Sábado, Maio 18, 2024
InícioCultura & lazerÀ conversa com Pedro Canavarro: Um homem livre e sem preconceitos

À conversa com Pedro Canavarro: Um homem livre e sem preconceitos

Entrevista com Pedro Canavarro que completa esta quinta-feira, dia 9 de maio, 87 anos. Uma celebração de uma vida cheia, dedicada à cultura, à história e ao património e também à educação, ao associativismo e à política.

Pode ver aqui a entrevista completa:

“A única coisa que fiz foi viver”, afirma-nos nesta entrevista em que recorda histórias da sua vida pessoal, como a assunção da homossexualidade nos anos 70, quando isso representou um enorme escândalo. “Fui sempre um homem livre e sem preconceitos”, sublinha. Da vida pública, destaca-se o seu papel na XVII Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura desdicada aos Descobrimentos Portugueses e ao renascimento, que foi a maior exposição de arte realizada em Portugal até 1983. Na sua passagem pelo Parlamento Europeu, viveu por dentro momentos marcantes da história moderna, como a queda do muro de Berlim, a libertação de Nelson Mandela ou a guerra na ex-Jugoslávia. Nesta conversa com o Mais Ribatejo, Pedro Canavarro revela-nos que tem um novo livro a sair em breve, “O Infinito à Cabeceira”.

Pedro Canavarro. Foto: João Baptista
Pedro Canavarro. Foto: João Baptista

87.º aniversário coincide com o Dia da Europa

Por concidência, Pedro Canavarro festeja o 87.º aniversário no Dia da Europa. Uma tema muito caro para Pedro Canavarro, que foi deputado no Parlamento Europeu de 1989 a 1991 pelo Partido Socialista e depois, de 1991 a 1994 pelo Partido Renovador Democrático, entretanto extinto, e de que foi líder.

“Ainda não decidi em quem vou votar nestas eleições europeias mas quero votar na juventude”

Veja aqui a primeira parte da entrevista:

A um mês das Eleições Europeias, Pedro Canavarro conta-nos nesta conversa que acompanha com interesse as notícias sobre a campanha. “Em quem vou votar, ainda não decidi, mas estou com interesse em votgar no mais novo, na juventude. Porque a Europa precisa de se renovar, e a renovação está ligada à juventude”.

A propósito de juventude e de Europa, recorda uma viagem que fez pela Europa com dois amigos, e quando visitaram a Alemanha, na cidade de Heidelberg, estava a realizar-se o primeiro curso de jovens para uma perspetiva do encontro entre nações europeias. “Tive a ideia de pedir para fazer esse curso de verão e com alguma surpresa – há 67 anos Portugal ainda não era membro da União Europeia – aceitaram-nos. Quem diria, que eu – tinha então 20 anos – passados uns 40 anos depois, estaria no Parlamento Europeu, depois de ter feito esse curso dedicado à construção europeia…”

No Parlamento Europeu, Pedro Canavarro recorda que fez parte da Comissão de Negócios Estrageiros, e nessa qualidade “viu ao vivo e a cores” acontecimentos e personagens marcantes da nossa história como a queda do Muro de Berlim, a libertação de Nelson Mandela ou a guerra na ex-Jugoslávia.

“Fui o 1.º cidadão europeu a concorrer num país estrangeiro”

Veja aqui a segunda parte da entrevista:

Pedro Canavarro foi o 1.º cidadão europeu a concorrer num outro país estrangeiro. Em 1994 foi ainda candidato independente às Eleições Europeias, em Itália.

Considera que a Europa vive um “momento interessante e também preocupante que vem do início do século XXI, marcado pela desinstitucionalização das instituições, ou seja fala-se com o fulano tal e não com o presidente da câmara. Uma consequência de acontecimentos marcamnytes foi foi o ataque às torres gémeas em Nova Iorque, a pandemia ou a guerra na Ucrânia que começou logo na idependência da Crimeia. Em especial a pandemia, teve consequências profundas, com as pessoas com medo a refugiarem-se em casa. Foi  um acontecimento à escala global que veio dar espaço para as autocracias, de extrema-direita, como é o caso de Putin na Rússia”.

Afirma que “vamos estar num período em que as políticas tradicionais, as áreas de influência dos diversos governos  estão completamente ultrapassadas, porque há necessidades cada vez mais globais a sere tidas em conta, as piopulações estão habituadas a ter medo e a obedecer, e aí as autocracias vêm dar respostas imediatistas a esses medos pelos extremismos”.

“O futuro, após as experiências autocráticas, que não podem ser muito longas, vai-nos obrigar a governanças globais e temáticas, a nível global, que são a soma de representantes de diversos governos, e isso será a forma de ultrapassar as autocracias”.

“Se tivesse sido eleito presidente da Câmara, Santarém seria hoje uma cidade diferente”

Veja aqui a terceira parte da entrevista:

Concorreu à Câmara de Santarém em 1984, não conseguiu ganhar a presidência a Ladislau Botas, mas foi eleito vereador, tendo depois renunciado face aos pelouros que foram atribuídos. Perguntamos-lhe: Se tivesse sido eleito presidente Santarém seria hoje uma cidade diferente?

“Havia muito a fazer na área dos jardins, que estavam na altura muito maltratados”, responde Pedro Canavarro, acrescentando “embora em Santarém não temos nenhum jardim digno desse nome, exceptuando este da minha casa em que nos encontramos, o que temos é espaços relvados com algumas flores salpicadas aqui e ali”.

Depois, “gostava de ter feito a requalificação e revitalização do centro histórico, projeto que fazia parte do nosso programa e que vinha muito na sequênciado trabalho que fizemos na Associação de Defesa do Património de Santarém que foi pioneira no país”.

“O património tem de estar ligado às pessoas”

Pedro Canavarro. Foto: João Baptista
Pedro Canavarro. Foto: João Baptista

“O nosso projeto consistia na recuperação do património da cidade – não numa perspetiva de criar um museu que continua a não existir – mas através dos monumentos, criar minimuseus que permitiam ao visitantes perceber a evolução da cidade ao longo dos séculos, através ndos próprios monumentos. Neste projeto, a recuperação do património estava associada em dar valor de cidadania às pessoas, pô-las a participar no projeto. Foi aqui que propus, sem acolhimento, quando Santarém se candidatou a Património Mundial e perdeu. Nunca me convidaram para essa comissão da candidatura liderada pela Câmara, porque era eurodeputado em Bruxelas, mas dei a minha opinião. Eu defendia que se um levantamento junto dos cidadãos, bairro a bairro, para saber o que as pessoas no seu bairro consideravam mais defensável. porque para uns pode ser uma igreja, para outros um fontenário, ou a casa caiada ou a árvore sob a qual deu o primeiro beijo à namorada, que é certamente muito mais importante do que a catedral gótica, pois o património né uma coisa vivida. Isso permitia uma candidatura de grande originalidade que era a cidadania a defender o valor histórico-patrimonial da cidade. Eu próprio fiz essa experiência e fiz a pergunta aos moradores sobre o que havia aqui a defender no património, desde a minha casa aqui nas Portas do Sol até ao largo do Terreirinho das Flores. Temos aqui o cabaceiro, o S. João do Alporão, o teatro Rosa Damasceno, etc. mas as pessoas disseram que o que havia a defender eram as olaias da avenida”.

Portanto, para Pedro Canavarro, a candidatura tinha tudo para correr mal e acabou por ser chumbada. Estava tudo mal na candidatura, só havia a investigação histórica de Jorge Custódio que foi publicada em livro.

A XVII Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura

Pedro Canavarro
Pedro Canavarro

Nesta entrevista, Pedro Canavarro fala-nos também do seu trabalho como comissário da 17.ª Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura, a mais importante exposição de grandes dimensões realizada em Lisboa, em 1983, sobre o tema: Os descobrimentos portugueses e a Europa do Renascimento.

Iniciativa do Conselho da Europa, a exposição deixou efeitos duradouros, como a reconstrução da Casa dos Bicos, que foi destruída pelo Terramoto de 1755.
Também a Torre de Belém foi na altura submetida a profundas obras de restauro e adaptação à exposição e no mesmo ano, passou a integrar a lista do Património Mundial, da Unesco.

Pedro Canavarro recorda os episódios à volta da organização desta exposição, a começar pelo convite pelo então secretário de Estado da Cultura, Vasco Pulido Valente, e a “gratificação” que recebeu do Governo por ter feito a maior exposição de arte em Portugal.

“Ser livre é ser íntegro”

Veja aqui a quarta parte da entrevista:

Pedro Canavarro afirma-se um homem livre e despido de preconceitos. “Ser-se livre é ser-se íntegro. Foi isso que me levou a divorciar-me – uma questão de integridade. Em 1977 tinha descoberto a sexualidade também masculina e perante essa situação decidi sair de casa e divorciar-me. Na altura foi um escândalo horrível, as famílias cortaram, amigos também, alguns a olhar de banda, e eu que tinha acabado de reconstruir uma casa fantástica em Lisboa, decidi regressar a esta casa em Santarém. A minha mãe estava viúva e adorava-me. Aqueles anos devem ter sido os mais divertidos da vida dela, com os condidados que eu trazia”.

“Natália Correia não gostava de criancinhas e levou um beliscão da minha filha”

Recorda ainda histórias do convívio e da amizade com a poeta Natália Correia. Durante alguns anos ela costumava vir ao Festival Internacional de Cinema e ficava aqui em casa com a sua corte o que se tornava difícil de gerir. Os meus filhos eram pequenos, viam-na na televisão e queriam conhecê-la, mas ela não suportava criancinhas. Num desses festivais, fizemos aqui um jantar e eu disse aos meus filhos que eles tinham de jantar antes, porque estava cá a Natália. Mas por isnistência deles, depois pedi à Natália se ela não se importava de deixar entrar as crianças só para as cumprimentar. Ela acedeu, sublinhando que era uma exceção por serem meus filhos, e então o António e a Maria vieram à sala, cumprimentaram a poeta e sairam. Continuámos a jantar e já no final, a Natália dá um grito – Ai! Todos ficámos a perguntar o que tinha acontecido. Morderam-me a minha perna! Tu tens cães?! Não, não tenho nennhum cão, respondi. Então, só pode ter sido uma horrível criancinha! concluíu ela. De facto, foi a minha filha Maria que se meteu debaixo da mesa e deu-lhe um beliscão na perna.

Deixar a Academia de Belas Artes e regressar à casa

Quando completei os 85 anos, tive de decidir o meu último acto, que me custou, mas que deivia fazer para tomar essa atitude de recolher á casa e saber aproveitar o silêncio. Decidi então deixar o meu lugar efetivo na Academia de Belas Artes que ocupava desde 2012, ano em que fui eleito. A Academia foi criada por Psssos Manuel com 20 lugares efetivos para académicos, número que se mantém ainda hoje, e o meu lugar era o n.º 5 que ficou livre para outros mais novos”.

O antifritão da Casa-Museu

Pedro Canavarro. Foto: João Baptista
Pedro Canavarro. Foto: João Baptista

“A determinada altura da minha vida, achei que devia dar a conhecer esta casa ao público. É uma casa única que continua a atrair pessoas de todo o mundo e para Santarém é muito importante, porque Santarém é uma cidade riquíssima em património, mas praticamente só tem edifícios religiosos, pelo que estava casa assume muita importância para Santarém”, afirma. C0onsidera que esta casa-museu “é um ponto de partida importante para o turismo em Santarém, e com a particularidade do proprietário estar vivo e servir de guia aos visitantes”. Uma visita imperdível, portanto.

“O Infinito à Cabeceira” – novo livro ainda este ano

Pode ouvir a entrevista completa no podcast.

Pedro Canavarro está a concluir um novo livro que já tem título: “O Infinito à Cabeceira”. E a capa também está decidida: um oito deitado, símbolo do infinito.

A lançar provavelmente em novembro, o novo livro é um “reencontro consigo próprio, com pensamentos e pequenas histórias”. Nesta entrevista, revela em primeira mão alguns trechos do novo livro.

 

 

 

 

banner-complexo-aquático

Deixe o seu comentário

por favor, escreva o seu comentário
Por favor, escreva aqui o seu nome

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Também pode ler

Subscreva a newsletter

Receba as notícias do dia do jornal Mais Ribatejo diretamente na sua caixa de email.

banner-concerto-fazendas-almeirim

Artigos recentes

Comentários recentes

pub
banner-união-freguesias-cidade-santarem
spot_img
Fechar