Sexta-feira, Julho 12, 2024
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A erosão do Bem-comum na Europa, vamos saber como e porquê – por Carlos Macedo

A minha previsão antes das eleições do Parlamento Europeu… e a realidade

A existência dos seres humanos consiste num acumular de memórias, boas e más. Mas mal andaremos nós, se a limitarmos a elas, sem abrirmos novos rumos de vida, novas vias de compreensão e ação para os anos que aí vêm.

Por exemplo, segundo Sophie Kauffmann[1], vamos ter, na Europa, um parlamento dinamite.

Em França (a que reivindica o primado das “revoluções democráticas“), o partido que se orgulha de ter tido chefes do nível de Charles de Gaulle a Jacques Chirac (LR), só atrai 8% dos eleitores…

No Reino Unido, terra ancestral de Trabalhistas e Conservadores, estes dois partidos pouco pesam já na opinião dos eleitores (voto por hábito ou inércia)… mas o sociopata Donald Trump elogia profusamente Nigel Farage[2] ;  diz esperar que venha a ser o primeiro-ministro do rei Carlos, assim como põe nas nuvens o patético Boris Johnson (que quer – como foi seja líder dos conservadores).

A extrema-direita, suportada por formas e métodos mais perigosos e eficazes de fascismo que os de Mussolini ou Hitler, reina já em Itália Com os Fratelli d’Italia no poder), na Polónia e domina, como primeiro partido, nas sondagens, na França, Noruega, Inglaterra, Roménia, Áustria e mais um ou outro país da União europeia…

Uma coisa é certa.

O novo Parlamento europeu não irá mais ser regido pela velha fórmula Conservadores / Sociais democratas; direita / esquerda; tories e whigs; neogaullistas e socialistas. Isso acabou. O “Chega” português poderá estar lá em força.

Os novos grandes partidos emergentes

Durante mais de um século e meio, sobre rótulos comerciais diferentes, designações e lugares-comuns, que se misturavam com rituais e grupos sociais de apoio diversos, eram dois os pilares sobre os quais se estruturava a vida política.

Sem programa sequer, nem ideologia primária; ou o ultraliberalismo sem peias (menos Estado, melhor estado…”Iniciativa Liberal” que o diga) ou o fascismo sem inúteis travesti.

Acrescem mais dois deuses emergentes, instrumentais na obtenção (bem enquadrada e financiada) da subserviência das classes médias e dos estratos industriais do proletariado (como paliativo do seu crescente e imparável declínio económico e social). Pouco a pouco, a realidade vai mudando.

Se os quisessem derrotar, diziam os pensadores do “bloco central”, tinham de ser concebidas novas estratégias ou ressuscitar algumas, que se pensavam mortas e enterradas por desnecessárias.

Para isso, havia que fazer crer que as derivas populistas e violentas dos novos fascismos eram más para a imagem do capital, não rentáveis, mas pesavam muito pouco em parlamentos e governos (eram Dobberman, sem peso nem infiltração real na sociedade de consumo).

Mas o que fizeram os Musk, Vinci, as grandes transnacionais, Monsanto, Bayer, Bilderberg, TESCO, G-20? Manipularam a cem por cento nas suas notícias mais inquietantes, as facetas mais negras da imprensa, televisão, Net. Encorajaram a inércia, adormeceram críticas, manipularam Twitters e TVs no travesseiro dos interesses pelo “sossego e estabilidade governativa”.

Se algo irreparável surgisse, surgiriam sempre circunspectos comentadores e académicos para explicar que não haveria perigo, apenas folclore “populista”.

Enquanto, na realidade, já floresciam e governavam mesmo partidos desse tipo: na Hungria, Áustria, França, Suécia, Eslováquia, Estónia, Noruega, Polónia e Reino Unido.

Depois do irreparável, é fácil fazer de Sibila. Só que a doença existe e é, por ora, incurável.

Dos integrismos religiosos (e não só o do Islão) aos antigos combatentes (há sempre uma guerra anterior, com o seu cortejo de vinganças a fazer, ódios profundos, revanches, saldos não pagos, forrados de fel  e ódio…); da classe operária ou de uma pequena burguesia gilet jaune, exangue, envelhecida, dos habitantes da zonas industriais deslocalizadas (para a Índia, Bangladesh, África) ou já da Europa, relegados para as periferias de renda barata, para um forçado convívio com imigrantes, com que entram de imediato em choque (eles aceitam salários mais baixos), guardas pretorianas entusiastas e combativas que, até no futebol. sobejam e conspiram e agridem.

Erodidas sempre as reformas e vencimentos, destroçados os termos das qualificações, no ensino, dos SNS, o ódio aos migrantes e a clivagem social são certos. Eles trabalham barato, mas podem ser ladrões de empregos que ninguém quer…

Contemplando este quadro, há um sindicalismo em deliquescência, líderes que morrem, sem deixar sucessores à altura; o efémero placebo gladiador circense das claques de futebol e discotecas, os eventos promocionais. O terreno está aberto.

As minorias que servirão de bode expiatório podem variar. Não variam a xenofobia acéfala, os preconceitos baseados em mitos rançosos, a ideia de que se pertence a uma “raça” espoliada, roubada, humilhada.

Aumenta, e depressa, um imenso grupo de “dispensáveis“: reformados pobres, doentes sem recursos, não qualificados, sobretudo emigrantes.

Todos explorados por uma multibilionária minoria de poderosos, em concentração segura e constante de riqueza, em parte partilhada (com migalhas) por outra minoria (políticos, comunicação social, criadores de eventos, juízes e advogados, gente do marketing).

Enquanto isso, os partidos políticos clássicos continuam a descaracterizar-se, tentando imitar os fascistas (má cópia de um excelente original, já foi dito…), a perder peso, os movimentos sociais e sindicatos, a perderem influência e sentido.

Com um consumismo induzido (verdadeira necessidade vital), desinteresse por ideologias ou religiões[3], já não se distinguem “os de cima e os de baixo“, mas sim os winners e os losers, criando a estes o sentimento de que são párias, que vivem “por favor”.

Ao que acresce, dia após dia, o veneno da solidão, um vazio aterrador de espaços de contacto social. E que, mal ou bem, era em grande parte preenchido por “identidades” de base ideológica, religiosa, comunitária.

O vazio cultural crescente, molda os jovens, geração após geração, encarniça-se em os tornar frívolos, promíscuos e fúteis, narcisos, para os quais pensar lucidamente é redundante, patético e até prejudicial à sua maneira de ganhar mais, ter mais poder sobre todos os outros.

Daí que menos importante do que discorrer sobre se caminhamos para um fascismo pan-europeu ou mundial, parece-me essencial analisar (com toda a sensatez ainda possível) se o verdadeiro perigo deste ultraliberalismo fascizante ou soberanista consiste, por medo de perder votos, fazer aderir a soluções e princípios da extrema-direita, largas frações de partidos que até votaram há pouco de forma democrática. E aí, penso que o “Iniciativa Liberal” será muito mais perigoso para Portugal que o “Chega”…

Os Gepetos que movem os cordelinhos de Trump, Bolsonaro ou Órban, fazem surgir novos partidos (Cinque Stelle, Rassemblement National, Vox, Jobbik, Brexit Express, Fratelli D’Italia, Boogaloo), sem mensagem ou programa, sem objetivos, até que os genuínos mentores do fascismo (Marine, Bannon, etc.) sejam aceites como mal menor.

O pedido de mais autoridade para a polícia, a xenofobia, o ódio ao migrante, “inimigo no interior“, a debilidade mental dos argumentos, a habituação animal aos horrores do ato terrorista, já não se limitam aos feudos da dita “extrema-direita“. E é esse o maior mal. Descemos a um ponto de uma problemática resposta (os BRIC).

Carlos Macedo

[1] Francesa nascida em Marselha, em 1955, é atualmente, Chefe editorial de redação do “Le Monde” e colaboradora permanente do “New York Times”.

[2] Brexit Party, depois de criar e dirigir outro partido, o United Kingdom British Party, ambos de extrema-direita.

[3] Adiante, noutra “nótula aos amigos”,  falarei das minorias fanáticas e terroristas de base religiosa.

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