Terça-feira, Julho 23, 2024
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Londres – por Ana Freitas (podcast)

Andar por cima da relva foi um linde de liberdade. Em 1977. Em Portugal o fim dessa proibição tinha apenas dois anos e mal se ousava.

Ouça a crónica no podcast:

Londres é outro mundo. Não pelo estranho que foi voltar a acompanhar-me de passaporte. Não pelas libras – que nunca deixou de assim ser. Admiro os que colocam os interesses do povo acima de quaisquer intuitos. E como esta moeda forte se mantém. Não será pela condução à esquerda. Ficou-lhes pelo andar a cavalo, cujas rédeas eram seguras com a mão esquerda, a direita era necessária para utilizar o chicote ou a espada. Sim pelo assumir publicamente o direito do exercício individual e coletivo de liberdade. Bem me lembro dessa primeira vez. A minha boca aberta em Picadilly Circus a observar quem passava. Sentada nas escadas daquela fonte mítica. Tanta cor. Desde a pele às roupas aos cabelos aos estilos. Uma aula, muitas aulas ao vivo.

Na década de 2000 numa das viagens de estudo com os alunos àquela cidade, retive a explicação de um dos guias locais – um senhor de provecta idade de um afecto e sensibilidades incomuns – sobre a estátua que encima aquela fonte.  Em 1886 o escultor Alfred Gilbert terá sido contratado para criar um memorial a Anthony Ashley-Cooper, o 7.º Conde de Shaftesbury. Este Lord Shaftesbury ter-se-á destacado pela sua filantropia e pelas várias campanhas contra as injustiças da época vitoriana. Como as condições de trabalho infantil – que Charles Dickens primorosamente ousou tipificar em Oliver Twist – limitando o emprego de crianças em fábricas e minas, apesar de existirem leis desde a década de 1820. Em 1844 criou as Ragged schools, escolas básicas informais gratuitas.

O escultor decidiu celebrar a vida do conde com uma fonte encimada pela figura alada de Anteros, símbolo grego do amor altruísta. Inaugurada em 1893 foi entendida por todos e também pelos políticos como símbolo dos direitos da criança. E desde então, concluiu o guia com lábios de felicidade, todas as crianças são respeitadas no Reino Unido. E nunca mais se viu uma criança a pedir ou a viver na rua.

Londres é o meu estrangeiro mais próximo.

Ana T. Freitas

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