Sábado, Maio 18, 2024
InícioOpiniãoManipulação política e fragmentação social: O papel do Chega em Portugal

Manipulação política e fragmentação social: O papel do Chega em Portugal

André Ventura, líder do Partido Chega, afirmou que o seu partido apresentará uma moção de censura ao Governo caso Luís Montenegro, avance com alguma forma de compensação às antigas colónias portuguesas. Esta declaração foi feita após o Presidente da República, durante um jantar com correspondentes estrangeiros, ter defendido que Portugal deve assumir a responsabilidade pelos atos cometidos durante o período colonial e compensar os danos causados.

Ventura considera que qualquer compensação às ex-colónias seria uma desonra à História de Portugal e violaria os deveres do Governo e do Presidente para com o país.

André Ventura e os seus juristas consideraram a viabilidade legal de uma queixa-crime contra o Presidente, contudo especialistas em Direito Penal entendem ser improvável que tal acusação seja bem-sucedida, já que o crime de traição à pátria exige atos que ameacem a integridade territorial ou a soberania nacional, o que não foi o caso das declarações de Marcelo Rebelo de Sousa.

O comportamento de André Ventura, ao ameaçar avançar com uma queixa-crime por traição à pátria contra o Presidente da República, denota uma estratégia política oportunista e propagandística, especialmente tendo em conta a proximidade das eleições europeias. É relevante salientar que o Chega, tal como outros partidos de extrema-direita, não se posiciona a favor da Europa, pelo contrário, o Chega integrará a bancada dos eurocéticos.

discurso ódio
Imagem: Depositphotos

Esta atitude parece ser mais uma tentativa de capitalizar em torno de questões polémicas do que um esforço genuíno para resolver os problemas estruturais do país.

Ao focar em temas sensíveis como a compensação às ex-colónias e a suposta traição à pátria, Ventura parece estar a tentar alimentar o discurso da divisão e do ressentimento, em vez de promover um debate construtivo e orientado para soluções.

Esta abordagem não só desvia a atenção dos problemas reais que Portugal enfrenta, como também pode alimentar sentimentos de ódio e racismo na sociedade (veja-se o que sucedeu com os imigrantes magrebinos no Porto).

Por outro lado, a tentativa do Chega de associar questões como imigração a um aumento de criminalidade no país é desonesta e perigosa. Os dados estatísticos (basta consultar o Relatório Anual de Segurança Interna) mostram que o aumento da violência não está relacionado com os imigrantes, aliás, uma das justificações para este aumento de criminalidade são os crimes contra estes, como o tráfico de seres humanos.

Portanto, usar essas questões para inflamar os ânimos e legitimar comportamentos discriminatórios é irresponsável e prejudicial para a coesão social.

Por outro lado, é inquietante constatar como o partido Chega, em vez de apresentar soluções eficazes para os reais desafios de Portugal, prefere explorar esses sentimentos negativos, contribuindo para uma sociedade cada vez mais polarizada e fragmentada.

Infelizmente, é preocupante observar como este tipo de discurso desonesto consegue angariar apoio entre as massas, legitimando sentimentos de ódio, preconceito e intolerância, onde se observa que uma parcela da sociedade que, influenciada (ou não) por esse discurso manipulador, agora se sente validada nas suas visões extremistas.

É alarmante perceber que o Partido Chega, longe de ser apenas um canal para os descontentes com o sistema, parece estar a alimentar-se e a tirar proveito desses sentimentos negativos.

Este fenómeno é preocupante, pois mostra como o discurso de ódio pode prosperar em períodos de incerteza e divisão, tal como em épocas históricas anteriores. Isso sugere que, se não tirarmos lições do passado, o mundo poderá estar condenado a repetir ciclos destrutivos, que não só falham em resolver os verdadeiros problemas, como também agrava as divisões, arrastando a sociedade para um círculo vicioso de conflitos e retrocessos.

Catarina Sirgado Santos

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