Quinta-feira, Junho 13, 2024
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Livres para ser livres – por João Barreiro

Daqui a umas horas ter-se-ão passados 50 anos desde que uma canção passou na Rádio Renascença para dar início a uma marcha que seria triunfante.
Eu viria a nascer mais de 14 anos depois. Não presenciei esse momento, não experienciei nem a injustiça específica de que muitos foram alvo durante o Estado Novo, nem o júbilo avassalador que se formou no espírito de muitos depois da Revolução consumada.
Mas sou assaltado, mais, faço questão de me deixar assaltar, por um misto de agradecimento e felicidade que ficará sempre só no domínio da imaginação poética.
Daqueles momentos que me são dados a experienciar quando, em “Matrix Revolutions”, vejo Kid a correr feito desalmado e a proclamar “Zion! Acabou! A guerra acabou! A guerra acabou!”, contraposto pela sobriedade de Niobe que, abraçada a Morpheus, solta um “Neo, onde quer que estejas, obrigado.”
Ou quando, em “O Senhor dos Anéis – As Duas Torres”, sabendo a guarnição do Abismo do Elmo que a morte se aproxima, vejo Gimli a olhar para o alvorecer e a lembrar-se das palavras de Gandalf, sabendo que a esperança vem com o sol matinal.

Gostaria de relembrar que a Revolução dos Cravos aconteceu depois da tentativa de revolta efectuada no dia 16 de março do mesmo ano, ou seja, pouco mais de um mês antes.
Falhado o golpe de Estado, novo plano foi gizado, de novo fruto de uns irritantes insubordinados. E, já em cima do acontecimento final, a Revolução de Abril foi possível porque um alferes e depois um cabo se recusaram a cumprir as ordens de um superior hierárquico.
Daqui decorrem dois factos que deviam sempre ter lugar em toda a nossa narrativa pós-Abril, em todo o discurso democrático. A primeira é que o 25 de Abril aconteceu porque várias pessoas ousaram desobedecer. A segunda é que quem está acima de nós tem poder condicionado por (todos) nós. O que faz com que, se vivemos mesmo em democracia, o poder não pode nunca ser o poder de dominar, mas sim o poder de cooperar.
Se agradecemos o 25 de Abril, admitimos que a insurreição por vezes deve tomar lugar na existência humana, ainda que não seja ela um dos pilares da vida, mas sim, a luta contra a opressão.
É por isso que o 25 de Abril, se é uma lição, não é uma lição para mim, ou para o leitor, ou para os portugueses do século XX ou do século XXI. É uma lição para a Humanidade.
Por cada situação de opressão, a luta contra a mesma deve ser apresentada. Por todos aqueles que caminham na vida calcando outros, muitos mais se deverão erguer para os fazer tropeçar.
Esta luta pode ser silenciada, abalada, estrangulada, mas nunca deverá cessar. Porque se me dizem que é da natureza humana fazer vergar, eu digo que é da natureza humana quebrar a fasces (de onde vem a palavra fascismo), porque a “união faz a força”, mas a “força pela união” não deve ser a força para oprimir.

A liberdade acaba quando começa a dos outros“. Sempre torci o nariz a esta afirmação. Sim, pode-se compreender a ideia geral. Eu posso ir “até onde não estou a fazer mal a ninguém”. Mas faz-me lembrar os putos que andam com o dedo apontado a dois centímetros da testa uns dos outros enquanto gritam “O ar é de todos! Não me podes tocar!”.
Terá a criança invadido o espaço do outro? Terá ela violado a sua liberdade? Ficamos presos à ideia de que a liberdade é uma questão de competição pelas possibilidades de acção. Pior ainda, que somos inimigos da liberdade uns dos outros e que a liberdade de uns significa a falta de liberdade dos outros.
Mas reparemos. Socialmente falando, a nossa liberdade cessa quando eu quebro a liberdade dos outros. É quando eu vou contra o outro que eu deixo de ser livre. A minha liberdade acaba quando acaba a do outro. De igual modo, se o outro pode ser livre, então eu posso ser livre.
Filosofia à parte, se podemos tentar definir conceptualmente a liberdade, talvez não a possamos circunscrever com exactidão.
O que é que acontece quando uma sociedade aperta o cerco que separa aquilo que é permitido daquilo que configura um ataque à liberdade, e portanto merecedor de constrangimento da liberdade?

No regime que cessou há 50 anos havia um grau de liberdade.
Liberdade para viver dentro de um espectro limitado que não afrontasse a barreira erigida pela autoridade.
Liberdade para viver bem.
Liberdade para viver mal.
Liberdade para mandar calar.
Liberdade para estar calado.
Liberdade para viver num clima de medo.
Liberdade para falar e ser preso.
Liberdade para fazer greve.
Liberdade para disparar.
Liberdade para morrer (sim, chamavas-te Catarina).
Liberdade para delatar vizinhos.
Liberdade para ser Salazar. Liberdade para ser da PIDE. Liberdade para oprimir e liberdade para ser oprimido.
Hoje, temos liberdade para participar nas celebrações do 25 de Abril.
Temos liberdade para o desprezarmos subrepticiamente, mesmo usando um cravo na lapela (não nos venham a descobrir a careca no meio do povo!). Há coisas que nem o 25 de Abril conseguiu fazer desaparecer.

Os últimos resultados eleitorais mostram-nos que a democracia e a liberdade podem ser voláteis. Ou a democracia funciona bem, ou a democracia encarregar-se-á de se autodestruir.
A Revolução dos Cravos não nos deu o que de bom se conseguiu construir nos últimos 50 anos.
Deu-nos, isso sim, a liberdade para as poder construir. Do mesmo modo, não nos deu o que está mal construído.
O que temos de bom e o que temos de mau desde a Revolução de Abril é fruto do que fomos fazendo desde o dia 26 de Abril de 1974.

25 de abril sempre fascismo nunca mais
https://www.flickr.com/photos/66944824@N05/8766843938

Somos nós que temos de ser responsabilizados, ou nós que temos de responsabilizar alguém. Somos nós que temos de arregaçar mangas, para debater, para votar, para estudar, para compreender, para denunciar, para exigir, para fazer um golpe de Estado, para baralhar as cartas e voltar a dar.
Agora, somos livres para ser livres. Somos livres para escolher o que significa ser livre. Já temos 50 anos. Está na altura de assumirmos a maioridade.

Há 50 anos, até a senha utilizada para dar luz verde ao golpe de Estado era uma afronta ao regime.
Era uma canção com palavras subversivas, incendiárias, perigosas. Proibidas.
Ora vejam:

Grândola, vila morena/Terra da fraternidade/O povo é quem mais ordena/Dentro de ti, ó cidade
(…)
Em cada esquina um amigo/Em cada rosto igualdade/Grândola, vila morena/Terra da fraternidade
(…)
À sombra duma azinheira/Que já não sabia a idade/Jurei ter por companheira/Grândola a tua vontade

João Barreiro

 

 

 

 

 

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