Terça-feira, Julho 16, 2024
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Leituras inextinguíveis (123): Kafkiano, abstruso, absurdo, mas a suprema imaginação de Kafka é o nosso mundo – 2

Vimos no texto anterior como a obra de ficção de Kafka é um espelho de desadaptação, de uma quase anomia, mas também um espelho refletor da personalidade deste gigante da literatura, sofredor de um desenraizamento ou ambiguidade religiosa e cultural, de uma sexualidade recalcada, e daí as situações grotescas a que as personagens das suas obras são sujeitas, irremediavelmente sem saída. Na obra em apreço, O Processo, já vimos como um gerente bancário, Josef K., se vê envolvido numa acusação face à qual nenhum dos intervenientes da justiça, advogados ou outros acusados, lhe apresenta uma razão plausível que justifique ou dê razões para ele se sentir culpado. Depois de sucessivas incursões, interrogatórios, conversas com o seu advogado, haverá por sugestão de um cliente do banco a visita a um artista que pintava retratos a óleo de juízes, é neste ambiente memorável que K.  se apercebe da sinuosidade da trama judicial, parece haver uma permanente penitência entre a culpa e a absolvição. Desconsertado com o papel dos advogados, K. dirige-se a casa do dr. Huld, que nomeara ser seu advogado, para o informar da dispensa do seu serviço. É nesta atmosfera absurda que K. irá conhecer o comerciante Block, outro cliente do seu advogado, aparece a criada do dr. Huld, há para ali uma cena de leviandade erótica, é um dos momentos mais grotescos do romance.

capa livro processo kafka

Mas quem é o comerciante Block? É um negociante de cereais, tem um processo pendente há muito mais de cinco anos, pedindo segredo a K., anuncia-lhe que tem outros advogados para além do dr. Huld. Block tem a sua própria opinião sobre os absurdos da justiça:

“O senhor tem de tomar em consideração neste procedimento judicial que se fala repetidas vezes de muitas coisas para cuja compreensão, a determinada altura, a razão se torna insuficiente. Uma das superstições, por exemplo, consiste em acreditar que através da observação do rosto do acusado e em especial do desenho dos lábios se adivinha o resultado do processo. Acho tal superstição ridícula.” E há o pesadelo dos requerimentos, Block descobriu que não tinham servido para nada; quanto ao progresso dos processos, raramente se podem ver progressos, esta justiça funciona num universo de pequenos e grandes advogados, parece que o segredo é a alma do negócio. K. tem curiosidade em saber o que distingue os grandes dos pequenos, Leni, a empregada intervém, manda Block descansar, segue-se a conversa de K. com o dr. Huld, depois de uma intensa diatribe sobre a evolução do processo, Block é chamado à presença dos dois, o comerciante prostra-se diante do seu advogado docilmente, é a personificação de um homem indefeso, manietado pelos labirintos da justiça.

Novo capítulo, K. foi encarregue de mostrar alguns monumentos artísticos a um correspondente italiano muito importante para o banco, prepara-se para a tarefa, vai até à catedral, aparece-lhe imprevistamente um padre, lembra a K. que é um homem acusado, K. diz-lhe energicamente de que não era culpado de coisas nenhuma, o padre diz-lhe que ele anda enganado a respeito do tribunal, tece uma nova perlengada sobre as interpretações dispares da lei. Derradeiro capítulo, na véspera do seu trigésimo primeiro aniversário, dois homens vieram a casa de K., este maltrata-os, chama-lhes atores teatrais de baixa categoria, depois saem todos, terá lugar uma execução para a qual K. já está predisposto, como se a desejasse intensamente, um dos executores espeta-lhe uma faca, fica-se com a sensação de que K. morre aliviado, fartara-se daquele horrível processo em que, em nenhuma circunstância, alguém lhe tinha explicado a natureza do crime que lhe era imputado.

capa livro processo kafka

Se o romance foi rapidamente apreciado como literatura revolucionária, um dos homens do teatro francês de maior destaque no seu tempo, Jean-Louis Barrault aliciou o romancista André Gide para o projeto de levar à cena O Processo, a adaptação teatral foi apresentada em 1º de outubro de 1947, Louis Barrault encenou e interpretou a figura de Josef K. e Madeleine Renaud o papel de Leni. O que há assim de tão poderoso nesta adaptação teatral? Guindou-se a peça ao pormenor de precursora do teatro contemporâneo (Beckett, Ionesco, Adamov), o gerente Josef K., condenado e executado numa cena onde se privilegia o paradoxo. Tal como o romance, a peça teatral, talvez por preservar o espírito e as intenções de Kafka, é hoje um clássico do teatro moderno, vamos-lhe agora tecer algumas considerações, referindo a importância que nesta edição têm os comentários de José Estevão Sasportes, ele próprio tradutor da versão francesa.

Josef K. está em cena, é dia dos seus anos, sonha num idílio com a menina Burstner, a sua vizinha, entram os inspetores, é informado de que tem um processo, K. diz-lhe que terá sido vítima de um erro: “O que me interessa é saber por quem sou acusado, qual a autoridade que dirige este processo.” Não obtém resposta, ou melhor, os inspetores recordam-lhe que está preso.

O Processo de Kafka, adaptação teatral em França
O Processo de Kafka, adaptação teatral em França

Mudança de cena, K. está no banco, é o anúncio de que a sua rotina permanece, volta para casa, conversa com a senhoria, chega a menina Burstner, conta-lhe tudo quanto se passou. E o espetador é guindado para uma nova cena, ou melhor, uma sequência de conversas, K. está cada vez mais desnorteado. Na segunda parte desta peça teatral surge o tio de K., está profundamente inquieto, é a honra da família que pode ser manchada, vão a casa do advogado, o dr. Huld. Em mudança de cena temos um quarteto na conversa, Leni, a empregada, visivelmente é muito mais do que uma empregada. Aparece o comerciante Block, os diálogos são arrepiantes, parece que a justiça é credora de que cada um dos juízes tem a sua livre interpretação, há mil e uma maneiras de que um individuo pode ser acusado toda a vida. Muda a cena e estamos agora em casa da Titorelli, é um pintor que faz retrato dos juízes, mas conhece os meandros da justiça, fala-se da absolvição aparente e da prorrogação ilimitada, vê-se claramente que André Gide procurou adaptar os aspetos mais relevantes do romance. Temos então a sessão espetacular de K. perante o juiz, K. dirá alto e bom som: “Por detrás da minha prisão, por detrás de todas as manifestações da vossa absurda justiça, pressinto a rede de uma vasta organização que os engloba a todos, inspetores venais, sargentos estúpidos, dos mais ínfimos subordinados aos juízes das mais altas hierarquias, que nunca veremos nem podemos ter a esperança de alcançar.” Tem lugar a conversa com o capelão, a peça termina com K. entregue aos oficiais de justiça que vão cumprir a execução, passam pessoas por ali perto, é melhor não perder tempo com aquele cumprimento da justiça, o assunto não diz respeito a quem por ali passa.

Pela sua pertinência, pela acuidade da sua análise, dou seguidamente palavra a José Estevão Sasportes, ele produziu um belo texto intitulado Introdução às Leituras de Kafka, parece que pode nos ajudar a entender o contexto em que estas obras-primas foram escritas e como guardam atualidade.

Imagem do filme O Processo, realização de Orson Welles, 1962, baseado no romance de Kafka
Imagem do filme O Processo, realização de Orson Welles, 1962, baseado no romance de Kafka

Duas obras que me marcaram profundamente, seguiram num caixote com outras centenas de livros que me acompanharam na guerra da Guiné, acabaram em cinzas na noite de 19 de março de 1969, noite excecionalmente quente, os guerrilheiros flagelaram o quartel com balas tracejantes, o colmo da minha morança incendiou-se, não era possível salvar nada, estavam no seu interior caixotes com granadas de morteiro, tudo ficou em cinzas com exceção da minha cama, mas o assunto para efeitos da análise da obra de Kafka, em particular de O Processo, é uma pura insignificância.

(continua)

Mário Beja Santos

 

 

 

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