruzámos com um automóvel e com uma camioneta carregada de nabos. O condutor da ambulância, que tinha estado na parada com o capitão Salgueiro Maia, disse-me que íamos a Lisboa para um golpe de estado. Mas eu respondi-lhe que ele devia estar maluco.

Chegámos ao Terreiro do Paço, estacionámos a ambulância junto à estátua do D. José, e acontece aquele conflito com Junqueira dos Reis que deu três tiros para intimidar as nossas tropas. Logo depois, apareceu-me o jornalista Adelino Gomes a perguntar se havia feridos e depois comentou-me que aquele brigadeiro não via que o Movimento das Forças Armadas já tinha ganho isto. E eu, surpreendido, perguntei-lhe o que era isso do Movimento das Forças Armadas. Foi assim que que percebi no que estava metido e que estávamos de facto a fazer uma revolução! E foi o Adelino Gomes que me disse!”

Guilherme Carreira começou a trabalhar aos 11 anos no Hotel Central em Santarém.

“Nada me chateia mais do que ouvir pessoas da minha igualha, ou seja pobres como eu, dizerem que isto dantes é que era bom e que estava-se melhor no tempo do Salazar”, afirma Guilherme Carreira, acrescentando indignado: “Isto não estava nada bem. Eu comecei a trabalhar logo que acabei a 4.ª classe, aos 11 anos. Começava às 8h00 da manhã à porta do Hotel e só saía à meia-noite. E as minhas irmãs também começaram a trabalhar pelos 11 anos como criadas de servir. O que é que era bom? Nada! Para o povo era só miséria!”

“Tenho um grande orgulho de ter participado no 25 de Abril, e acho sempre que valeu a pena, mas estes últimos anos têm-me desiludido muito, pelo estado que isto chegou outra vez. A nossa justiça está uma vergonha!”

1 comentário

  1. Obrigado Guilherme pela sinceridade e pela coragem de assumir a pobreza sem vergonha. De facto poucos tem coragem de admitir a vida dificil que a maioria das pessoas tinham nessa altura. Obrigado também ao sr. Jornalista por entrevistar outros militares sem serem sempre os mesmos, a coluna militar e os quartéis tambem tinham sargentos e outros postos que merecem o nosso agradecimento.
    VIVA ABRIL.

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