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Leituras inextinguíveis (122): É necessário que eu esteja vivo, e ver depois, em fulgor, que tenho de morrer

Compreende-se as razões que levam às sucessivas reedições do romance Aparição, de Vergílio Ferreira. Não é uma narrativa dominada por filosofia existencialista, mas possui uma dimensão dos porquês da existência, o questionamento inquietante da criação da pessoa e do seu destino; dá-nos uma atmosfera de Évora e o enigma da sua atração como porventura nenhuma outra obra de ficção superou; e temos um cenário um tanto aparentado com certa tragédia grega onde se atravessam vidas que nos permitem hoje refletir o que era a mistura da moral do Estado Novo com sociedades saídas ou orientadas por uma certa mentalidade agrária que caracterizava o Alentejo de então.

Vergílio Ferreira
Vergílio Ferreira

Alberto é professor de liceu e foi colocado em Évora. Vai viver na pensão do sr. Machado, assim começam as memórias que dão a este romance, todo ele escrito no silêncio da noite, muitos anos depois. Como um relâmpago, impõe-se a morte fulminante do seu pai, num dia de festa rodeado da mulher, dos filhos e dos netos. Alberto apresenta-se no liceu, ali perto do Templo de Diana, apresenta-se ao reitor. Irá conhecer o Dr. Moura, foi amigo do seu pai, encontram-se, Moura que é medico avisa-o que vai custar-lhe a adaptar-se, ali é tudo muito diferente, conhecerá o meio familiar deste Dr. Moura, as filhas e um genro patusco, Alfredo. Alberto, professor de Português e Latim, é convidado a ajudar uma das filhas do Dr. Moura, que parece pouco prendada para o latim, Sofia, irão estabelecer uma relação dificílima, de amor e repulsa. E é nisto que Vergílio Ferreira abre o pano da cena sobre o drama existencial:

Tinha um problema: justificar a vida em face da inverosimilhança da morte e nunca mais até hoje eu soube inventar outro. Nada mais há na vida do que beber até ao fim o vinho da iluminação e renascer outra vez. Riqueza ou miséria, ciência, glória, vexame, e a política e até à arte para tantos artistas, conhecimentos do homem no corpo e no espírito – quantos modos de esquecer ou de não saber ainda o pequeno problema fundamental. Mas o que é extraordinário e me exaspera é que eu próprio tenha precisado de uma vida inteira para o saber. E quantas vezes agora o esqueço? O mais forte em nós é esta voz mineral, de fósseis, de pedras, de esquecimento. Quando eu procuro em mim a fase original da minha presença no mundo, o que descubro não é o alarme da evidência, o prodígio angustioso da minha condição: o que descubro quase sempre é a indiferença bruta de uma coisa entre coisas. Eis-me procurando a verdade primitiva de mim, verdade não contaminada ainda da indiferença.

Estamos em Évora, Alberto dá lições a Sofia, parecem diálogos paradoxais, deles emana, latente, uma tensão, a jovem parece escarnecer das inquietações do explicador. Há também Chico, um engenheiro, incitador de conversa, e há Carolino, um jovem cheio de espinhas na cara e uma grande vontade de fazer perguntas. Está ali uma sociedade em que cada um ocupa o seu lugar, há comentários envenenados, as preocupações de Alberto são às vezes comentadas com chacota. Sofia parece que tenta a aproximação e depois afasta-se; há uma criança lá em casa do Dr. Moura, a filha mais nova, tem fascínio pelo piano; há uma outra filha, de nome Ana, chega a fazer comentários hostis a Alberto, vê-se que a sua relação com Alfredo, um lavrador de linguagem desbocada, é constrangedora. Esta gente, da classe média-alta, dissimula-se nas aparências, gosta de ver Alberto a perorar, encaram-nos como um original.

Com domínio perfeito com uma narrativa que se deve encaminhar para a tragédia, o escritor vai entrelaçando a vida desta gente, mesmo quando faz pausas para que Alberto volte ao seu meio familiar, a mãe está muito doente e os irmãos ávidos pelas partilhas, mesmo com os irmãos ele procura comunicar sobre a evidência ácida do milagre da vida, daquela necessidade em que estamos vivos e sabemos de antemão que haverá um dia em que a morte nos toma.

É depois desta visita que Alberto regressa a Évora, muda de habitação, há reencontros com os membros da família do Dr. Moura, Sofia parece estar muito próxima do Carolino, o reitor lembra a Alberto que não deve dar lições particulares, é preciso ter cuidado com os inimigos, há gente maldosa que lhe insinuam situações escabrosas, Alberto descobre que toda a gente cuida das aparências, gostando de transgredir, mas sempre com movimentos de enguias.

Todos entraram no curro de uma tragédia, mesmo quando Sofia confessa que despreza Carolino, mesmo quando Ana está cada vez mais incomodada com os comentários por vezes alarves do marido. O cenário da tragédia é uma festa, vão lá praticamente todos, no regresso o carro de Ana derrapa e morre esse anjo que tocava tão delicadamente piano, a vida de todos está modificada, retoma-se a questão existencial, cabe sempre a Alberto o espetáculo da fala:

Um ato de presença não se define, não cabe nas palavras. SOU. Jato de mim próprio, intimidade comigo, eu, pessoa que é em mim, absurda necessidade de ser, intensidade absoluta do limiar da minha aparição em mim, esta coisa que sou eu, esta individualidade que não quero apenas ver de fora como num espelho mas sentir, ver no seu próprio estar sendo, este irredutível e necessário e absurdo clarão que sou eu e iluminando-me, esta categórica afirmação de ser que não consegue imaginar o ter nascido, porque o que eu sou não tem limites no puro ato de estar sendo, esta evidência que me aterra quando um raio da sua luz emerge da espessura que me cobre.”

Uma tragédia nunca vem só. Morreu o anjo, a menina Cristina. Alberto e Sofia reencontram-se, Carolino anda por ali desnorteado, Ana vive num grande sofrimento depois daquele desastre que lhe morreu a irmã. Chico é agressivo com Alberto, considera que este é má influência para Ana. E tudo culmina noutro desfecho trágico, agora a atmosfera é tanto de tragédia grega como de ópera, terá havido uma cena de ciúmes em que Sofia voltou a repudiar Carolino, este assassina-a. Alberto abandona Évora e vai para Faro. Os anos passaram. O romance é imperativo do conteúdo e da forma, termina, muitos anos depois, está agora escrito, com a mesma inquietação de sempre, a aparição é o deslumbramento de descobrir que o motor nos impele a viver e também a reconhecer que temos de morrer, como Alberto se vai despedir:

“A minha verdade é o que me sobeja de tudo. Quantos anos ainda a espero? O meu futuro é este instante desértico e apaziguado. O tempo não passa por mim: é de mim que ele parte, sou eu o centro, vibrando. Sou agora irremediável como a absurdez de uma pedra, como uma obstinação.

A literatura deu muitas voltas e até o percurso filosófico do autor conheceu novos caminhos. Mas este destino e a insatisfação diante do visível, a nossa condição humana, por incrível que pareça a alguns, faz parte das inquietações que acompanham a humanidade.

Daí a esplêndida intemporalidade que fulge desta obra emblemática, primorosamente escrita.

Mário Beja Santos

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