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Democracia. Demogragia. Demagogia.

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Imagem: needpix.com

Uma nota, depois do último artigo, sobre o 25 de Abril. A Revolução dos Cravos não é responsável pela condição da saúde democrática que temos em Portugal.
Tudo o que possamos objectar à qualidade da nossa democracia (e temos muitas razões para isso) encontra o alvo pós-25 de Abril até ao dia de hoje.
Claro que, como os acontecimentos da História podem ser lidos como consequência, há no 25 de Abril uma responsabilidade indirecta no estado actual da democracia portuguesa. Obviamente.
Mas parece-me claro que, se a meta a atingir é (será?) uma democracia saudável, então temos vantagem sobre a ditadura! Seria bom que isto fosse ponto assente.

A democracia é tida como o “poder do povo”, o “governo do povo”. No seu original grego, este “povo” pode ser lido quer como todas as pessoas, quer como povo enquanto a camada socialmente mais desfavorecida de uma população, os pobres.
Ambos os casos contrastariam com a aristocracia, o “governo dos melhores”, em que os “melhores” seriam os mais capazes moral e intelectualmente para decidir os destinos da sociedade, ou aristocracia num sentido mais tardio do termo, de um governo de uma elite, de um grupo restrito, da camada “de cima”, os ricos.
A demagogia entende-se como “liderança do povo” (no sentido de liderar o povo, não no sentido de ser o povo a liderar), ou “condução do povo”, tal como, por exemplo, pedagogia se refere à “condução da criança”.
Acontece que já na Grécia Antiga esta palavra vinha a ser associada à corrupção da democracia e ao acto de ludibriar a população com fins “democraticamente indesejáveis”.
Infelizmente, acontece também que, no berço da democracia, apenas (entre outros aspectos) os homens atenienses com mais de 30 anos tinham voz. Escravos, mulheres e estrangeiros não contavam.

A nossa ideia de democracia evoluiu ao longo dos tempos. Apesar das melhorias, aquilo que consideramos a pedra angular da democracia representativa – o voto – continua a ter restrições.
Não cabe aqui determinar a boa ou má evolução da democracia, mas sim a consideração de que, se vemos positivamente esta evolução, admitimos que o sistema foi melhorando. Assim, por que não acreditar que pode melhorar ainda mais?
Seja por conhecimento da História, seja por experiência pessoal, sabemos que há seres humanos apostados em dominar, controlar, oprimir os outros (e até o mais pacifista dos humanos tem pulsões violentas!).
Se esta é parte da natureza humana, então é insensato, perigoso até, crer que a democracia está numa redoma de vidro que a torna imune ao perigo da demagogia.
Será mais prudente jogar com a consciência de que democracia e demagogia andam de mãos dadas (Aristóteles apelidava de demagogia aquilo que hoje chamamos de democracia!), até ao advento da democracia perfeita que, já dizia Rousseau, não existe.

Assim, vemos que os ataques à democracia podem vir de dentro da própria democracia. Quem é que, neste tempo de pós-verdade, desinformação e contrainformação, pode saber onde assentar os pés?
E não falo apenas das aparentes vontades autocráticas. Há mais interesses obscuros que pretendem explorar o povo do que apenas as ditaduras “às claras”. Todos os seus defensores se declaram democráticos, pois os demagogos do “lado” da “democracia” atiram esses interesses para o lado da autocracia.
Vivemos num mundo incrivelmente plural, mas só temos democracias e autocracias.
Felizmente, em democracias, “o povo é quem mais ordena”, inclusive quando passa por privações.
Tudo o que possa ser digno de plutocracias, cleptocracias e oligarquias patentes, é atirado para o lado das autocracias.
O resto, o que dá para esconder e fintar, fica aconchegadinho do lado da democracia.

Acabei o último artigo a dizer que os últimos resultados eleitorais nos mostram que a democracia pode ser volátil.
Não creio que o problema da nossa democracia sejam os cinquenta deputados do Chega, mas sim as razões que levaram à eleição desses deputados.
Em primeiro lugar, quer se queira ou não, foi a democracia a funcionar (nos moldes em que a temos). Se a demagogia serve para encher as fileiras do Chega, qualquer outro partido goza da mesma possibilidade.
Em segundo lugar, façamos uma análise geral.
Como pode a democracia resistir perante todos os casos e casinhos, toda a apropriação indevida de dinheiros públicos, todos os desvios e abusos de poder, todos os problemas na saúde, na educação, na habitação, no custo de vida..?
Como pode a democracia ser de tal apelidada quando o sistema eleitoral é decidido por uns e não por todos?
Este problema, como já abordei recentemente, é um problema de base, porque a democracia pode ser representativa por questões práticas, mas a decisão sobre o modo como ela é representativa não pode ser só de alguns, sob pena de tal situação corromper todo o sistema desde a base.
Desse modo, teremos uma aristocracia a decidir os moldes da democracia. Só o povo deve poder decidir os moldes em que quer que a democracia funcione!
Ora, apesar das propostas recentes de partidos pequenos para alterar o sistema eleitoral, assistimos ao PS e ao PSD, os maiores beneficiários do sistema vigente, a acusar os pequenos de quererem “ganhos de secretaria”! Algo está podre no reino da Dinamarca.

Vivemos uma dupla tragédia.
Por um lado, temos um centrão político que parece mais preocupado em clamar “democracia e liberdade” e apontar o dedo aos inimigos, do que a resolver os problemas do país (fossem eles capazes..).
Por outro lado, temos uma parte significativa da população que pelos vistos se mostra exasperada com a democracia e a liberdade (e/ou com aqueles que falam em nome delas) e olham para o dedo acusatório do centrão como aquele que aponta a salvação! Veja-se a sondagem de há umas semanas que apontava 47% dos inquiridos como aceitando um possível líder forte, mesmo sem eleições.
Não é possível aguentar em perpétuo estado de quase-corrupção, quase-crime, quase-megaescândalo, que desemboca em cidadãos ilibados de toda a mácula que sobre eles recaía.
Tal imbróglio é mais uma acha para a fogueira da desconfiança popular. Para compôr a peça, a verdade é que é o poder político que decide as leis, os caminhos, os trâmites através os quais a Justiça actua!!
Infelizmente, algo vai terrivelmente podre no reino da Dinamarca.
Partamos do princípio que nem todos os políticos são corruptos, sim, mas admitamos francamente que o poder acarreta a possibilidade de corrupção.

Olhemos para a nossa percentagem de pobreza. Olhemos para um dado tão absurdo como, na União Europeia e no séc. XXI, ter de usar o subsídio de férias para compensar os baixos salários.
Se estamos piores do que podíamos estar (sublinho, do que podíamos estar, não me venham depois acusar de não considerar a “conjuntura” que salva todos os políticos), então ou há incompetência, ou há corrupção (ainda que apenas moral e não necessariamente legal), ou a democracia não é o melhor regime.
Duvido que estejamos a falar de incompetência na maioríssima parte dos políticos que por cá passam.
Não acredito que vivamos naquilo que é o ideal de democracia. Felizmente para o meu argumento, Portugal nem sequer é reconhecido como “democracia plena” mas sim como “democracia com falhas” pelo Democracy Index do The Economist (entre outros).
Mas acredito que a democracia (a chegarmos a esse ideal) é o regime que permite que todos, em conjunto, tomem as rédeas do seu destino comum, embora esse ideal seja igualmente almejado por outras formas de política com outros nomes.
Então, se não se trata de incompetência nem problema de regime, sei onde apostar as minhas fichas. E não o digo para atacar a classe política.
A demagogia não é crime. O nacionalismo não é crime. A opção política por uma economia predadora não é crime. Pudera, essa mesma economia predadora não é crime.
Tal como eu não gozo da verdade absoluta em relação a este último tema (para mim é claríssimo, mas para outros não), não é possível averiguar com certeza absoluta o que é demagogia ou o que é corrupção moral, ou se são ou não a mesma coisa. Tal como dizia Hannah Arendt, a política tem este carácter, ser demagoga.
De “condução do povo” em “condução do povo”, com boas ou más intenções, vamos moldando a nossa sociedade e o que temos por aceitável ou não.

Que solução temos?
Se vivemos numa democracia, perfeita ou com falhas, somos todos políticos. Mostremos que somos dignos do poder que colectivamente temos. Caso contrário, seremos fantoches nas mãos de outros.
Escravos da demagogia, levados a que nos digam o que é melhor e como devemos usar o pouco poder que temos.
Sim, o caminho nunca será fácil.
E para as mulheres que em tempos nem podiam votar?
Para as vítimas de violência doméstica?
Para os negros que marcharam de Selma até Montgomery?
Para os judeus que tinham uma miríade de regras discriminatórias a cumprir?
Para os palestinos massacrados hoje no seu território?
Não será fácil, nunca foi fácil.

Sejamos políticos. Estejamos engajados nos destinos da nossa vida comum. Continuemos na mesa das decisões na hora de considerar o que é para nós ver o ser humano como ser social.
Este é o nosso planeta. Não temos outro.
Esta é a nossa comunidade global humana. Não temos outra.

João Barreiro

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